Entre os muitos episódios curiosos da Torá, poucos são tão impressionantes quanto a história de Bilam e sua jumenta falante. Contratado por Balac para amaldiçoar os israelitas, o profeta pagão partiu para cumprir a tarefa, apenas para ouvir sua própria jumenta falar com ele:

…A jumenta viu o anjo do Senhor e se agachou debaixo de Bilam. A ira de Bilam se acendeu e ele bateu na jumenta com uma vara. O Senhor abriu a boca da jumenta, e ela disse a Bila,: “Que te fiz para que me batesses três vezes?” … O Senhor abriu os olhos de Bilam, e ele viu o anjo do Senhor em pé no caminho, com uma espada desembainhada na mão. Ele se curvou e prostrou-se com o rosto em terra.1

Essa estranha história levanta a questão óbvia: por que D’us fez a jumenta de Bilam falar? Qual o propósito desse evento milagroso?

Abaixo, exploraremos várias explicações apresentadas pelos comentaristas bíblicos.

1. Para advertir Bilam

O Midrash Tanchuma explica que D’us abriu a boca da jumenta “para mostrar a ele que a boca e a língua estão sob Seu controle. Que se [Bilam] tentasse amaldiçoar, o poder da fala estaria nas mãos de D’us”.2

Nachmanides aprofunda-se na identidade de Bilam como feiticeiro. Adepto das artes ocultas, Bilam procurou usar poderes mágicos para superar a vontade Divina e prejudicar os israelitas. Nachmanides explica que D’us, portanto, realizou um milagre surpreendente — concedendo a fala a um animal — especificamente para assustar e advertir Bilam. Esta foi uma mensagem clara de que nenhuma feitiçaria poderia resistir ao plano de D’us. Se até mesmo um animal mudo podia falar pela palavra Divina, então as próprias habilidades místicas de Bilam eram lamentavelmente impotentes diante do Criador.3

De maneira semelhante, Sforno interpreta a jumenta falante como um alerta moral. Bilam se orgulhava de sua oratória e de suas maldições, mas aqui a boca de sua própria jumenta foi aberta por D’us. Isso tinha o propósito de lembrar Bilam de que toda fala e profecia são concedidas somente pela vontade Divina. Se D’us podia colocar palavras na boca de um mero animal, então certamente Bilam só poderia falar o que D’eus permitisse.

O choque de ouvir sua jumenta falar deveria ter levado Bilam a reconsiderar, percebendo que ele não passava de um instrumento nas mãos de D’us. A jumenta falante foi um ato de misericórdia – uma chance para o profeta desviado despertar, se humilhar e abandonar sua missão perversa antes que fosse tarde demais.4

2. Apenas para o bem de Israel

Segundo Kli Yakar, a fala da jumenta não foi apenas milagrosa — foi um reflexo do próprio Bilam. Assim como a jumenta não era uma oradora nata e só falou porque D’us a capacitou temporariamente para o bem de Israel, a habilidade profética de Bilam não era um reflexo de sua própria grandeza: foi um dom único, concedido para que ele abençoasse o povo judeue para que as nações não pudessem argumentar posteriormente que lhes foi negada a oportunidade da profecia. Essa resposta ressalta que tanto a jumenta quanto Bilam eram instrumentos divinos, ativados apenas para servir aos propósitos de D’us para Israel, sem que nenhum dos dois possuísse mérito espiritual próprio. 5

3. Humilhação Calculada

Ohr HaChaim explica que todo o episódio foi uma estratégia Divina deliberada para humilhar Bilam da maneira mais extrema possível. Bilam se comportou de maneira arrogante, falando como se agisse independentemente da vontade Divina. Para contrariar isso, D’us orquestrou um milagre público e humilhante, no qual Bilam seria repreendido, não por um profeta ou mesmo por um anjo, mas por sua própria jumenta, diante de seus dois servos.6

4. A jumenta realmente falou?

Apesar de tudo o que foi dito acima, talvez de forma um tanto surpreendente, alguns comentaristas antigos sugerem que esses versículos não devem ser interpretados literalmente. Rabi Saadya Gaon, Rabi Shmuel Bar Chofni — duas autoridades do período geônico — assim como Maimônides7 e Gersonides8 não acreditam que a jumenta tenha falado. De acordo com essa visão, todo o relato foi meramente uma visão que Bilam teve.

Essa noção é duramente criticada por Ibn Ezra, no entanto, que escreve que essa visão apenas agrada aos racionalistas que acreditam que D’us geralmente não intervém na ordem geral da natureza de forma milagrosa. 9

5. O início da ruína de Bilam

O Rebe explica10 que, por meio da discussão da jumenta com Bilam, sua intenção maliciosa de amaldiçoar o povo judeu começou a se desfazer. Os dignitários moabitas ficaram admirados com o espetáculo de uma jumenta repreendendo seu mestre com clareza e raciocínio moral — algo nunca visto antes — minando a credibilidade de Bilam como profeta.

O Zohar ensina que, por meio das palavras da jumenta, o poder de Bilam foi quebrado. Bilam, o grande feiticeiro, foi reduzido à humilhação, pois até mesmo seu animal viu o que ele não podia. Assim, a jumenta falante foi a primeira brecha no plano de Bilam, uma tática Divina para desarmar o mal com o absurdo e elevar Israel, expondo a falsidade pela boca de um animal.11