Tempo de matar e tempo de curar;
tempo de guerra e tempo de paz.
Cohelet 3: 3,8.

A vida é cheia de aparentes contradições. Um exemplo disso são as diferentes maneiras como encaramos a tragédia, dependendo de quem é a vítima. Quando algo ruim me acontece, a Torá me diz para confiar na ajuda de D’us , justificar Seus caminhos e examinar os meus para identificar possíveis erros cometidos, a fim de aprender uma lição com o ocorrido. Essas são justamente as coisas que não devo fazer em relação aos problemas de outra pessoa.

Outra contradição,também relacionada à diferença entre como nos tratamos e como tratamos os outros, é a questão do potencial/realidade. Resumidamente, devemos nos julgar pelo que de fato conquistamos e julgar os outros pelo que eles são capazes de conquistar.

Mas talvez o exemplo mais fascinante e importante esteja na forma como aplicamos o mandamento Divino: "Não matarás".

Muito já se escreveu sobre o valor infinito que a Torá atribui a cada vida. Depois do conceito de monoteísmo (do qual deriva), esta é a ideia mais revolucionária que o judeu introduziu à humanidade no sentido de que contraria tudo o que se acreditava anteriormente (e, de fato, o senso comum), e "revolucionária" na forma como transformou a face da sociedade civilizada.

Atribuir um valor infinito a cada vida humana significa rejeitar completamente qualquer "escala" que permita quantificar e qualificar seu valor. A vida de um bebê com deficiência tem o mesmo valor que a da pessoa mais sábia da Terra. Uma pessoa de 80 anos que se encontra em estado vegetativo não pode ser sacrificada para salvar a vida de um gênio de 20 anos.

O Talmud conta a história de um homem que foi ameaçado pelo bandido que comandava sua cidade, que disse que ele seria morto a menos que matasse uma certa pessoa. O grande sábio Rava disse a esse homem: "O que te faz pensar que seu sangue é mais vermelho que o sangue daquela pessoa?"

A lei da Torá chega ao ponto de determinar que uma cidade inteira não pode ser salva sacrificando um único indivíduo. Isso porque cada vida é de significado Divino — e, portanto, infinito. Dez mil infinitos não são "mais" do que um único infinito.

À luz do exposto, é surpreendente encontrar a seguinte lei na Torá (codificada no Tratado Sanhedrin 72a do Talmud , derivado de Devarim22:26): Habá l'hargecha hashkem l'hargo — "Se alguém vier para te matar, levanta-te contra ele e mata-o primeiro." (Esta lei aplica-se igualmente a alguém que venha matar outra pessoa — você é obrigado a matar o assassino para salvar a vítima pretendida.)

Essa lei parece contradizer o princípio do valor infinito da vida. Se nenhuma vida pode ser considerada menos valiosa que qualquer outra, o que torna a vida da vítima mais valiosa que a do assassino? Além disso, essa regra se aplica a qualquer um que " venha te matar" — ele nem sequer fez nada ainda! Talvez ele não consiga? Talvez ele mude de ideia? A lei também não diz nada sobre tentar fugir. Ela diz: “Se alguém vier te matar, levante-se e mate-o primeiro.”

A mesma Torá que nos diz que D’us colocou uma centelha de Si mesmo em cada ser humano, conferindo assim à sua existência física um valor Divino e infinito, essa mesma Torá também nos diz que D’us concedeu o livre-arbítrio a cada pessoa. Incluindo a escolha e o poder de corromper a vitalidade que D’us lhe deu e usá-la contra si mesma, destruindo vidas. Uma pessoa pode escolher tornar-se um assassino, alguém disposto a destruir vidas para atingir seus objetivos. Nesse caso, ela deixa de ser uma vida e passa a ser uma anti-vida.

Matar alguém que se opõe à vida não é um ato que destrói vidas, mas sim um ato que as preserva. Não é uma violação do mandamento "Não matarás", mas sim a sua afirmação. Sem a lei "Se alguém vier para te matar, levanta-te e mata-o primeiro", o princípio do valor infinito da vida não passa de um slogan vazio, uma mera ideia. E o judaísmo não é uma ideia; é um modo de vida — os ideais de D’us tornados realidade.