Quando os judeus viajavam pelo deserto, acampavam em uma formação prescrita ao redor do Tabernáculo. As tribos eram divididas em quatro acampamentos, cada um composto por três tribos, posicionados a leste, sul, oeste e norte do Tabernáculo. O acampamento central era da tribo de Levi, que circundava diretamente o Tabernáculo. Ao descrever a disposição, a Torá especifica que cada tribo deveria acampar sob seu “degel”, estandarte.
Os filhos de Israel acamparão, cada um junto a sua bandeira, estandarte, sob os sinais de sua casa ancestral; acamparão a certa distância da Tenda da Reunião.1
Não está totalmente claro, porém, a que exatamente se refere o termo degel. Embora o entendimento mais comum seja que se tratava de algum tipo de estandarte, a quantidade exata que era carregada e o que representavam é menos clara. Grande parte da discussão gira em torno da explicação do termo be’otot leveit avotam, traduzido acima como “os sinais de sua casa ancestral”.
1. Um Ponto de Encontro
Em um nível básico, Saadia Gaon interpreta a palavra degel não como uma bandeira ou estandarte literal, mas como um local designado para reunião. De acordo com essa visão, a ênfase está na estrutura organizada do acampamento israelita, onde cada tribo acampava em seu espaço alocado ao redor do Tabernáculo. 2
2. Estandartes Representando Pedras do Peitoral
Rashi explica que cada estandarte tinha a cor específica correspondente à pedra daquela tribo no Choshen (peitoral do Sumo Sacerdote) e trazia um símbolo único ligado à identidade da tribo, permitindo que os membros reconhecessem facilmente seu acampamento3
3. Descrição Vívida de Cada Estandarte
O Midrash Rabá4 descreve esses estandartes em detalhes, acrescentando que a prática de usar estandartes para representar um grupo específico foi posteriormente adotada pelas nações do mundo. O Midrash descreve cada estandarte da seguinte forma:
- Reuven: Sua pedra era odem, e sua bandeira era vermelha, com uma representação de dudaim (mandrágoras).
- Shimon: Sua pedra era piteda, e sua bandeira era verde, com uma representação da cidade de Shechem.
- Levi: Sua pedra era bareket, e sua bandeira tinha três cores — um terço branco, um terço preto e um terço vermelho — e representava o Urim e Tumim.
- Yehuda: Sua pedra era nofech, e a cor de sua bandeira era como a cor dos céus, com a representação de um leão.
- Yizachar: Sua pedra era a safira, e sua bandeira era azul-escura, com uma representação do sol e da lua, fazendo referência ao versículo: “E dos filhos de Yizachar, homens que tinham entendimento dos tempos…”.5
- Zevulun: Sua pedra era o yahalom, e sua bandeira era branca, com a representação de um navio, fazendo referência ao versículo: “Zevulun habitará junto às margens dos mares”.6
- Dan: Sua pedra era o leshem, e sua bandeira era como a safira, com a representação de uma serpente, fazendo referência ao versículo: “Dan será uma serpente…”.7
- Gad: Sua pedra era o shevo, e a cor de sua bandeira não era branca nem preta, mas uma mistura de ambas. Representava um acampamento militar, fazendo referência ao versículo: “Gad, uma tropa sairá dele…”.8
- Naftali: Sua pedra era a ametista, e a cor de sua bandeira lembrava vinho pálido, não um vermelho vivo. Seu estandarte era representado por uma gazela, fazendo referência ao versículo: “Naftali é uma gazela veloz…”. 9
- Asher: Sua pedra era Társis, e a cor de sua bandeira se assemelhava a uma pedra preciosa usada em ornamentos femininos. Ela representava uma oliveira, fazendo referência ao versículo: “O pão de Asher será farto…”. 10
- Yossef: Sua pedra era Shoham, e sua bandeira era muito escura, representando dois príncipes, Efraim e Menashe, com o Egito simbolizado, pois eles nasceram lá.
- A bandeira de Efraim representava um boi, fazendo referência a “Seu primeiro novilho…”, 11 aludindo a Yehoshua, que era de Efraim.
- A bandeira de Menashe representava um boi selvagem (re’em), fazendo referência a “E seus chifres são os chifres de um re’em…”,12 aludindo a Guideon, filho de Yoash, que era de Menashe.
- Beniamin: Sua pedra era yashfe, e sua bandeira continha todas as doze cores. Ela representava um lobo, fazendo referência ao versículo: “Beniamin é um lobo voraz…” 13
4. A Formação Ordenada por Yaacov
Na segunda explicação de Rashi, ele cita o Midrash Tanchuma, que diz be’otot leveit avotam, em seu sentido literal, “de acordo com o sinal que seu pai Yaacov lhes deu quando o carregaram para fora do Egito, como está escrito: ‘Seus filhos fizeram por ele exatamente como ele lhes havia ordenado’”. 14 Esta é uma referência às instruções de Yaacov sobre como seus filhos deveriam carregar seu caixão, na mesma formação posteriormente replicada ao redor do Tabernáculo. Assim, o sinal não estava ligado a um estandarte, mas sim ao local onde deveriam acampar.
5. Havia Apenas Quatro Estandartes
De acordo com muitas autoridades, 15 havia, de fato, apenas quatro estandartes representando cada um dos quatro grupos viajantes. As tribos viajaram em quatro acampamentos (deguelim) dispostos ao redor do Tabernáculo, que era cercado pelos levitas. Cada acampamento era composto por três tribos e liderado por uma tribo principal. O primeiro a viajar foi o acampamento oriental, liderado por Yehuda, acompanhado por Yizachar e Zebulun.
Em seguida, veio o acampamento do sul, liderado por Reuven com Shimon e Gad. Atrás deles, estavam os levitas, que carregavam o Tabernáculo e viajavam no centro. O terceiro grupo, no oeste, era liderado por Efraim, com Menashe e Beniamin. Por fim, o acampamento do norte, liderado por Dan, incluía Asher e Naftali.
Alguns sugerem que cada um desses quatro estandartes era composto pelos três estandartes das tribos daquele grupo de viagem específico. Uma explicação alternativa é que a bandeira principal de cada grupo era o estandarte da tribo líder, com as outras tribos carregando estandartes menores.16
6. Representavam as Quatro Faces da Carruagem Divina
Nachmanides descreve cada uma das quatro bandeiras como representando uma das carruagens Divinas vistas na famosa visão de Yechezkel:
No estandarte de Reuven estava a imagem de um homem, baseada na história dos duda'im (mandrágoras); no estandarte de Yehuda estava a imagem de um leão (pois foi assim que Yaacov o comparou); Na bandeira de Efraim havia a imagem de um boi, baseada no versículo “Seu primogênito é um boi”17; e na bandeira de Dan, a imagem de uma águia — de modo que cada uma se assemelhava aos querubins vistos pelo profeta Yechezkel.
Nachmanides, baseando-se no Midrash Rabá18, continua a descrever a disposição de cada acampamento e explica como as quatro bandeiras — cada uma representando um grupo diferente de tribos — correspondiam aos quatro aspectos da Carruagem Divina.
Assim como D’us criou as quatro direções do mundo, Ele também cercou Seu trono com quatro chayot (seres celestiais), e acima de todos eles está o Trono da Glória. Correspondendo a eles, D’us organizou as bandeiras para Moshe. Ele lhe disse: “O Oriente — de onde a luz se espalha pelo mundo — corresponderá a Yehuda, que é real, com Yizachar ao seu lado, que representa a Torá, e Zebulun, que representa a riqueza… viajará primeiro…
“O Sul — de onde o orvalho e as chuvas de bênção chegam ao mundo — corresponderá a Reuven, que representa a teshuvá (arrependimento), pois a teshuvá é uma grande qualidade, e a misericórdia de D’us chega ao mundo quando as pessoas se arrependem. Ao lado dele está Gad, que representa a força; Reuven, por meio do arrependimento, e Gad, por meio da força, e Shimon no meio para expiar seus pecados. Estes viajarão em segundo lugar, pois o arrependimento vem antes da Torá.
“ “O Ocidente — que contém os depósitos de neve e granizo, frio e calor — corresponderá a Efraim, Beniamin e Manashe. A Shechiná (Presença Divina) sempre habita no Ocidente, na porção de Beniamin, como está escrito: ‘A Beniamin, Ele disse: O amado do Senhor habitará em segurança junto a Ele.’19 Eles viajarão em terceiro lugar. É apropriado para a Torá, o arrependimento e a força, para que a pessoa se fortaleça na Torá e vença sua má inclinação.
“O Norte — de onde a escuridão emerge para o mundo — corresponderá a Dan, porque ele trouxe a escuridão ao mundo por meio da idolatria feita por Yeravam, como está dito: ‘E colocou um em Dan.’20 Ao lado dele está Asher, para iluminar a escuridão… e ao lado dele Naftali, que está associado à bênção. Eles viajam por último, pois quem adora ídolos retrocede, não avança.”
7. Os estandartes proclamavam a crença em D’us
Kli Yakar cita o Midrash, 21 que ensina que os estandartes tribais foram inspirados pela visão dos anjos no Sinai, dispostos em formações celestiais. Buscando emular essa ordem Divina — a Carruagem celestial mencionada acima — D’us permitiu que eles criassem seus próprios estandartes que circundavam o Tabernáculo, com a presença Divina no centro. Assim, eles declaravam visivelmente que o Nome de D’us repousava sobre o povo, evocando temor entre outras nações. Enquanto outros ofereciam a Israel honras terrenas, Israel valorizava a distinção Divina refletida em seus estandartes — símbolos de vitória espiritual e da proximidade de D’us. Esses estandartes demonstravam que sua força e sucesso não vinham do poderio militar, mas de portar o Nome Divino.22
8. Está em Nossas Mãos
O Rebe se baseia no Midrash mencionado pelo Kli Yakar e extrai uma lição de serviço Divino do pedido dos israelitas. Vale a pena citar este Midrash um pouco mais na íntegra:
Na Entrega da Torá, D’us desceu ao Monte Sinai acompanhado por toda a Sua comitiva celestial, cerca de 22.00023 anjos que compunham a Suprema Carruagem Divina, todos organizados em estandartes (degalim). Quando o povo judeu viu isso, desenvolveu o desejo de também ser organizado com bandeiras... D’us disse a eles: “Vocês desejam ser organizados com bandeiras? Eu prometo atender ao seu desejo.” Imediatamente, D’us instruiu Moshe: “Vá e faça para eles estandartes, como eles desejaram.”24
Quando o povo judeu viu a estrutura celestial dos anjos, sentiu que ela refletia seu próprio potencial espiritual. A organização das tribos em estandartes não era uma mera formação militar, mas um reflexo de uma profunda sintonia espiritual com a ordem celestial.
O conceito da Carruagem não se limita ao reino celestial ou aos Patriarcas, que são chamados de “a Carruagem” porque todos os seus membros eram constantemente dedicados somente a D’us. Na verdade, todo judeu pode e deve se tornar uma Carruagem, particularmente durante o cumprimento das mitsvot. Quando um judeu dá tsedacá, caminha para cumprir uma mitsvá ou realiza qualquer outro mandamento, o membro correspondente se torna um veículo literal para a Vontade Divina.
Este é o objetivo de todo judeu: alcançar um estado em que “D’us está sobre ele”, estar totalmente alinhado — pelo menos nos momentos de serviço Divino — com o propósito da Criação. A leitura da visão da Carruagem de Fogo em Shavuot e sua inclusão na recitação do Tikun Leil Shavuot reforçam que cada judeu está profundamente conectado a esta visão espiritual e que seus ensinamentos fazem parte de nossa missão Divina individual.25
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