Sete semanas após o Êxodo do Egito, os Filhos de Israel estavam no Monte Sinai. Foi-lhes dito que haveria uma grande Revelação; D’us desceria e lhes daria Sua sagrada Torá e o modo de vida judaico.
Mas antes de receberem a Torá, eles precisavam de shloshet yemei hagbalá, “três dias de separação” — um período de purificação física e espiritual. Afinal, não é todo dia que o próprio Todo-Poderoso vem nos chamar!
Toda ocasião espiritual requer preparação. Antes de orarmos, lavamos as mãos. Antes de recitarmos o Shemá, cobrimos os olhos para concentrar a mente e o coração neste momento de meditação. Antes da devoção silenciosa da Amidá, damos três passos para trás. Os chassidim usavam um gartel, um cinto preto, para “cingir os lombos”, antes de se aproximarem de D’us em oração. Antes de realizarmos a maioria das mitsvot, recitamos uma bênção.
Na verdade, uma das poucas mitsvot que me vem à mente que não exige uma bênção é dar tsedacá, caridade, para que não nos deixemos levar pelos preparativos espirituais e nem nos atrasarmos para prestar auxílio à pessoa necessitada.
Da mesma forma, na vida. Um casamento dura apenas algumas horas, mas envolve meses de preparação. A emoção está principalmente no período que antecede a própria simchá. Planejar, fazer todos os arranjos, decidir tudo, desde o local até o cardápio… tudo isso faz parte do planejamento.
Dar à luz um bebê leva algumas horas (se você tiver sorte e não houver complicações), mas o processo de parto começa nove meses antes.
Essencialmente, toda ocasião importante da vida envolve preparação, que se torna parte da própria experiência. Sem ela, perderíamos grande parte da expectativa, da emoção, da adrenalina e de todo o processo. A preparação não é apenas um prelúdio para o evento, mas parte integrante da experiência em si. Sem ela, perderíamos muito da emoção.
Lembro-me de viajar da África do Sul para Nova York e surpreender minha querida mãe, de saudosa memória. Quando ela abriu a porta e me viu, ficou completamente atônita. Foi, de fato, uma grande e feliz surpresa para ela. Mas depois, ela me pediu para não repetir a surpresa. Quando perguntei por quê, ela disse que eu a havia privado de semanas de ansiosa expectativa.
Assim, quando chegou a hora de receber a Torá de D’us no Monte Sinai, os 49 dias de preparação, e particularmente aqueles três dias de intensa purificação, foram absolutamente necessários.
E assim ocorre em nossas próprias vidas.
Tomemos o Shabat como exemplo. Muitos observam o Shabat, mas perdem Erev Shabat, sua véspera. Erev Shabat refere-se à sexta-feira, dedicada aos preparativos para o dia sagrado. Não se trata apenas de fazer compras, assar chalá e preparar um banquete. Não se trata apenas de arrumar a casa e o jantar. Erev Shabat também é o momento de nos prepararmos adequadamente. Ao contrário de muitos de nós, que deixamos o Shabat para a última hora.
Aliás, não é fascinante como ninguém está pronto para o Shabat até o último minuto? Parece não importar se o Shabat começa às 16h no inverno ou às 20h no verão. Se não fosse pelo proverbial "último minuto", ninguém jamais estaria pronto! Na verdade, não deveria dizer ninguém. Há muitas pessoas que se organizam e se preparam com bastante antecedência para o Shabat.
Há muitos anos, no antigo bairro judeu de Yeoville, em Joanesburgo, fomos convidados para um jantar de Shabat na sexta-feira à noite na casa de uma das famílias Emanuel que ali viviam. Os Emanuel eram de origem alemã e desempenharam um papel significativo na formação do judaísmo ortodoxo nos primórdios de Joanesburgo, quando a comunidade religiosa era muito pequena e longe de ser tão grande e dinâmica como é hoje. Curiosamente, nossos anfitriões nos pediram não apenas para jantar, mas também para chegarmos à sua casa bem mais cedo, para que pudéssemos estar presentes quando a matriarca acendesse as velas de Shabat.
Devo dizer que foi uma experiência memorável! A tradição dos Emanuel era que toda a família se reunisse ao redor da mesa de Shabat, vestida com suas melhores roupas de Shabat, antes que a mãe acendesse as velas. Todos estavam lá para responder "amén" à sua bênção e observar enquanto ela oferecia sua oração silenciosa pela família, com as mãos cobrindo os olhos. Foi um contraste tão bonito com a maneira como eu — e milhões de outras pessoas — nos apressamos para o Shabat, com apenas alguns instantes de sobra. Mais de 40 anos depois, essa imagem ainda está nítida em minha mente e continua a me inspirar.
Seja no Shabat, em uma bênção, em uma mitsvá ou em uma celebração alegre, vamos nos esforçar para “estar preparados!”
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