O oitavo dos Dez Mandamentos, “Lo tignov”, traduz-se literalmente como “não roubarás”. 1 Curiosamente, tanto o Talmud quanto o Midrash o interpretam especificamente como uma proibição contra o sequestro. Por que a insistência em interpretá-lo além de uma simples advertência contra o roubo?
1. Isso se Deve ao Contexto dos Casos de Pena Capital
Rashi2 Cita o Talmud, que explica que este versículo se refere ao sequestro de uma pessoa. Essa inferência baseia-se em um dos Treze Princípios da Interpretação da Torá, especificamente na regra da “dedução pelo contexto”.3
“Não roubarás”, e é a respeito de quem sequestra pessoas que o versículo se refere. Você diz que o versículo se refere a quem sequestra pessoas, ou talvez se refira apenas a quem rouba propriedades? Você diz: Saia e aprenda com um dos treze princípios hermenêuticos: Uma questão derivada de seu contexto. A que contexto se referem as proibições adjacentes “Não matarás; não cometerás adultério” no versículo? Elas se referem a casos capitais (nefashot). Da mesma forma, aqui, a proibição se refere a um caso capital (nefashot) de sequestro.4
Conforme entendido por Rashi, o termo nefashot refere-se a casos capitais, levando à conclusão de que a proibição de roubar também deve se aplicar a crimes capitais. Visto que sequestro é um crime capital e roubo não o é, a proibição deve se referir a sequestro.
2. Isso se Deve ao Contexto das Interações Individuais
Aruch LaNer contudo, ressalta que não é totalmente preciso afirmar que o contexto comprova essa interpretação. Os dois últimos dos Dez Mandamentos — “Não darás falso testemunho” e “Não cobiçarás”, não envolvem pena capital. Normalmente, ao usar o contexto para esclarecer o significado, consideramos a totalidade do texto circundante, tanto o que precede quanto o que segue a frase em questão. Nesse caso, apenas a passagem anterior se refere a um caso de pena capital.5
Ele propõe, portanto, uma releitura do Talmud. Em sua visão, o termo nefashot (“almas”) usado pelo Talmud poderia ser interpretado como referente a relações com outro indivíduo.
De acordo com Aruch LaNer, o contexto indica que essa proibição se refere a sequestro, pois as proibições adjacentes dizem respeito principalmente a interações diretas com outra pessoa, e não apenas a bens materiais. Os dois mandamentos precedentes — “Não matarás” e “Não cometerás adultério” — são ofensas explícitas contra outro indivíduo. Da mesma forma, os dois mandamentos seguintes, “Não cobiçarás” e “Não dirás falso testemunho” , também se relacionam a impacto pessoal direto. 6
Este contexto, aplicado através dos Treze Princípios da Elucidação da Torá, nos informa que “Não roubarás” é também uma proibição contra o sequestro, que envolve diretamente outra pessoa.7
3. Na Verdade é um Termo Genérico para Todos os Tipos de Roubo
Embora se possa argumentar que, de acordo com o Talmud e Mechilta, “Não roubarás” se refere unicamente ao ato de sequestro, a maioria dos comentaristas clássicos acredita que a proibição também se refere ao roubo de dinheiro. 8 Esta parece ser a compreensão do Zohar:
Venha e veja: O mundo foi criado com dez declarações. A entrega da Torá também consistiu em dez declarações, que são os Dez Mandamentos.Está escrito (Shemot 20:2): “Eu sou o Senhor teu D’us”, e está escrito no relato da Criação (Bereshit 1:3): “Haja luz; e houve luz”. A fé no Santo, bendito seja Ele, é chamada de luz, como está escrito (Tehilim 27:1): “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei?”. Está escrito: “Não furtarás” (Shemot 20:13), e também está escrito no relato da Criação: “E disse D’us: ‘Eis que vos tenho dado todas as plantas que dão semente.’” (Bereshit 1:29). “O que lhes dei e lhes confiei será seu, mas não roubem o que pertence a outrem.9
O Talmud de Jerusalém também implica que se refere também ao roubo monetário. 10 E o Seforno e Ibn Ezra estendem-no ainda ao engano ou ao induzir os outros em erro (guenevat daat).11
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