No livro clássico “Inner Game”, "Jogo Interior", que aborda o estado mental necessário para atletas de alto nível, o autor Timothy Gallwey descreve:

No tênis, quem proporciona os obstáculos necessários para que uma pessoa alcance seu potencial máximo? Seu oponente, é claro! Então, seu oponente é um amigo ou um inimigo? Ele é um amigo na medida em que faz o possível para dificultar as coisas para você. Somente ao desempenhar o papel de inimigo é que ele se torna um verdadeiro amigo. Somente ao competir com você é que ele coopera de fato!

Ninguém quer ficar parado na quadra esperando pelo grande saque. Nesse sentido da competição, é dever do seu oponente criar as maiores dificuldades possíveis para você, assim como é seu dever tentar criar obstáculos para ele. Só a assim vocês dão um ao outro a oportunidade de descobrir até que altura cada um pode chegar.

A questão é universal: difícil não significa ruim, oposição não é a inimiga e, na maioria das vezes, o desafio é a melhor coisa que pode acontecer a você.

Repleto de Leis

Esta semana começamos o terceiro livro da Torá, Vayicrá. Ao contrário das histórias épicas de Bereshit e Shemot, este livro se destaca por estar repleto de leis sacrificiais, sem muitas histórias.

Ao discutir a história da Criação no início de Bereshit, o Midrash diz algo interessante sobre Vayicrá:

Rabi Simon disse: A palavra “luz” é mencionada aqui cinco vezes, correspondendo aos cinco livros da Torá. As palavras “E disse D’us: Haja luz” correspondem ao livro Bereshit, no qual o Santo, bendito seja Ele, se ocupou e criou o mundo... As palavras “E viu D’us que a luz era boa” correspondem ao terceiro livro, Vayicrá, que está repleto de leis. 1

Duas perguntas me vêm à mente ao ler este Midrash. Primeiro, "repleto de leis" não é necessariamente exclusivo de Vayicrá; Devarim também contém muitas leis. E em segundo lugar, por que a única vez em que a luz é descrita como "boa" está associada ao livro Vayicrá? O que há de particularmente bom no fato de ele ser cheio de leis? É simplesmente porque há mais para aprender e mais leis para seguir? Por que isso o torna "bom" em si, mais do que qualquer outro livro que também contém histórias, lições e valores?

O Difícil é Bom

Ao ler as palavras "repleto de leis", a compreensão imediata é que se trata de uma descrição de quantidade, ou seja, que este livro contém muitas leis. Mas isso não captura a singularidade dele em si, nem a razão pela qual ele é tão particularmente "bom". Em vez disso, é uma descrição de qualidade, significando que as leis enumeradas nele são singularmente complexas e difíceis de compreender.

Então, sim, Devarim possuí muitas leis, mas a maioria delas não é tão complexa quanto as contidas em Vayicrá; as leis de sacrifício, as mitsvot referentes aos Cohanim e leviim e os detalhes do Templo são todos um tanto obscuros e definitivamente difíceis de entender.

É por isso, então, que Vayicrá é especificamente considerado "bom" — porque o trabalho árduo é bom. Claro, é ótimo decifrar as leis mais fáceis em comparação com o esforço necessário para compreender algumas das questões mais profundas, mas, como todos sabem, o benefício é proporcional ao esforço despendido. Depois de compreender com sucesso um trecho complexo sobre o sacrifício de Olá, a sensação é recompensadora e gratificante.

Não Fuja de Um Desafio

Aqui reside uma valiosa lição de vida, tão simples quanto fundamental: não fuja de algo só porque é difícil. Isso vale para o assunto da Torá que você escolher estudar, e vale para praticamente tudo. Aliás, é bem possível que seja exatamente o que você precisa, e é por isso que é tão difícil: para que você se esforce e mereça.

Às vezes, você se depara com uma responsabilidade que parece "demais". Seu chefe lhe deixa um projeto que ele mesmo deveria ter feito. Seus filhos estão lhe dando trabalho e você sente que simplesmente não consegue lidar com a situação. Seu amigo está sem ideias e lhe pede algo que você não pode fazer. Seus pais querem que você faça algo que parece estar além das suas capacidades.

Em todos esses momentos, é tentador pensar: "Não é para mim; é muito difícil", ou ficar frustrado e exclamar: "Não é justo! Por que eu?". É uma pergunta difícil, e nem sempre há respostas fáceis. Mas uma coisa é certa: se você recebeu essa tarefa, significa que você é capaz de realizá-la, e quanto mais você se esforçar, maior será a satisfação ao concluí-la.

O livro complexo que estudaremos nos próximos meses nos desafia a pensar de forma diferente. É realmente difícil, mas difícil não significa ruim… Na verdade, é a melhor coisa que pode acontecer.2