Rabi Yehuda Hanasi

Descendente de Hillel, o Rabino Yehuda HaNasi foi o compilador da Mishná e o último dos Tanaim. Devido à sua grande estatura, era conhecido simplesmente como Rabino, ou Rabeinu HaKadosh1.

Desenvolvendo uma relação próxima com o imperador Marco Aurélio Antonino, o Rabino reconheceu-o como um indivíduo íntegro que amava o aprendizado, inclusive o estudo da Torá2. Graças à sua amizade com Antonino, o Rabino pôde assumir abertamente o papel de Nasi.

De fato, o Talmud afirma que, desde a época de Moshe até o Rabino, nenhum outro indivíduo personificou em si a suprema grandeza em erudição da Torá, riqueza e poder político como Yehuda HaNasi3. Além disso, D’us concedeu a ele todas essas qualidades para capacitá-lo a escrever a Mishná e a obter sua aceitação por todos os judeus. Por fim, o Rabino recapitula um tema recorrente na história judaica: em tempos de opressão, quando algo de suprema importância precisa ser realizado, D’us concede breves períodos de trégua. Esse foi o caso de yehuda HaNasi.

A Torá Oral

Antes da época do Rabino Yehuda, era proibido registrar publicamente a Lei Oral4, embora anotações para uso privado fossem permitidas5. Essa proibição existia por vários motivos6. Primeiro, porque novas situações sempre surgem, e registrar a Lei Oral por escrito limitaria seu alcance.

Segundo, assim como qualquer área complexa de conhecimento, como a cirurgia, não pode ser aprendida apenas por meio de livros didáticos, mas também requer a interação com um mestre, da mesma forma, a Lei Oral não pode ser compreendida plenamente sem um rabino vivo para lhe dar significado.

Terceiro, os gentios poderiam reivindicá-la como sua, assim como tentaram fazer com base em sua tradução da Bíblia.

Sem a interpretação oral da Torá Escrita, ela permanece um livro selado, impedindo tais reivindicações. Apesar de todas essas importantes ideias em contrário, Rabi Yehuda percebeu que o domínio romano benevolente era apenas temporário. Eventualmente, os tempos se tornariam instáveis novamente e os judeus se dispersariam pelo mundo. Era, portanto, necessário que cada judeu tivesse um guia que detalhasse os principais pontos de todas as mitsvot. Com base em um versículo bíblico que permite aos principais sábios suspender uma proibição da Torá em casos de emergência nacional 7 o rabino registrou a Lei Oral para a posteridade.

A Compilação da Mishná

Aproveitando o clima político favorável, Rabi Yehuda convocou todos os estudiosos da Torá em Eretz Israel. Ao longo de muitos anos, cada assunto foi minuciosamente analisado, com a legislação deixada indefinida pelas gerações anteriores sendo transformada em lei e incorporada à Mishná.8

Existem duas opiniões principais sobre o papel de Rabi Yehuda na autoria da Mishná. Uma delas defende que a maior parte do material da Mishná — a redação básica e a organização dos tratados — já existia muito antes de sua época.9 Essa visão sustenta que o seu papel foi o de pegar esse material oral, escrever um texto padrão e universal, adicionar alguns comentários explicativos e resolver questões disputadas pelos sábios de sua época e pelos que o precederam imediatamente.

Outra opinião defende que Rabi Yehuda compôs a redação da Mishná e a dividiu em ordens, tratados e capítulos.10 De acordo com ambas as opiniões, seu trabalho foi baseado nos ensinamentos de Rabi Meir e de Rabi Akiva, os estudos mais sucintos e fáceis de entender.11 Na maioria dos casos, Rabi Yehuda registrou suas opiniões anonimamente, indicando que se tratam de decisões normativas (stam mishná) 12.

A Mishná

Embora Rabi Yehuda tenha escrito e disseminado a Mishná, ela é um guia, ainda que escrito de forma enigmática, cuja explicação requer um Rebe, um mentor. Além disso, como uma Mishná específica pode se aplicar apenas em circunstâncias especiais, não se pode decidir sobre a halachá (lei judaica) com base em uma Mishná13 Conforme idealizado por ele, a Mishná é dividida em seis ordens, 63 tratados, 525 capítulos e 4.224 Mishnayot.

As seis ordens são: Zeraim, que trata da oração e das leis agrícolas; Moed, sobre o Shabat e as leis das festas judaicas, dias de jejum e regulamentos de luto; Nashim, referente às mulheres, incluindo casamento e divórcio; Nezikin, sobre assuntos financeiros e procedimentos judiciais; Kodashim, que se concentra na lei sacrificial e Cashrut; Taharot, pureza ritual, incluindo mikve e pureza familiar, Hilchot Nidá. Rabi Yehuda HaNasi concluiu a Mishná em 190 d.C.

Outros Escritos dos Tanaim

Como a Mishná foi escrita de forma muito concisa, uma vasta quantidade de conhecimento permaneceu incompleto. Esse material também foi compilado por Rabi e seus discípulos e registrado separadamente em volumes conhecidos como Mechilta (Midrash sobre Shemot /Êxodo), Safra (também conhecido como Torá Cohanim, Midrash sobre Vayicrá/Levítico), Sifri (Midrash sobre Bamidbar/Números e Devarim/Deuteronômio), Bereshit/Gênese e Tosefta.

Essas obras midráshicas são de natureza haláchica, fornecendo as fontes bíblicas para muitas das leis encontradas na Mishná. Existem também midrashim homiléticos, como o Midrash Rabá sobre Bereshit. Bereshit são comentários mais extensos sobre a Mishná, enquanto Tosefta é um apêndice da Mishná.14.

As Gerações dos Tanaim

Houve cinco gerações de Tanaim, 30 AEC – 200 EC. Alguns dos principais Tannaim em cada geração incluem:

Primeira Geração: (Antes do churban) Beit Shammai, Beit Hillel, Rabino Shimon ben Gamliel a Nasi, Rabino Ishmael o Cohen Gadol.

Segunda Geração: (Yavne) Rabi Yochanan ben Zakai, Raban Gamliel a Nasi, Rabi Joshua, Rabi Elazar ben Hyrcanus, Onkelos15.

Terceira Geração: (Beitar) Rabi Akiva, os outros sete mártires.

Quarta Geração: (depois de Beitar) Rabi Meir, Rabi Shimon bar Yochai, Rabi Yehuda, Rabi Shimon ben Gamliel o pai do rabino.

Quinta Geração: Rabi Yehuda HaNasi — sétimo na linha de sucessão de Hillel. As gerações da Casa de Hillel, de pai para filho, cada um dos quais atuou como Nasi 16:

  • Hillel
  • Rabi Shimon I
  • Raban Gamliel I (HaZaken)
  • Rabi Shimon II (um dos 10 mártires)
  • Raban Gamliel II de Yavne
  • Rabi Shimon (III) ben Gamliel ((O rabino Shimon ben Gamliel é frequentemente mencionado na Mishná)
  • Rabi Yehuda HaNasi

Seus filhos: Raban Gamliel (III) e Rabino Shimon (IV), os últimos Tanaim 17.