O movimento Chassídico logo em seu início atribuiu profunda importância ao poder da música. “Se as palavras são a pena do coração”, ensinou Rabi Schneur Zalman de Liadi, o fundador do Chassidismo Chabad, “então a canção é a pena da alma”.

Camponeses russos, bielorrussos e ucranianos eram uma fonte de canções entoadas, que foram infundidas com um novo significado chassídico, mas mantidas em suas línguas nativas, às vezes com hebraico ou iídiche acrescentado. Assim, uma rima camponesa sobre um sujeito problemático chamado Marcos foi reinterpretada como uma parábola da natureza da inclinação do mal. Junto com a solução - uma referência bíblica ao poder de saciar a alma com o estudo da Torá - nascia uma canção chassídica.

Este conceito se conecta intimamente com o ensinamento do Baal Shem Tov para encontrar a Mão de D'us - e uma lição para nossas vidas pessoais e serviço Divino - em tudo que vemos ou ouvimos. Certamente, as palavras e pensamentos de nossos vizinhos poderiam ser explorados em busca de significado e elevados por meio da aplicação.

Inspirados por uma troca de e-mail com o editor do Chabad.org Menachem Posner, nós selecionamos o tesouro da tradição chassídica de Chabad para algumas dessas canções, junto com a história que lhes dão força e espírito.

Ech Ti Durin (Tzamah Lecha Nafshi) - эх ты дурень

Uma das melodias Chabad mais antigas, esta canção tipifica o que é conhecido como um macarônico, onde as palavras ou inflexões de um idioma (neste caso, o russo antigo) são misturados e reproduzidos no contexto de outro (aqui um verso dos Salmos). A primeira seção é cantada com as palavras hebraicas tzama lecha nafshi, "Minha alma tem sede de você", e a segunda seção é traduzida em russo rimado com a seguinte parábola:

Ah, seu tolo Mark, por que viaja para a feira?

Você não compra, você não vende, você só causa problemas.

Exigimos da inclinação ao mal e de nosso instinto animal humano, comparável a um aldeão tolo indo ao mercado: “Por que você vai à feira, ou seja, ao mundo mundano e materialista? Você não compra e não vende, você só cria problemas!”

Stav Ya Pitu - став я питу

Outro macarônico, Stav Ya Pitu mistura uma simples canção ucraniana sobre beber - "Eu comecei a beber na sexta-feira, na sexta-feira" - e segue com letras em iídiche e hebraico que transformam uma canção amarga sobre beber para afastar os problemas da vida em uma profunda contemplação comovente do balanço espiritual com o qual alguém pode se libertar dos grilhões da indiferença corporal e das limitações humanas.
Esta melodia foi ensinada pelo Rebe durante a festa de Simchat Torá, em 1962.

Nye Zhuritze Chloptzi - не журицй хлопцы

Não se preocupem, pessoal, com o que será de nós. Viajaremos para uma pousada; ali certamente haverá vodka.

Esta canção alegre em bielo-russo data da época do segundo Rebe Chabad, Rabi Dovber. Foi originalmente cantada por seus chassidim enquanto eles viajavam pela estrada para Lubavitch a caminho de visitar o Rebe. Simbolicamente, as palavras revelam a profunda devoção dos Chassidim ao seu Rebe. Quando eles chegarem a Lubavitch, eles serão capazes de absorver as palavras da Torá do Rebe.

Nye Bayus Ya - не боюсь я

Eu não tenho medo de ninguém
e não acredio em ninguém
exceto ao Senhor
Não há ninguém Dele
o Único.

Esta canção, em russo, é uma declaração ousada da fé judaica, expressando o princípio chassídico de ein od milvado - que realmente não há nada além de D'us. Provavelmente um refrão cantado por camponeses russos, era adorado pelo rabino Michoel Dvorkin, que trabalhava com lenhadores não judeus na floresta e costumava falar e cantar em russo.

Quando o Sexto Lubavitcher Rebe, Rabino Yossef Yitzchak Schneersohn, de abençoada memória, foi libertado de seu exílio na cidade russa de Kostroma, Reb Michoel (que era conhecido por sua natureza exuberante) celebrou dançando pela casa, e com um frasco fechado de vodca na mão, cantando esta música.1

O Rebe costumava cantar esta canção, geralmente começando com o segundo verso, mais animado: “Não há ninguém além Dele, o Único”.

Kol Bayaar - קול ביער

O texto e a melodia dessa súplica foram compostos pelo Rabino Arye Leib, um dos seguidores do Baal Shem Tov. Ele era conhecido como Shpoler Zeide, em homenagem à cidade de Shpola, na Ucrânia, onde morava. Este niggun comovente, que conta a história de um pai procurando por seu filho perdido na floresta, é uma parábola do diálogo cósmico entre D'us e o povo judeu. O Shpoler Zeide cantava todas as noites.

O texto está dividido em quatro estrofes. Cada estrofe é repetida em hebraico, iídiche e ucraniano.

Hopp Cossack - гоп козак

Também atribuída ao Shpoler Zeide, esta melodia sem palavras termina com as palavras ucranianas Hopp Cossack - “Pule Cossack!” A melodia e a dança associada são semelhantes à Hopak, a Dança Nacional da Ucrânia. A música acompanha uma história sobre o Shpoler Zeide usando a melodia, ensinada a ele por Eliahu, o Profeta, para superar um cossaco em uma competição, salvando assim a vida de uma família judia.

Essa música animada costuma ser executada no final de grandes casamentos. O Rebe também observou que é costume cantá-la em Purim, Simchat Torá e Acharon shel Pessach - devido à mensagem de amor do Shpoler Zeide por seus companheiros judeus e esforços milagrosos para ajudar a libertá-los. Alguns também cantam no Brit Milá."

Ech Ti Zimlak Эх ты, земляк

Esta canção russa é uma adaptação de Echad Mi Yodea (Quem conhece Um?), uma canção cumulativa que conta vários números importantes no judaísmo. Embora não seja incorporada à liturgia Chabad de Pessach, outras comunidades judaicas cantam a canção após o Seder, traduzindo-a para o ladino, judaico-árabe, iídiche, bukharian e outros idiomas.

A pedido do Rebe, os imigrantes russos cantaram a música em farbrengens públicos.

Veja a música tocada com um verso adicionado sobre os 14 livros de Maimônides.

Mi Armia Admura - Мы армия Адмура

Esta canção que narra a Grande Fuga dos Chassidim Chabad da União Soviética foi adaptada pelo Rabino Bentzion Shemtov da “Marcha da Cavalaria Vermelha” soviética. As novas palavras subvertem uma marcha comunista, declarando que os soldados do exército do Rebe marcharão sob a bandeira do estudo da Torá e o lema de servir a D'us, sem medo dos ataques cruéis da NKVD.

Ve Vodye Mi Nye Patonim - в воде мы не утонем

Nenhuma água pode nos afogar,
nenhum fogo pode nos queimar.

As letras russas comunicam uma determinação feroz e muitas vezes eram cantadas em conjunto com apelos espirituais e financeiros em nome dos judeus soviéticos. Foi popularizada pelo Rabino Hersh Gansburg, que a cantou em Simchat Torá de 1969, logo após ter passado por uma tremenda tragédia pessoal.

Em 1974,2 o Rebe deu uma interpretação chassídica para a canção, jogando com as palavras dos sábios que "Qualquer um que disser 'Eu só tenho estudo de Torá [mas não cumprimento de mitsvot]', nem mesmo tem estudo de Torá." 3 Como tal, o Rebe explicou que a letra da canção significa que ao desejar mergulhar na Torá, que é comparada à água, o chassid não 'se afoga' e combina o estudo com a realização de boas ações. Da mesma forma, alguém envolvido em fazer boas ações, não fica exausto, mas ainda tem tempo para mergulhar nas águas refrescantes do estudo da Torá.

Marcha dos Mitzvá Tanks - марш хабадских танкистов

Esta melodia adaptada de uma marcha soviética sobre os tanques do Exército Vermelho, foi executada pelo falecido chassid, Rabi Yisrael Duchman, que, pouco antes de sua morte, gravou uma coleção de canções que ele apreciava. A letra subverte o hino aos tanques de Jukov na Segunda Guerra Mundial, transformando a música em uma ode aos Mitzvá Tanks.

Lyuba Bratzi Lyuba - Любо, братцы, любо

Adorável, irmãos, adorável, adorável é viver.
Com nosso bravo líder que tem tempo ou vontade de sofrer?

Essa tradicional canção cossaca era muito apreciada pelo chassid Rabi Mendel Futerfas, que costumava cantá-la nos farbrenguens, reuniões chassídicas. Ele pode ser ouvido cantando o refrão da gravação aqui.

A canção narra uma batalha sangrenta nas margens de um rio. É provável que Rabi Mendel tenha aprendido a música enquanto estava em um Gulag siberiano, onde passou 9 anos por suas atividades clandestinas, fortalecendo o judaísmo na antiga União Soviética.