Quem foi o primeiro viajante europeu a trazer um relato da China?

Se você pensou em Marco Polo, errou. O rabino Benjamin de Tudela partiu da Espanha em algum momento da década de 1160, um século antes de Marco Polo partir de Veneza em 1271. Seu diário de viagem fornece um relato rico e inestimável de como os judeus e seus vizinhos viviam em grande parte da Europa e da Ásia.

“Viajei primeiro da minha cidade natal para a cidade de Saragoça e de lá, pelo caminho do rio Ebro, para Tortosa.”

Assim, o rabino Benjamin, filho de Jonas, da terra de Navarra, inicia seu extenso relato de viagem, conhecido pelos entusiastas da história judaica como “O Itinerário de Benjamin de Tudela”.

Capa da tradução latina de “O Itinerário”, impressa em 1633.
Capa da tradução latina de “O Itinerário”, impressa em 1633.

A data exata da partida do rabino Benjamin de Tudela, no norte da Espanha, não é conhecida, mas sua jornada durou mais de uma década. Ele retornou para casa em 1173 d.C., trazendo consigo suas anotações de viagem. Um contemporâneo, cujo nome não foi preservado pela história, obteve o diário após a morte do rabino Benjamin. Ele editou e compilou as anotações em um manuscrito, que foi amplamente lido, traduzido para vários idiomas e estudado até os dias de hoje.

“O rabino Benjamin… passou por muitos países remotos, como relata em seu livro. Em cada lugar por onde esteve, registrou tudo o que viu ou o que lhe foi contado por pessoas de confiança, assuntos nunca antes ouvidos na terra de Sefarad [Espanha]. Ele também menciona alguns dos sábios e homens ilustres que residiam em cada lugar... Este rabino Benjamin é um homem sábio e compreensivo, versado na Torá e na halachá, e onde quer que tenhamos testado suas afirmações, constatamos que são precisas, verdadeiras e consistentes, pois ele é um homem confiável.” 1

A maioria dos estudiosos posteriores dúvida da precisão de alguns dos relatos do rabino Benjamin, que beiram o reino da fantasia. Mas o consenso geral é que o Itinerário de Benjamin de Tudela está entre as fontes primárias mais valiosas do século 12, um tesouro de informações sobre a vida naquela época, tanto dentro quanto fora da comunidade judaica.

O que motivou o rabino Benjamin de Tudela a empreender uma jornada tão árdua? Ao longo dos últimos séculos, estudiosos têm tentado responder a essa pergunta, elaborando diversas teorias. Neste artigo, exploraremos possíveis respostas.

Comércio

Nada se sabe sobre a vida pessoal do Rabino Benjamin. Não sabemos quantos anos ele tinha no início de sua jornada, nem se deixou algum familiar para trás. É provável, no entanto, que o Rabino Benjamin fosse um comerciante. Sua rota seguia as rotas comerciais conhecidas da época, e grande parte de seus escritos aborda o estado do comércio por onde passava. Por exemplo, ele relata sobre Montpellier, na França:

“Este é um lugar bem situado para o comércio. Fica a cerca de uma parasanga do mar, e homens vêm a negócios de todos os lugares, de Edom (Cristandade), Ismael (Arábia), da terra do Algarve (a ponta sudoeste da Península Ibérica), da Lombardia, do domínio de Roma, o Grande, de toda a terra do Egito, do Levante, da Grécia, da França, da Ásia e da Inglaterra. Pessoas de todas as nações são encontradas lá fazendo negócios por intermédio dos genoveses e pisanos.”2

Sobre Amalfi, na Itália, ele escreve:

  • “Os habitantes do local são mercadores que se dedicam ao comércio, que não semeiam nem colhem, porque habitam colinas altas e penhascos imponentes, mas compram tudo por dinheiro. No entanto, têm abundância de frutos, pois é uma terra de vinhedos e oliveiras, de jardins e plantações, e ninguém pode guerrear contra eles.” 3
  • Rabino Benjamin estava especialmente interessado nas ocupações praticadas nas comunidades judaicas que visitou. Por exemplo, ele descreve os judeus de Tebas (Grécia Central) como “os mais habilidosos fabricantes de seda e tecido púrpura de toda a Grécia”.4
  • Ele também relata que Jerusalém “contém uma tinturaria, pela qual os judeus pagam um pequeno aluguel anual ao rei, sob a condição de que, além dos judeus, nenhum outro tintureiro seja permitido em Jerusalém”.5

Destinos

Em seu relato de viagem, o Rabino Benjamin descreve destinos na Espanha, França, Itália, Grécia, Constantinopla, Síria, Líbano, Terra de Israel, Babilônia, Arábia, Pérsia, Samarcanda, Tibete, Índia, China, Abissínia, Núbia, Egito, Sicília, Alemanha, Boêmia, Eslavônia e Rússia.

Os estudiosos divergem em suas opiniões sobre se o Rabino Benjamin realmente visitou cada um dos lugares que menciona. É possível que algumas das descrições sejam baseadas no que ele ouviu de outras pessoas durante suas viagens.

Arte de Shalom Carroll
Arte de Shalom Carroll

Observações

As descrições do Rabino Benjamin sobre a maioria dos destinos são muito breves, consistindo no tempo de viagem do destino anterior até o próximo, uma descrição geral do local, sua população e suas ocupações, e um relato sobre o tamanho da comunidade judaica, frequentemente listando seus líderes nominalmente.

Por exemplo, a entrada sobre Antioquia na atual Turquia diz:

“De lá [de Malmistras] são dois dias de viagem até Antioquia, a Grande, situada no rio Fur (Orontes), que é o rio Jaboque, que nasce no Monte Líbano e na terra de Hamate. Esta é a grande cidade que o Rei Antíoco construiu. A cidade fica junto a uma montanha alta, que é cercada pela muralha da cidade. No topo da montanha há um poço, de onde um homem designado para esse fim direciona a água por meio de vinte passagens subterrâneas para as casas dos grandes homens da cidade. A outra parte da cidade é cercada pelo rio. É uma cidade fortemente fortificada e está sob o domínio do Príncipe Boemundo Poitevin, cognominado le Baube. Dez judeus moram aqui, dedicando-se à fabricação de vidro, e à sua frente estão R. Mordechai, R. Chayim e R. Shmuel.”6

Monte Libano
Monte Libano

Cidades e comunidades maiores são descritas com muito mais detalhes. Por exemplo, Roma recebe seis parágrafos, onde o Rabino Benjamin menciona “muitas estruturas maravilhosas na cidade, diferentes de quaisquer outras no mundo”, 7como “oitenta palácios pertencentes a oitenta reis que ali viveram” e “o Coliseu, em cujo edifício existem 365 seções, de acordo com os dias do ano solar”. 8

Constantinopla também recebe mais espaço, com descrições maravilhosas de suas riquezas:

“O Rei Emanuel construiu um grande palácio para a sede de seu governo na costa do mar, além dos palácios que seus pais construíram, e chamou-o de Blachernae. Ele revestiu suas colunas e paredes com ouro e prata e gravou nelas representações das batalhas anteriores à sua época e de seus próprios combates. Ele também ergueu um trono de ouro e pedras preciosas, e uma coroa de ouro foi suspensa por uma corrente de ouro sobre o trono, disposta de modo que ele pudesse sentar-se sob ela. Era incrustada com joias de valor inestimável, e à noite não eram necessárias luzes, pois todos podiam ver pela luz que as pedras emitiam. Inúmeros outros edifícios podem ser vistos dentro da cidade. De todas as partes do império grego, tributos são trazidos aqui todos os anos, e eles enchem as fortalezas com vestes de seda, púrpura e ouro. Como esses celeiros e essa riqueza, não há nada no mundo inteiro que se compare a eles.” 9

Palácio de Blachernae hoje.
Palácio de Blachernae hoje.

Quando o Rabino Benjamin chega à Terra de Israel, suas descrições passam de um tom econômico para um aspecto mais histórico e sentimental. Ele destaca a conexão entre seu destino e o texto do Tanakh. Ele também indica a localização de túmulos importantes.

Por exemplo, ele escreve sobre Hebron:

“Os gentios ergueram ali seis túmulos, respectivamente de Avraham e Sara, Yistchac e RivkaYaacov e Lea. Os guardiões, dizem aos peregrinos, que esses são os túmulos dos Patriarcas, informação pela qual os peregrinos lhes pagam. Se um judeu vier, porém, e der uma recompensa especial, o guardião da caverna lhe abre um portão de ferro, construído por nossos antepassados, e então ele pode descer por meio de degraus, segurando uma vela acesa na mão. Ele então chega a uma caverna, na qual nada é encontrado, e a uma caverna além dela, que também está vazia, mas quando chega à terceira caverna, eis que há seis sepulturas: as de Avraham, Yitschac e Yaacov, respectivamente em frente às de Sara, Rivka e Lea. E sobre os túmulos há inscrições talhadas em pedra; sobre o túmulo de Avraham está gravado: "Este é o túmulo de Avraham"; sobre o de Yitschac: "Este é o túmulo de Yitschac, filho de Avraham, nosso pai"; sobre o de Yaacov: "Este é o túmulo de Yaacov, filho de Yitschac, filho de Avraham, nosso pai"; e sobre os outros: "Este é o túmulo de Sara", "Este é o túmulo de Rivka" e "Este é o túmulo de Lea". Uma lâmpada arde dia e noite sobre os túmulos na caverna.”10

Histórias

Entrelaçadas às próprias observações do Rabino Benjamin estão histórias que ele ouviu de outras pessoas. Talvez a mais intrigante seja a história do rei persa encontrando judeus das Dez Tribos Perdidas.

Quinze anos antes da chegada do Rabino Benjamin à Pérsia, a cidade persa de Ruyy foi atacada e saqueada por uma tribo chamada Kofar-al-Turak. O Rabino Benjamin os descreve como um povo “que adora o vento e vive no deserto, e que não come pão nem bebe vinho, mas se alimenta de carne crua. Eles não têm nariz, e em vez disso têm dois pequenos orifícios pelos quais respiram. Comem animais puros e impuros, e são muito amigáveis com os israelitas.”11

“Em resposta ao ataque, o rei da Pérsia reuniu seu exército, contratou um guia e partiu em busca de Kofar-al-Turak. Viajaram pelo deserto, perderam-se e ficaram sem comida. Finalmente, os sobreviventes chegaram às montanhas de Naisabur, onde viviam os judeus. Chegaram lá no sábado e acamparam nos jardins, plantações e junto às fontes de água que ficam às margens do rio Gozan. Era a época da maturação dos frutos, e eles comeram e consumiram tudo. Ninguém se aproximou deles, mas avistaram cidades e muitas torres nas montanhas. 12

“O rei queria chegar ao outro lado do rio e ver quem morava lá. Procuraram e encontraram uma grande ponte, na qual havia três torres, mas o portão da ponte estava trancado. E do outro lado da ponte havia uma grande cidade. Então gritaram em frente à ponte até que um homem apareceu e perguntou o que queriam e quem eram. Mas não o entenderam até que um intérprete chegou e compreendeu a língua deles. E quando ele lhes perguntou, disseram: ‘Somos os servos do rei da Pérsia e viemos perguntar quem és tu e a quem serves.’ Ao que o outro respondeu: ‘Somos judeus; não temos rei nem príncipe gentio, mas um príncipe judeu governa sobre nós.’

“Então o questionaram a respeito dos infiéis, os filhos de Ghuz de Kofar-al-Turak, e ele respondeu: ‘Na verdade, eles são nossos aliados, e quem procura prejudicá-los procura nos prejudicar.’ Então eles seguiram seu caminho e contaram ao rei da Pérsia, que ficou muito alarmado.13 Recorrendo a uma estratégia usada por outros governantes ao longo da história, o rei persa ameaçou vingar-se dos judeus do Império Persa caso ele e seu exército sofressem qualquer dano.

“Os judeus, então, reuniram-se em conselho e resolveram agradar ao rei por causa dos judeus que estavam exilados em seu Império. O rei, então, entrou em suas terras com seu exército e lá permaneceu por quinze dias. Eles o honraram muito e enviaram um mensageiro a Kofar-al-Turak, seus aliados, relatando-lhes o ocorrido. Em seguida, estes ocuparam os desfiladeiros da montanha com um grande exército composto por todos os habitantes daquele deserto, e quando o rei da Pérsia saiu para lutar contra eles, posicionaram-se em formação de batalha. O exército de Kofar-al-Turak saiu vitorioso e matou muitos soldados persas, e o rei da Pérsia fugiu com apenas alguns seguidores para seu país.14

“Um dos soldados sobreviventes retribuiu aos judeus com um truque: [Ele] atraiu um judeu, cujo nome era Rabi Moshe, para ir com ele, e quando chegou à terra da Pérsia, este cavaleiro fez do judeu seu escravo. Um dia, os arqueiros compareceram perante o rei para demonstrar sua habilidade e nenhum deles conseguiu manejar o arco como Rabi Moshe. Então o rei o interrogou por meio de um intérprete que conhecia sua língua, e ele relatou tudo o que o cavaleiro lhe havia feito. Diante disso, o rei imediatamente lhe concedeu a liberdade, vestiu-o com vestes de seda, deu-lhe presentes e disse-lhe: ‘Se você abraçar nossa religião, eu o tornarei um homem rico e administrador da minha casa’, mas ele respondeu: ‘Meu senhor, não posso fazer isso’. Então o rei o levou e o colocou na casa do Rabino Chefe da comunidade de Isfahan, Sar Shalom, que lhe deu sua filha em casamento.” 15

Rabino Benjamin conclui que ouviu esta história do próprio Rabi Moshe. Cabe ao leitor decidir se R. Moshe era uma fonte confiável.

Vista de Isfahan, Pérsia, no século 19.
Vista de Isfahan, Pérsia, no século 19.

Objetivo da Viagem

Há muitas outras observações e histórias fascinantes no relato de viagem do Rabino Benjamin, mas elas estão além do escopo deste artigo. Por ora, voltemos à questão de por que o Rabino Benjamin empreendeu sua jornada.

A partir de seus escritos, fica evidente que o Rabino Benjamin era um explorador curioso, entusiasmado em compartilhar suas descobertas com sua comunidade na Espanha. Mas Marcus Nathan Adler, que traduziu o Itinerário para o inglês em 1907, acreditava que havia algo mais do que um simples espírito de exploração. Lembrando aos leitores que a viagem ocorreu durante as Cruzadas, ele escreve:

“As comunidades mais prósperas da Alemanha e as congregações judaicas que se encontravam ao longo da rota para a Palestina haviam sido exterminadas ou dispersas, e mesmo na Espanha, onde os judeus haviam desfrutado de completa segurança por séculos, eles estavam sendo impiedosamente perseguidos no reino mouro de Córdoba.

“Não é improvável, portanto, que Benjamin tenha empreendido sua jornada com o objetivo de descobrir onde seus irmãos expatriados poderiam encontrar asilo. Nota-se que Benjamin parece se esforçar ao máximo para localizar e fornecer detalhes sobre comunidades independentes de judeus, que tinham seus próprios líderes e não deviam lealdade ao estrangeiro.”16

Assim, a história do Rabino Benjamin era a de um judeu exilado, em busca de um canto do mundo onde ele e sua comunidade pudessem escapar da perseguição e encontrar segurança.