O que lhe vem à mente quando você pensa em Purim? Roupas, a Meguilá, cestas com presentes, e, é claro, aqueles pastéis com três pontas, hamantaschen. Chamados oznei Haman em hebraico, esses petiscos com três cantos com sementes de papoula (ou outros recheios) têm feito parte das celebrações de Purim durante séculos. De onde se originam? O que significam seus nomes? E por que são comidos em Purim?

Junte-se a nós numa busca pelas raízes antigas desse delicioso quitute.

História

Uma das menções mais antigas sobre esse petisco de Purim como oznei Haman é numa comédia escrita por Yehudah Sommo (1527-1592) da Itália.

Traduzido literalmente como “orelha de Haman”, este nome levou ao mito de que os pastéis celebram o corte das orelhas de um homem perverso antes que ele fosse enforcado. Porém, “oznayim” pode às vezes referir-se a pastéis que não são de Purim. Na verdade, ao descrever o maná que caiu do céu enquanto os judeus estavam no deserto, Rabi Yosef ibn Kaspi (1279-1340) e Rabi Don Yitschak Abarbanel (1437-1508) descrevem um petiso chamado oznayim, sem menção a Haman ou Purim. (Em muitas culturas do Leste Europeu, são pastéis recheados chamados de “pequenas orelhas”.) Finalmente, não há documentação dessas mutilações bárbaras tendo sido perpetradas.

Daniel, Esther e o Verdadeiro Hamantasch

Embora atualmente você possa encontrar hamantaschen recheado com praticamente qualquer tipo de recheio (doce ou salgado), o hamantaschen clássico sempre era recheado com sementes de papoula. Na verdade, a própria palavra”haman” pode se referir ao perverso Haman ou a sementes de papoula (mohn), e a palavra yidish “tash” significa bolso. Isso está de acordo com a clássica explicação dada no Código da Lei Judaica para comer hamantaschen em Purim:

Alguns afirmam que se deve comer um alimento feito com sementes em Purim em memória das sementes que Daniel e seus amigos comeram na casa do rei da Babilônia, como diz o versículo: “E ele lhes deu sementes.”

Mas o que o fato de Daniel comer sementes tem a ver com Purim?

O Talmud explica que Hatach, o fiel mensageiro da Rainha Esther e um dos menos conhecidos heróis da história de Purim, é um pseudônimo para nenhum outro que não Daniel.

Além disso, como lemos na história de Purim, quando Esther estava no palácio do rei, ela manteve sua identidade em segredo. O Talmud explica que como a comida não era casher, ela sobreviveu com vários grãos e sementes.

É em comemoração a Esther e Daniel que há um costume de comer grãos e sementes em Purim. A maneira pela qual este costume é tradicionalmente observado é comendo pastéis, ou seja, taschen recheado com mohn, sementes de papoula.

Baseados nesse motivo para comer hamantaschen, sempre que as clássicas fontes haláchicas discutem este costume, é feita uma menção específica do hamantasch sendo recheado com sementes de papoula.

Além da razão clássica para hamantaschen, muitas outras explicações foram oferecidas para explicar este costume. Na verdade, todo aspecto dessa guloseima é repleto de simbolismo. Aqui estão algumas explicações dadas.

O enfraquecimento de Haman
“Tash” em hebraico significa “enfraquecer”. Assim, o hamantasch celebra o enfraquecimento de Haman e nosso desejo de que D'us sempre nos salve enfraquecendo nossos inimigos.

Mensagens ocultas
Durante a história de Purim, muitos judeus não acreditavam que seriam completamente varridos do mapa. Mordechai os convenceu da seriedade da ameaça enviando-lhes numerosas cartas avisando-os da desgraça por vir. Temeroso de enviar as cartas pelas rotas convencionais para que seus inimigos não as interceptassem, ele enviou as cartas escondidas dentro de pastéis. Em celebração a isso, você come pastéis com um recheio.

Doçura oculta
Uma informação bem conhecida sobre o hamantaschen aponta para ofato de que o recheio está escondido dentro da massa. Antigamente, nossos ancestrais estavam acostumados a vivenciar milagres declarados. Num tempo de exílio, não vemos mais milagres abertamente revelados. Mesmo assim, a história de Purim mostra que isso não significa que fomos abandonados (D'us não o permita). Pelo contrário, D'us está sempre presente. Ele está apenas agindo de modo por trás da cena, assim como o recheio do hamentaschen se encontra escondido dentro da massa.

Três cantos
Embora haja uma antiga lenda de que Haman usava um chapéu de três pontas, e para comemorar sua queda, comemos um pastel de três cantos, há também um significado mais profundo. O Midrash diz que quando Haman reconheceu (o mérito de) nossos três antepassados, sua força imediatamente diminuiu. Por causa disso, comemos três pastéis de três cantos e os chamamos de “enfraquecedores de Haman (tashen).”

Outro motivo para os cantos: a palavra hebraica para “canto é “keren”, que literalmente significa “chifre” e pode também denotar “raio”, “sorte” ou “orgulho”. Assim, os sábios entendem o versículo “E todos os kerens do perverso eu cortarei” como se referindo a Haman, e “Exaltado será o keren dos justos” como se referindo a Mordechai.

Kreplach
Nenhuma discussão sobre hamantashen pode ignorar sua irmã, kreplach, pastéis recheados de carne frequentemente servidos com sopa. Nós os comemos três vezes ao ano: em Purim, na véspera de Yom Kipur, e em Hoshanah Rabá.

Rabi Yosef ben Moshê de Hoechstaedt (1423-1490), autor de Leket Yosher, é talvez a primeira autoridade haláchica que menciona kreplach como especificamente conectado a Purim. Kreplach também é mencionado por Rabi Yoel Sirkes (o Bach, 1561-1640), seu genro, Rabi Dovid Halevi (o Taz), Rabi Yeshaya Halevi Horowitz (o Shalah, 1565-1630), e muitos outros. Várias razões são dadas para se comer kreplach em Purim, e parece plausível que alguns aspectos desse costume se transferiram também para o hamantasch.

Feriados Ocultos
Em muitos feriados, a santidade do dia é aparente, pois nos abstemos de muitas formas de trabalho. Há três vezes ao ano em que fazemos uma refeição festiva repleta de carne, embora o trabalho seja permitido e a importância do dia esteja obscurecida de alguma forma: Purim, Erev Yom Kipur e Hoshanah Rabá - os três dias em que comemos kreplach.

Carne e farinha
Rabi Schneur Zalman de Liadi explica, em relação a Yom Kipur, que a carne no meio do kreplach significa os atributos emocionais, chamados midot, ao passo que a massa cobrindo a carne - feita de farinha de trigo - significa conhecimento (da’at) de D'us e da Torá, que também é comparada à farinha.

Na véspera de Yom Kipur, o atributo interior da bondade, que está oculto dentro do intelecto, brilha. Rezamos para que o atributo Divino de bondade e misericórdia seja revelado em nossa mente e coração, e que nós também respondamos aos outros com bondade e compaixão.

O Zohar compara a festa de Purim com a de Yom Kipur. Na verdade, é explicado que se pode conseguir mais com júbilo e celebração em Purim do que jejuando e rezando em Yom Kipur. Isso é sugerido pelos próprios nomes dos feriados, pois Yom Kipur pode ser lido como Yom Haki-Purim - o dia que é (somente) como Purim, Portanto, assim como na véspera de Yom Kipur nós comemos kreplach, também o fazemos em Purim.

Hamantaschen no Exílio
Embora não haja obrigação de comer hamantaschen em Purim, muitos passam por grandes dificuldades apenas para cumprir este costume. Rebetsin Chana, a mãe do Rebe, escreve em suas memórias que quando acompanhou seu marido, Rabi Levi Yitschak Schneerson ao exílio para divulgar o Judaísmo, às vezes era impossível conseguir algo especial para o Shabat, incluindo pão e velas. Certa vez, ela tinha pouca farinha e separou um pouco para assar hamantaschen para Purim: Segundo suas palavras: A festa de Purim chegou. Tivemos uma Meguilat Esther, que eu tinha incluído num pacote de comida que tinha enviado ao meu marido. Para Purim, fomos visitados por dois exilados, um jovem judeu, inclinado para o comunismo, e sua vizinha, uma engenheira que tinha estudado yidish e estava interessada no Judaísmo.

Algum tempo antes, eu tinha separado alguma farinha, com a qual assei dois hamantaschen. Embora seja um costume menor, desempenhou um papel importante em nossa vida, lembrando-nos que ainda éramos seres humanos e ainda judeus, e que nem todo dia era igual. Fomos lembrados que poderíamos estar preocupados com coisas mais elevadas - não apenas pensar sobre nosso pão diário, e tirar o balde de água do poço e derramar alguma água no chão, deixando o solo sempre barrento ainda mais barrento.

Os dois convidados foram nossa companhia em Purim. Eles consideraram o hamantaschen como uma extravagância excessiva e, como era prevalente naquela cultura, investiram contra os costumes “fora de moda”.

Graças a D'us, a maioria de nós não precisa economizar farinha para nossos hamantaschen, e não precisamos temer que seremos ofendidos por comê-los. Então, o que estamos esperando? Vamos assar alguns hamantaschen!