Pergunta:
Eu entendo a ideia de comer comidas tradicionais nas festas judaicas. Mas Rosh Hashaná parece um exagero. Estive numa casa onde havia meia dúzia alimentos, cada um simbolizando um desejo diferente para o ano que se inicia. É como pensar que D’us lhe dará um ano melhor porque você comeu alho poró, ou um aumento de salário porque você comeu passas e aipo — isso parece totalmente absurdo. Por que nós, judeus racionais, fazemos algo que parece supersticioso?
Resposta:
Desde os tempos do Talmud , temos o costume de comer alimentos com significado simbólico em Rosh Hashaná. De fato, a lista de alimentos permitidos no Talmud1 foi inclusive codificada no Código da Lei Judaica2. Por quê? Vejamos algumas das respostas. :
Para refletir
O rabino Menachem Meiri (1249–1310) explica que esses alimentos servem para concentrar nossa atenção na agenda do dia: oração, arrependimento e resolução de fazer o bem. 3
Na verdade, ele diz, que o costume inicial era apenas observar ou comer esses alimentos e refletir sobre seu significado. 4 Com o tempo, as pessoas ficaram mais absortas na refeição e menos na introspecção; portanto, muitas adotaram o costume de recitar uma breve oração antes de comer cada alimento, para garantir que a mensagem permanecesse em destaque.
Ao examinarmos a breve oração que alguns recitam para cada alimento simbólico específico, podemos compreender sobre o que devemos refletir ao comer. Assim, a cabeça de um cordeiro ou de um peixe, por exemplo, tem o propósito de nos levar a pedir que sejamos “a cabeça, e não a cauda” .5
Com base nisso, parece que o propósito desse costume é suscitar e melhor concentrar nossos pensamentos, já que, parafraseando o Sefer HaChinuch, “o coração e a mente de uma pessoa sempre seguem as ações que ela pratica”. 6
Outros, no entanto, explicam que o propósito desse costume não é meramente concentrar nossos pensamentos; antes, o próprio ato de comer esses alimentos pode, de certa forma, influenciar as bênçãos Divinas.
Orações Concretas
O rabino Yehuda Loew, conhecido como o Maharal de Praga (1520–1609), explica que, frequentemente, os decretos divinos e as bênçãos que D’us concede a este mundo permanecem apenas em estado potencial nos mundos celestiais, até que realizemos um ato físico para concretizá-los e dar-lhes forma física. A transição do potencial para o real depende das ações físicas da pessoa.7
(É por isso que os profetas realizavam uma ação física para simbolizar sua profecia. Por exemplo, o profeta Elisha fez com que o rei Joash atirasse uma flecha em direção à terra de Aram, inimiga dos judeus na época, e pegasse uma flecha e a golpeasse no chão, explicando que o número de golpes determinaria a força da vitória de Israel sobre Aram. 8)
Assim, explica o Maharal, comemos alimentos que trazem um bom presságio no início do ano, para que os decretos divinos para um bom ano se manifestem em nossa realidade física e se cumpram.
De maneira semelhante, o rabino Shlomo Kluger (1783–1869) explica9 que comer esses alimentos não é tanto uma oração, mas sim uma expressão da nossa fé de que seremos abençoados com um ano bom e doce. Isso, por si só, explica ele, tem o poder de transformar qualquer decreto negativo em um positivo.10
Que todos nós sejamos inscritos e selados para um doce ano novo!
Veja também: Alimentos Simbólicos

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