A parashá termina com a obrigação de lembrar todos os mandamentos; pois é uma falácia pensar que o judaísmo pode assentar-se apenas sobre a fundação de mandamentos tão primários quanto acreditar em D'us e observar o Shabat, vitais como o são.

A mitsvá de tsitsit (franjas) é um veículo que possibilita ao judeu lembrar-se de todos os preceitos da Torá.

A passagem abaixo faz parte da leitura do Shemá. A Torá nos ordena a lembrar do Êxodo do Egito todos os dias (Devarim 16:3). Os sábios instituíram que esta mitsvá deve ser cumprida durante as preces diárias, através da recitação de versículos da Torá. Escolheram, portanto, esta passagem para ser agregada ao Shemá pois, além da menção do Êxodo, contém diversos outros conceitos básicos.

Quando um judeu coloca tsitsit, considera-se como se tivesse cumprido todas as mitsvot da Torá. Aquele que cumpre a mitsvá do Shabat, também, é como se tivesse cumprido todas as mitsvot da Torá. Por esta razão, a Torá traz a história do homem que profanou o Shabat e a mitsvá de tsitsit próximas uma da outra.

"E falou D'us a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes que façam para si tsitsit nos cantos de suas vestimentas, por todas as suas gerações."

O que significa a palavra tsitsit?

  1. Tsitsit são "franjas". Referem-se aos fios que devem ser feitos com o propósito explícito da mitsvá (lishmá), tecidas segundo as especificações da lei judaica, e atadas às vestimentas de quatro cantos.
  2. A palavra tsitsit não se refere apenas às franjas em si, mas ao que estas franjas evocam naqueles que as vestem. A palavra "hetsits" (relacionada a 'tsitsit') quer dizer olhar, observar algo intencionalmente. O tsitsit exorta aquele que o usa a olhar atentamente para as franjas a fim de se lembrar de todos os mandamentos.

Qual a importância dos cantos?

Os cantos das roupas são acessíveis e visíveis, o que é essencial no contexto deste mandamento, uma vez que as franjas devem ser vistas a fim de servirem como lembretes.

Só é obrigado a atar tsitsit às roupas se a pessoa vestir uma roupa de quatro cantos. Não obstante, a mitsvá é tão grande que nossos sábios ensinaram que um judeu deve vestir um traje de quatro cantos com tsitsit diariamente, a fim de cumpri-la. Ele também deve educar seus filhos a cumprirem a mitsvá de tsitsit.

Vestir tsitsit confere santidade ao judeu. D'us ordenou: "Envolvam-se em vestimentas parecidas com as dos anjos." Os tsitsiyot são atados às quatro asas dos anjos chamados de Chayot. A palavra canfê e canaf (que significam cantos e também asas) alude às asas dos anjos.

Por que a Torá diz: "por todas as suas gerações"?

Quando alguém é sincero acerca de utilizar até mesmo suas vestimentas como meio de conseguir devoção a D'us, pode imbuir seus filhos e as gerações posteriores com a mesma dedicação.

As pessoas nunca devem subestimar o efeito que suas ações podem ter sobre outros, especialmente sobre os que lhe são próximos, e conseguem perceber se seus atos são ou não motivados pela dedicação genuína.

"E nas franjas de cada canto prenderão um cordão azul-celeste."

Um dos oito fios deve ser de lã pura e tingido de azul, com a tinta obtida do sangue da criatura marinha de nome chilazon. Este fio não pode ser tingido com tinta azul obtida de qualquer outra fonte. O fio azul do tsitsit sugere o Trono de Glória Celestial Superior.

Os fios brancos e o azul devem se mesclar de maneira a formarem uma única franja, pois a combinação dos dois elementos constitui uma única mitsvá.

Conforme legisla Maimônides, se o fio azul não é acessível, sua ausência não impede a realização da mitsvá, com todos os fios brancos.

A identidade exata da criatura que é a fonte desta tinta azul não é conhecida hoje, de modo que o fio azul é atualmente impraticável. Nossos tsitsiyot, portanto, são compostos apenas de fios brancos. Não obstante, são casher. A cor branca é símbolo de perdão do pecado.

"E serão para vós por tsitsit, e o olhareis e recordareis de todos os preceitos de D'us, e as cumprireis."

O Todo Poderoso nos presenteou com uma mitsvá que tem o propósito de nos lembrar de todas as Suas outras mitsvot: a dos tsitsit. O objetivo das franjas é que o judeu deve olhar para elas, lembrar-se de D'us e desistir de pecar.

Como os tsitsiyot ajudam o judeu a lembrar-se de suas obrigações com o Todo Poderoso?

1. As franjas são como uma insígnia real, lembrando seus portadores de que estão sempre a serviço do Rei. Quando um judeu caminha usando tsitsit, os anjos proclamam: "Honra seja dada ao filho do Rei!"

2. Um não-judeu perguntou a Rabi Binyamini: "Que costume tolo vocês judeus observam?! Por quê penduram fios tecidos com nós nos cantos de suas roupas?"

"Eu explicarei de uma maneira simples," replicou Rabi Binyamin. "Nosso mestre Moshê queixou-se ao Altíssimo que um homem profanou o Shabat porque naquele dia não estava usando o tefilin, que lembra o judeu de seu laço entre D'us e o povo judeu. (Naquela época, os judeus usavam os tefilin o dia inteiro, exceto em Shabat, quando não deviam usá-los.) D'us disse então a Moshê: "Eu te darei uma mitsvá que se aplica até em Shabat e Yom Tov. Ordene que cada judeu coloque tsitsit, fios tecidos e com nós, a suas roupas, a fim de se lembrarem das mitsvot."

"Pois saiba que estamos agindo como as pessoas que dão nós em seus lenços a fim de lembrá-los de certas coisas."

3. Cada detalhe da mitsvá foi projetado para lembrar-nos de que, como servos do Todo Poderoso, somos obrigados a cumprir Seus mandamentos.

  • Os tsitsit são atados a um canto em cada uma das quatro direções para nos lembrar de nossa obrigação, aonde quer que nos voltemos.
  • O valor numérico da palavra tsitsit é 600. Se acrescentarmos a esse número os 8 fios e 5 nós (em cada canto), teremos o total de 613, um lembrete das 613 mitsvot.

Além disso, cada canto tem cinco nós para lembrar-nos dos Cinco Livros da Torá. Os oito fios em cada canto lembram que o judeu deve cuidar dos órgãos que podem levar ao pecado: olhos, ouvidos, narinas, mãos, pés, órgãos reprodutivos e o coração, ou emoções.

4. O versículo acima diz que os tsitsit ficam nas roupas para que se possa vê-los e assim lembrar-se dos mandamentos.

Os sábios interpretam esta frase "para que possas vê-Lo", referindo-se não ao tsitsit, mas a D'us (Talmud, Menachot 43b), pois cumprindo este mandamento com as intenções apropriadas, a pessoa pode aprender a ver e perceber que D'us dirige o mundo. Assim, de fato, a pessoa O vê e se lembra da obrigação de ser leal a Ele.

"E não seguireis atrás de vossos corações e de vossos olhos, através dos quais vos desviareis."

O coração e os olhos são como espiões do corpo, em busca de pecados ansiados por sua natureza animal. O coração deseja, e os olhos procuram, e o corpo peca.

A mitsvá de não ir atrás de "nossos corações" nos proíbe de ter pensamentos de heresia, e não ir atrás de "nossos olhos", de ter pensamentos de imoralidade.

Esta mitsvá se aplica em todas as épocas, tanto a homens quanto a mulheres. Somos ordenados a manter nossas mentes sempre livres de conceitos proibidos.

Somos convocados a evitar qualquer pensamento que possa nos iludir a desenraizar um fundamento da Torá. A inteligência humana é limitada, e nem todos podem certificar-se da verdade, de modo que alguém pode destruir-se se seguir seus pensamentos aleatórios. Por isso, a Torá ordena que não se pode seguir atrás dos corações e olhos, a fim de que não se desvie de acreditar em D'us.

É significativo o fato de que a parashá começa e termina com o conceito de explorar e espionar. Os espiões que foram reconhecer a Terra foram procurar perigos que justificassem suas próprias idéias preconcebidas.

Calêv e Yehoshua viram a terra e nela encontraram justificativa para a garantia de D'us de que a Terra era muito boa, enquanto seus companheiros viram apenas confirmações para seus medos. Desta feita, a Torá nos adverte para não nos deixarmos levar pelos engodos que apelam ao coração e aos olhos. Em vez disso, o judeu deve ser governado por sua inteligência e fé.

"Para que vós vos lembreis e cumprais todos os Meus Mandamentos, e sejais santos para vosso D'us."

Apenas vestir os tsitsiyot não protege o judeu do pecado. A não ser que a pessoa use o tsitsit conscientemente para aceitar a autoridade das mitsvot de D'us, ela se parece com uma pessoa que faz um nó em seu lenço para lembrar-se de algo - mas não sabe do que.

Por que a mulher é isenta desta mitsvá?

1. A mitsvá de tsitsit vigora apenas durante o dia, pois o versículo diz: "e olhareis"; daqui nossos sábios aprendem que esta mitsvá é cumprida somente quando há possibilidade de enxergar os tsitsit, i.e. de dia. Por conseguinte, mulheres são isentas desta mitsvá, como o são de todas as mitsvot limitadas pelo tempo.

(Na prática, os tsitsit são usados pelos homens continuamente, até ao dormir, para que ao acordar pela manhã, quando a mitsvá é obrigatória, estes já estejam sobre o corpo.)

2. O tsitsit nos lembra de todas as mitsvot de D'us ("lembrem-se e cumpram todos os Meus mandamentos"). Como as mulheres não são obrigadas a cumprir todas as mitsvot, não precisam usar tsitsit.

A Torá conclui que meramente lembrar não é suficiente ("para que vocês lembrem e cumpram"). A pessoa deve cumprir, realizar todos os mandamentos, e não escolher algum entre esses; deve-se lembrar de todos os mandamentos e cumpri-los com o mesmo zelo e meticulosidade.

Como ensinam os sábios: "Seja tão escrupulosos ao cumprir um mandamento 'menor' como ao cumprir um 'maior', pois você não sabe a recompensa para os respectivos mandamentos." (Avot 2:1).

Tal percepção torna a pessoa sagrada, e é esta santidade o propósito de D'us ao tirar o povo judeu do Egito.

"Eu Sou o Eterno D'us, vosso D'us, que vos tirei da terra do Egito para ser vosso D'us. Eu Sou o Eterno, vosso D'us."

Esta passagem conclui com a afirmação, freqüentemente repetida, de que Ele nos tirou do Egito e como conseqüência, somos obrigados a aceitá-Lo como nosso D'us.