Fonte: Talmud Bavli, Sanhedrin 11a; Talmud Yerushalmi, Sanhedrin 1:2
(Vol. IV - pg. 115-116)

Shmuel Hakatan [o pequeno] foi um dos mais eminentes sábios que viveu no período exatamente anterior e posterior à destruição do Bet Hamicdash, o Templo Sagrado de Jerusalém. Raban Gamliel, e Nasi, e os outros sábios respeitavam-no com a mais alta consideração.

Então por que era chamado Shmuel Hakatan?

Porque sempre costumava depreciar-se, como se não fosse tão importante e nem merecedor de todas as honras que todos lhe prestavam. Era extremamente humilde e segue uma história do quanto ele desejava se anular por causa de um amigo:

Naqueles dias, o calendário era fixado pelo Bet Din, o Tribunal Rabínico. Passado alguns anos, sempre que era necessário, eles proclamavam um ano bissexto e acrescentavam um segundo mês de Adar, o mês que antecede Pêssach.

Certa vez, Raban Gamliel ouviu que as estradas e pontes haviam sido destruídas pelas chuvas e que o povo não poderia alcançar Jerusalém a tempo para Pêssach, a não ser que um ano bissexto fosse declarado. Para proclamar um ano bissexto, era necessário que sete sábios, membros do Sanhedrin, Assembleia, se reunissem e considerassem cuidadosamente se seria realmente indispensável acrescentar um mês ao ano e, em relação a isso, trocar as datas das festas. Os sábios tinham que ser avisados um dia antes desta reunião.

“Nós precisamos mandar chamar sete dignatários para virem à Câmara Superior amanhã, pela manhã, para decidir se acrescentam um mês ao corrente ano!”, ordenou Raban Gamliel.

Raban Gamliel cuidou para que os seis mais eminentes membros do Sanhedrin fossem convidados e ele próprio, o sétimo. Afinal, sete sábios devem decretar um ano bissexto. Mas pela manhã, quando entrou na Câmara Superior, ficou surpreso em não achar seis, mas sete dignatários - perfazendo um total de oito, contando com ele também!

Rabam Gamliel supôs que um daqueles presentes tinha vindo por sua própria iniciativa, embora tivesse sido mais provável que o mensageiro do Bet Din tivesse entendido mal o nasi e que casualmente tivesse convidado sete dignatários.

Raban Gamliel ficou aborrecido. “Quem quer que tivesse vindo sem permissão deveria, por gentileza, se retirar!”, pediu austeramente.

Entre os sete sábios encontrava-se sentado Shmuel Hakatan. Logo que ouviu o anúncio de Raban Gamliel, levantou-se e disse: “Eu sou aquele que veio sem ser convidado. Não tencionava associar-me para proclamar o ano bissexto, só queria aprender como um ano bissexto é declarado de acordo com os mandamentos da Torá”.

Na verdade, Shmuel Hakatan era um daqueles convidados. O sétimo sábio era um membro do Sanhedrin menos importante; ele é que era o homem que havia sido convidado por engano e que deveria retirar-se. Mas este sábio não tinha entendido, e Shmuel Hakatan ficou temeroso que ele pudesse ficar embaraçado se fosse apontado e convidado a sair.

Raban Gamliel sabia muito bem que Shmuel Hakatan era um daqueles intencionalmente convidados. Ele compreendeu a intenção de Shmuel e disse gentilmente: “Por favor, permaneça sentado meu filho! Você merece unir-se a nós na declaração de todos os anos bissextos. Falei severamente porque a lei está voltada somente para aqueles previamente convidados e a eles é permitido declarar um ano bissexto. Mas você é, sem dúvida, um dos que tencionei convidar!”

O que fazer?

O sábio que foi convidado por engano ainda não havia compreendido e, portanto, não saiu.

Raban Gamliel não quis embaraçá-lo; desta maneira oito pessoas permaneceram lá, uma das quais não havia sido convidada apropriadamente. Por conseguinte, começaram a estudar Torá e estudaram o dia inteiro, adiando o anúncio do ano bissexto para o dia seguinte. E então, somente os sábios que Raban Gamliel havia tencionado convidar, vieram – incluindo, naturalmente, Shmuel Hakatan.