Há uma pergunta pertinente a fazer: por que Moshê - o herói da história de Pêssach - não aparece em quase toda a Hagadá, somente ao final dela?
Muitas respostas foram sugeridas, algumas mais prováveis do que outras, mas todas esclarecedoras. Para ser mais exato, note que o nome de Moshê realmente aparece uma vez na Hagadá: Na seção onde vários rabinos relatam o grande número de milagres que ocorreram durante o Êxodo e a divisão do mar, um texto inclui as palavras “e [as pessoas] acreditavam no Senhor e em Seu servo Moshê. ”1 Mas a questão ainda permanece: Por que Moshê não faz parte da narrativa do Êxodo da Hagadá?

1. Não há outro além do próprio D’us

A própria Hagadá enfatiza que não foi através de anjos ou mensageiros que fomos libertados do Egito, mas sim por D’us, Ele próprio:

  • “E eu passarei pela terra do Egito”: eu e não um anjo.
  • “E farei todos os primogênitos na terra do Egito”: Eu, e não um serafim.
  • “E executarei juízos contra todos os deuses do Egito”: Eu e não um mensageiro.
  • “Eu - o senhor”: sou Eu e nenhum outro.

Para enfatizar este ponto, não mencionamos Moshê na Hagadá.2

Alguns fornecem contexto adicional, levantando a hipótese de que os editores da Hagadá foram especialmente cuidadosos em fazer essa distinção, uma vez que viviam em uma época em que grupos dissidentes como os samaritanos estavam procurando transformar Moshê quase em uma divindade. Eles, portanto, sentiram a necessidade de enfatizar que os milagres foram realizados pelo próprio D'us.

2. A Humildade de Moshê

As Escrituras atestam que Moshê era o mais humilde de todos os homens, e é seguro afirmar que ele não gostaria de tornar-se o centro das atenções e objeto de adulação ano após ano. Nós lemos que D'us “faz a vontade daqueles que O temem.”3 Portanto, é lógico que os eventos foram orquestrados de modo que Moshê conseguiu seu desejo e foi pouco referenciado na Hagadá.4

3. Moshê não falava sobre si mesmo

A Torá nos instrui: “Você dirá a seu filho naquele dia, dizendo: 'Por causa disso, o Senhor fez [isto] para mim quando eu saí do Egito.'” 5
Imagine o primeiro Pêssach, realizado exatamente um ano após o Êxodo. Quase todas as crianças se lembravam dos eventos com muita clareza, tendo testemunhado elas mesmas. Todos, exceto os filhos de Moshê, que estiveram em Midian na época. Assim, Moshê era o único pai judeu que tinha uma nova história para contar a seus filhos e, obviamente, ele não exautou falando sobre si mesmo.6

4. O rei e o servo

O foco da noite do Seder é reconhecer, elogiar e agradecer a D'us por ter-nos tirado do Egito. Afinal, “Se o Santo, bendito seja Ele, não tivesse tirado nossos pais do Egito, então nós, nossos filhos e filhos de nossos filhos permaneceríamos escravos do Faraó no Egito. . . ” Quando celebramos, a Presença Divina celebra conosco. Não é respeitoso agradecer ao servo ( Moshê) na presença do Rei.7

5. Corpo e Alma

A redenção do Egito era dupla: era uma liberação física do trabalho árduo, e era uma metamorfose espiritual, quando fomos transformados em um povo livre cujos espíritos nunca poderiam ser esmagados. Isso explica por que continuamos celebrando Pêssach mesmo quando estamos no exílio. Embora tenhamos sido fisicamente oprimidos ao longo da história, nossas almas foram libertadas, e isso é eterno e irreversível. E enquanto Moshê desempenhou um papel na redenção física, essa liberdade espiritual essencial foi conferida somente por D'us. Assim, uma vez que é isso que estamos verdadeiramente celebrando, o foco está em D'us e não em Moshê. 8

6. Uma explicação Cabalista

O Zohar nos diz que os israelitas no Egito tinham alcançado o “49º portão da impureza”. Se eles tivessem caído apenas mais um nível, eles não poderiam ter sido redimidos. Foi somente através da misericórdia divina e de uma “agitação do Alto” ​​(Itaruta Dile'eyla, em termos cabalísticos) que os judeus puderam ser redimidos no último instante.
Em relação a D'us, Moshê representa aquilo que vem através do esforço humano (Itaruta Diletata, elevação de baixo para cima). É apropriado, portanto, que ele não seja mencionado nesta noite, quando celebramos D’us descendo para nos salvar.9

7. Em Suas Próprias Palavras

A Hagadá é essencialmente uma expansão de um conjunto de versos em Devarim, formulados para serem pronunciados quando os judeus traziam bicurim (primícias) ao Templo, agradecendo pelo presente da Terra de Israel. Como uma sucinta (e grata) leitura sobre o Êxodo, este texto formou a base perfeita sobre a qual foi composta a Hagadá da noite de Pêssach.
Ao contrário dos primeiros quatro livros da Torá, Moshê fala na primeira pessoa em Devarim. Segue-se naturalmente que o texto não enfatiza a contribuição de Moshê.10

8. Sempre há esperança

Os sábios sabiam que haveria momentos durante o longo exílio em que, não havendo ninguém da estatura de Moshê pronto para liderá-los, as pessoas poderiam se perguntar se sua situação alguma vez melhoraria. Por isso, enfatizamos na Hagadá que, em última análise, apenas D'us nos redimiu do Egito, e a história pode se repetir a qualquer momento. 11

9. O Redentor Relutante

Durante o diálogo deles na sarça ardente, quando D'us diz a Moshê para tirar os judeus do Egito, Moshê tenta escapar da missão: “Eu suplico-Te, Senhor, envie agora [Sua mensagem] com quem Você enviaria. 12 Os sábios explicam que Moshê, sabendo que ele não estava destinado a ser o redentor final dos israelitas, estava suplicando a D'us que enviasse o redentor final, Mashiach, e assim terminasse o exílio de uma vez por todas.13 Como Moshê não queria ser aquele que tiraria os judeus do Egito, seu nome é omitido.

10. Olhe mais fundo!

Nossos sábios afirmam que “ Moshê foi o primeiro redentor e ele é o redentor final”. 14 Embora isso obviamente não seja entendido no sentido literal, já que Moshê era um Levita e Mashiach será um descendente do rei David, os místicos explicam que Mashiach terá parte da alma de Moshê. Assim, ele será de fato tanto “o primeiro redentor como o redentor final”. 15
Alguns salientam que o passo final do Seder é chamado Nirtzá (נרצה), que tem o valor numérico de 345 - o mesmo valor numérico que o nome משה ( Moshê). Assim, ao concluirmos a Hagadá com a oração pela redenção final, aludimos a Moshê, que é ao mesmo tempo o primeiro e será o último redentor de nosso povo.16

Que a redenção final venha rapidamente em nossos dias!