Uma conhecida se aproximou de mim na fila do caixa e disse: “Ouvi dizer que você vai para Israel. Que inveja!”
Pensei em responder: “Vi que você está ampliando sua nova casa. Que inveja!”
Fiquei pensando se isso a deixaria desconfortável. Em vez disso, optei por sorrir e não dizer nada. Mas nosso breve encontro me deixou inquieta. Algumas pessoas podem alegar que “Que inveja!” é apenas uma expressão, como “Sai daqui!” ou “Boa sorte!”. Claro, essas expressões não devem ser interpretadas literalmente. Mas certas expressões são preocupantes, e “Que inveja!” é uma delas.
Não, não estou exagerando. Estou apenas ciente dos efeitos insidiosos da inveja. Ela pode se transformar em um monstro incontrolável. Nossos sábios nos alertaram: “A inveja, o desejo e a busca por honra afastam a pessoa do mundo.”1
As consequências da inveja
As consequências desses traços de caráter destrutivos são destacadas na leitura da Torá desta semana. Côrach era um agitador intrigante. A inveja e a insolência o levaram a se rebelar contra a liderança de Moshe e Aharon. Embora Côrach possuísse status social e riqueza, ele estava insatisfeito.
Sentimentos de inveja são normais, mas se esses sentimentos forem permitidos a se intensificar, cuidado! A inveja excessiva é autodestrutiva e sequestra a clareza e a percepção de uma pessoa. Como qualquer outro traço negativo, ela deve ser controlada e transformada em algo positivo.
Nossos sábios talmúdicos nos encorajam a admirar e imitar os comportamentos virtuosos e positivos dos outros: “A inveja entre os estudiosos da Torá aumenta a sabedoria”, escrevem eles.2 O desejo de aprimorar as próprias habilidades, conhecimento e caráter é positivo e produtivo. Em contraste, a inveja destrutiva emana da falta de autoestima, da crença de que o sucesso de outra pessoa diminuirá o seu próprio.
A Torá nos fornece ferramentas para cultivarmos um senso realista e saudável de quem somos. O primeiro e o último dos Dez Mandamentos — “Eu sou o Senhor teu D’us” e “Não cobiçarás” — se conectam para formar um ensinamento fundamental. D’us concede a cada um de nós recursos para alcançarmos o propósito específico de nossas vidas. Dizer para si mesmo: “Eu mereço isso tanto quanto, ou até mais do que, outra pessoa”, ou pensar: “Por que eu não tenho o que ele/ela tem?” implicaria duvidar do plano Divino, achar que ele é falho. Pensamentos como esses expressam essencialmente a arrogância e a sensação de merecimento que levaram à queda de Côrach. Concentre-se, em vez disso, no que você tem à sua disposição e use seus recursos com sabedoria.
Um médico não cobiçaria a chave de fenda de um técnico, nem o técnico cobiçaria o estetoscópio do médico. Nenhum dos dois conseguiria realizar seu trabalho com as ferramentas do outro. Da mesma forma, nossos bens materiais e circunstâncias são necessários para desempenharmos da melhor maneira possível nossos papéis terrenos no roteiro da vida que nos foi dado.
Tudo o que temos, ou nos falta, é necessário para o nosso papel específico. Não é o papel que desempenhamos que importa; o que importa é o quão bem o desempenhamos. A inveja distrai a pessoa de realizar aquilo para o qual ela foi colocada no mundo.
Como ser como a pessoa sábia
O Talmud nos ensina: “Quem é sábio? Aquele que vê o que nascerá [de suas ações].”3 Nossos pensamentos e ações influenciam nossa direção. Alimentar inveja produz consequências negativas e é prejudicial à nossa saúde e bem-estar.
Esforce-se para ser como a pessoa sábia. As pessoas sábias estão atentas aos seus gatilhos. Podemos imitá-las estando cientes de nossos próprios sinais de alerta. Elas servem para nos alertar: “Cuidado, você está entrando na zona da inveja. Mude de direção imediatamente!”
Como podemos evitar cair nas garras da inveja?
Reconheça que os pensamentos levam às ações. Escolha com sabedoria e proatividade quais pensamentos você permite ocupar sua mente. Expulse ideias distorcidas que podem te enganar. Elimine a frase “Estou com tanta inveja” do seu vocabulário. Pode ser apenas uma expressão, mas certamente não é uma expressão positiva que valha a pena repetir. As palavras amplificam nossos sentimentos internos. Em vez de se concentrar no que falta em sua vida, esteja mais consciente do que você possui e eja grato por iso.
Nunca podemos conhecer completamente a situação de vida de outra pessoa; somente D’us conhece toda a história. Essa é mais uma razão pela qual é inútil ter inveja de alguém.
Vamos aprender com os erros de Côrach e seus seguidores. Aspire a superar seus sentimentos de inveja e não aja de acordo com eles. Mas se você alguma vez se pegar sentindo inveja de alguém que superou a inveja, simplesmente admire e imite o comportamento dessa pessoa.
Tornando isso relevante
- Sempre que sentir o impulso natural de sentir inveja, concentre-se nas coisas pelas quais você é grato.
- Em casos de perda, concentre-se no que restou.
- Reconheça que você pode perder o que tem. Aprecie a vida que você está vivendo.
Faça um Comentário