As antigas cidades de Sodoma, Amorá (Gomorra), Adamá e Tzevayim pecaram a tal ponto que o Todo-Poderoso destruiu todas elas (uma quinta cidade menor, Tzohar, foi poupada por pouco). Nós lemos:

O Senhor fez chover sobre Sodoma e Amorá enxofre e fogo do céu, do Senhor. E Ele revirou essas cidades e toda a planície, e todos os habitantes das cidades, e a vegetação do solo. 1

De acordo com Rashi, “essas cidades e toda a planície” referem-se a todas as quatro cidades. Da mesma forma, antes de morrer, Moshê advertiu que, por meio da transgressão dos israelitas, a destruição poderia sobrevir à Terra Santa "como a derrubada de Sodoma, Amorá, Admá e Tzevayim". 2 No entanto, a Torá afirma claramente que o fogo e o enxofre apenas cairam sobre duas das quatro cidades - Sodoma e Amorá.

Por que os diferentes níveis de tratamento? Se todas as quatro cidades foram destruídas, por que as duas primeiras também foram incineradas?

Por Que Apenas Duas Cidades Foram Queimadas?

O Rebe sugere que deve haver algo claramente diferente sobre as cidades de Sodoma e Amorá, uma diferença que já conhecemos, e é por isso que Rashi, geralmente tão elucidativo, não sente a necessidade de comentar.

No momento em que D'us decidiu o destino desses lugares pecaminosos, o versículo diz: O Senhor disse: “O clamor de Sodoma e Amorá tornou-se grande e o pecado deles tornou-se muito grave.”3

Apenas Sodoma e Amorá são mencionadas, enquanto Admá e Tzevayim não são. O que havia em Sodoma e Amorá para terem sido escolhidas? Todas as quatro cidades foram finalmente destruídas, presumivelmente porque todos haviam pecado de forma tão flagrante que não havia esperança de arrependimento. Então, por que duas foram poupadas da incineração?

Alguns4 sugerem que Sodoma e Amorá eram as principais cidades e, portanto, eram as mais culpadas. Mas, de acordo com esse raciocínio, Sodoma era a cidade principal, então por que mencionar Amora também? Afinal, quando Avraham implorou a D'us para poupar as cidades condenadas, ele argumentou que devia haver algumas pessoas justas em Sodoma (para evitar sua destruição),5 embora estivesse argumentando em defesa de todas as cidades. Claramente, então, Sodoma e Amorá eram diferentes das outras duas. Mas de que forma?

Os Nomes Não São os Mesmos

O Rebe aponta que este não é nosso primeiro encontro com essas cidades condenadas. Em Bereshit, lemos sobre uma guerra entre os “Quatro Reis” e os “Cinco Reis”, durante a qual Avraham intervém para resgatar seu sobrinho Lot.

Ao contar essa história, a Torá lista os nomes dos Cinco Reis: Eles travaram guerra com Bera, rei de Sodoma; e com Birshá, rei de Amorá; Shineav, rei de Admá; e Shemever, rei de Tzevayim.6

Rashi cita um Midrash7 que interpreta os nomes dos reis como indicativos de sua maldade, com base em seus significados hebraicos:

Bera (rei de Sodoma) indica dois tipos de maldade. Portanto, seu nome implica que "Ele era mau para o Céu e mau para as pessoas".

Birshá (rei de Amorá) também indica um mal duplo e, portanto, seu nome indica que "Ele foi notável em sua maldade".

Shineav (rei de Admá) serve como acrônimo para “Ele odiava seu Pai Celestial”.

Shemever (rei de Tzevayim) pode ser interpretado como se dissesse: "Ele desenvolveu a capacidade de se rebelar contra D'us."

Há uma distinção clara entre os dois primeiros e os dois últimos. Os reis de Sodoma e Amorá são retratados como culpados de pecados contra o Céu, bem como de praticar a maldade contra as pessoas. Em contraste, os reis de Admá e Tzevayim são apresentados como apenas odiando ou se rebelando contra D'us, mas não sendo cruéis com os humanos.

Esta, então, é a chave para compreender os diferentes destinos das cidades. Os habitantes de Sodoma e Amora eram culpados não apenas de se voltarem contra o Todo-Poderoso, mas de crimes contra seus semelhantes.

Quando o profeta Yechezekel protestou contra o povo de seu tempo por serem indiferentes aos vulneráveis, ele os comparou aos sodomitas: Este foi o pecado de sua irmã Sodoma: ela e suas filhas eram arrogantes, superalimentadas e despreocupadas; elas não ajudaram os pobres e necessitados. E com base no nome de seu rei, podemos presumir que esses maus-tratos às pessoas também se aplicavam a Amorá.

Por Que Isso importa

Sabemos de vários comentários anteriores de Rashi que a punição pela crueldade humana é muito mais severa do que a aplicada pela rebelião contra D'us.

Mais notavelmente, Rashi destaca como as pessoas que criaram a Torre de Babel para desafiar D'us foram meramente dispersas, enquanto na época de Noach tudo foi destruído: Na Torre as pessoas estenderam as mãos contra D'us no entanto permaneceram unidos e se comportavam com amor e amizade entre si, enquanto na época de Noach as pessoas não apenas estenderam as mãos contra D'us, como queriam desafiá-lO. A Geração do Dilúvio era formada por ladrões e havia contendas entre eles. Portanto, morreram por meio da água, afogados e retirados do mundo. É possível deduzir daqui, o quanto o conflito é odiado e o quanto a paz é apreciada.8

Quando as pessoas se comportam com crueldade umas com as outras, isso mina o próprio cerne da civilização. Está em conflito com todo o propósito da criação Divina. É por isso que Sodoma e Amorá receberam duas punições: ser totalmente queimada e derrubada em suas bases, refletindo a maldade da qual eram culpadas. No caso da Geração do Dilúvio, seu comportamento incivilizado levou à destruição da terra pela água. No caso de Sodoma e Amorá, sua conduta prejudicial à civilização levou à destruição da terra por meio do fogo. Em ambos os casos, a terra foi destruída, significando uma desaprovação radical das relações interpessoais do povo.

Enquanto todas as quatro cidades cometeram pecados insuportáveis e foram destruídas, apenas Sodoma e Amorá também foram queimadas, tornando essas cidades quase impossíveis de serem reconstruídas. Esse é o destino de lugares em que as pessoas se tratam com insensibilidade e vingança. Sodoma tornou-se sinônimo do mal, não pela maneira como seu povo se comportava com D'us, mas por causa do tratamento que seus habitantes dispensavam a outras pessoas.

A lição é clara: nenhum pecado é bom, mas pecados entre seres humanos são os piores. O Todo-Poderoso olhará com muito mais benevolência para aqueles que O desrespeitam, contanto que respeitem seus semelhantes.

Adaptado de Likutei Sichot, vol. 35, Parashat Vayera II.