Datado pelo menos do início do século 11, 1 temos o costume de borrifar um pouco do vinho de nossa taça 16 vezes durante a recitação da Hagadá:
- Três gotas quando pronunciamos “Sangue, Fogo e Colunas de Fumaça”;
- Dez gotas quando enumeramos as Dez Pragas pelo nome; e
- Três gotas finais quando dizemos “Detzach, Adash, B’achav”, o mnemônico do Rabino Yehuda para as Dez Pragas.
Embora esse costume seja simples o suficiente e bastante universal, sua razão está longe de ser elementar.
Espada de D’us
A razão clássica dada nas fontes antigas é que essas 16 gotas, que derramamos ao enumerar 16 iterações de punição, correspondem à “espada de D’us”, que é chamada יוה"ך (o nome יוה"ך pode ser dividido em יו הך, que significa “16 golpes”). Este é o nome do anjo encarregado de executar a vingança. 2 Além disso, o Midrash nos diz que a espada de D’us tem 16 bordas. 3
Outra razão dada para derramar o vinho é que "não se pode recitar uma bênção sobre uma taça de punição". 4 Portanto, "derramamos" as gotas de vinho da taça associadas à punição que em breve ergueremos em celebração enquanto recitamos bênçãos e louvores. 5
Com base no exposto acima, o Rebe de Lubavitch explica que podemos entender uma inserção bastante intrigante e desconcertante na Hagadá que foi publicada como parte do Sidur do Rabino Schneur Zalman de Liadi). Embora o Rabino Schneur Zalman quase nunca inclua qualquer intenção cabalística em seu Sidur, com relação a derramar o vinho, ele escreve nas instruções: A intenção deve ser que o copo seja identificado com o atributo Divino de malchut (realeza). Por meio da influência de biná (entendimento), a raiva associada ao vinho que ele contém é "derramada" em um recipiente quebrado, representativo de kelipá, que é chamado de "amaldiçoado". . . . O vinho restante no copo (após todos os derramamentos) é "vinho de alegria" e não deve ser derramado.
Portanto, é importante que se tenha a intenção de que seja apenas o vinho que está sendo derramado que corresponde à "espada de D'us" e representa a raiva e a retribuição de D'us; no entanto, o vinho no copo é vinho de alegria e bênção. 6
Ao longo dos anos, outras explicações também foram apresentadas:
Ira Sobre os Inimigos
Os quatro cálices correspondem tanto à redenção dos judeus quanto à retribuição que é dispensada aos nossos inimigos. Assim, derramamos o vinho para simbolizar que essas pragas e retribuições devem recair sobre nossos inimigos e não sobre nós. 7
Em uma linha um tanto similar, alguns explicam que as quatro taças representam as “quatro taças de retribuição” que D’us trará sobre os inimigos do povo judeu no momento da redenção. 8 Derramar gotas de vinho simboliza que as pragas foram apenas uma “gota” comparadas àquelas quatro taças. 9
Gota por gota, o vinho na taça é diminuído, assim como os egípcios foram diminuídos pelas pragas. Alguns explicam que diminuir nosso vinho simboliza nosso desejo de que o poder daqueles que prejudicam nosso povo seja similarmente reduzido.10
Alegria Reduzida
Embora estejamos celebrando o êxodo de nossa nação do Egito, Mishlê (Provérbios) 24:17 nos diz: "Quando seu inimigo cair, não se alegre." O Midrash11 explica que esta é uma das razões pelas quais não pronunciamos os louvores completos de Hallel durante os últimos seis dias de Pessach. 12 Assim também, durante o Seder, derramamos um pouco de vinho para demonstrar que nossa alegria não é completa, pois veio às custas de outros, mesmo que eles merecessem punição.13
Como Derramar?
Existem diferentes costumes sobre como o vinho é derramado do copo. Alguns borrifam uma pequena quantidade de vinho do copo com o dedo indicador. Em hebraico, esse dedo é chamado de etzba (“dedo”). Assim, ele lembra as palavras dos mágicos do faraó, que reconheceram que as pragas eram “o dedo de D’us”.14 15
Outros borrifam o vinho com o dedo chamado kamitzá (“o dedo anelar”) porque foi com esse dedo, dizem os sábios, que D’us atingiu os egípcios. 16 De acordo com o rabino Yitzchak Luria (Arizal), 17 deve-se derramar o vinho do próprio copo — não é necessário molhar o dedo. Esse é o costume Chabad.
O vinho que permanece no copo é considerado “vinho alegre”, então, depois de derramar as 16 gotas, enchemos o copo novamente. Assim, aumentamos nossa alegria, não apenas para o Seder de Pessach, mas para o ano inteiro, levando-nos à alegria suprema da redenção final. Que isso ocorra rapidamente em nossos dias!
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