Você já se sentiu sozinho? É uma emoção estranha, não é? Você pode estar em uma sala repleta de gente e ainda assim se sentir solitário. Ou pode estar totalmente sozinho em uma floresta e não sentir nada. A solidão pode desaparecer com o toque de um celular ou se intensificar a cada minuto em uma festa barulhenta.
Não sou estranha à solidão. Sou uma mulher mais velha, viúva, sem filhos, morando sozinha e tendo apenas um gato como companhia diária. Na verdade, você poderia dizer que sou um clichê: a senhora idosa que mora sozinha com um gato. E sim, eu converso com ele. Muito.
Vou fazer uma pausa enquanto você ri.
Terminou? Tudo bem, agora vamos prosseguir.
Posso não ser estranha à solidão, mas levo uma vida ativa. Graças a D’us, tenho boa saúde, uma rede de bons amigos e um primo querido por perto. Ainda consigo dirigir, vou às aulas, encontro amigas e vou à sinagoga. Então, embora eu não seja estranha à solidão, ela também não é uma companheira constante. Mas quando ela me atinge (e nunca consigo prever quando isso vai acontecer), é como uma nuvem escura me envolvendo. Sinto-me isolada do mundo. Alguém irrelevante. Ninguém precisa de mim, nem depende de mim. Sou um universo inteiro em mim mesma. Sou completa e… solitária.
Há um paradoxo aqui: são exatamente essas qualidades que valorizo — minha autossuficiência, minha independência, meu sentimento de completude — que podem levar à minha solidão. A força que ganho por ser autossuficiente e autocontida enfraquece minha resistência à solidão.
Sou autossuficiente... mas anseio por algo.
Sou independente... mas preciso de ajuda.
Sou completa... mas há um vazio dentro de mim.
O que está faltando? Um sentimento de conexão. Isso explica por que às vezes me sinto só ,mesmo quando tenho gente ao meu redor. Pois não é a quantidade de pessoas que anseio, mas a condição de conexão. É algo que todos nós ansiamos, não é?
Ao ler a porção da Torá desta semana, Bamidbar, me deparei com outro paradoxo, que me fez pensar no paradoxo da minha solidão ocasional.
A parashá começa com D'us ordenando a Moshe que realize um censo — outro paradoxo. Ao contar as pessoas, cada uma tendo o mesmo valor, as singularidades, distinções entre as pessoas se perdem. Ao mesmo tempo, cada pessoa mantém sua individualidade. Somos considerados absolutamente iguais, mas existimos como seres únicos.
Somos como células individuais em um corpo, onde cada célula vive, morre e tem seu propósito. Ao mesmo tempo, cada célula também existe como parte de um corpo maior, com seu próprio propósito. O corpo pode sobreviver à morte de uma célula, mas não pode sobreviver por muito tempo à morte do corpo. Ela precisa permanecer conectada.
Aí reside uma lição do censo, bem como uma visão sobre o paradoxo da solidão.
Acreditamos que todos vivemos vidas completamente separados, mas isso é tão ilusório quanto acreditar que uma célula sanguínea não faz parte do corpo em que vive e não depende dele.
O censo lembrou aos nossos ancestrais que todos estavam conectados uns aos outros. Eles compartilhavam uma jornada, um propósito e um destino comuns. Levavam vidas individuais, mas o faziam juntos, pois comiam os mesmos alimentos, cumpriam as mesmas mitsvot, casavam-se e uniam suas famílias. Formavam uma sociedade de almas únicas, mas todos estavam conectados pela Torá e por serem membros da mesma nação.
O mesmo acontece conosco hoje.
Por meio do censo, D'us nos diz: Você pode chegar a pensar que é autossuficiente, independente e completo. Mas esses pensamentos são uma ilusão que pode fazer você se sentir como uma ilha — desconectado, isolado e solitário, não importa quantas pessoas o cercam.
Lembre-se sempre do censo! Você não é irrelevante. Você conta! Você está aqui porque eu preciso de você aqui, e como judeu você está sempre conectado ao seu povo. E esse paradoxo nos fornece uma estratégia dupla para combater a solidão. Por um lado, devemos nos conformar com o fato de que haverá momentos em que estaremos sozinhos. Somos completos e perfeitos como somos, assim como cada número tem o mesmo significado. Por outro lado, cada número não existe isoladamente. O onze ganha significado porque é precedido pelo 10 e seguido pelo 12.
Devemos nos esforçar para romper os casulos que construímos ao nosso redor e forjar conexões com outras pessoas. Seja voluntário, frequente a sinagoga, socialize... faça o que for preciso para garantir que você faça parte de uma comunidade. Quando fazemos isso, ganhamos outra compreensão das palavras incomuns que D'us usa ao ordenar o censo do povo judeu.
As palavras são comumente traduzidas como "fazer um censo", mas na verdade significam "levantar as cabeças". Que palavras perfeitas para mostrar que cada pessoa contada é inestimável e conectada Àquele que está acima de nós?
Levantem as cabeças!
Como glóbulos vermelhos individuais, cada um de nós está aqui para levar "oxigênio espiritual" aos indivíduos que encontramos. E, unidos em um só corpo que é o Povo Judeu, estamos aqui para iluminar coletivamente o mundo inteiro com santidade. Nunca somos irrelevantes e estamos sempre conectados. Da próxima vez que me sentir sozinha, retornarei a esta parashá — para me lembrar das lições do censo e ser contada.
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