Ao abençoar os filhos antes de morrer, Yaacov designou a cada um seu papel na formação da nação judaica. Os doze filhos de Yaacov tornaram-se as doze tribos de Israel, cujos doze chamados individuais cumpriram coletivamente a missão de Israel.

A Yehudá, o quarto filho de Yaacov, foi concedido o papel de soberano e governante. Nas palavras de Yaacov, "o cetro não se afastará de Yehudá, nem a pena do legislador de seus descendentes; as nações se submeterão a ele, até a vinda de Shilo." Começando com o Rei David, todos os legítimos governantes de Israel - reis, nessi'im, os monarcas exilados - até Mashiach, inclusive, foram e serão da tribo de Yehudá.

Por direito, a soberania pertencia a Reuven, o primogênito de Yaacov. Porém Reuven tinha pecado contra seu pai, perdendo este direito, que foi então transferido para Yehudá. Por que Yehudá? Nossos Sábios identificam duas virtudes pelas quais Yehudá mereceu a liderança de Israel.

(a) Quando os outros filhos de Yaacov tramaram para assassinar Yossef, Yehudá salvou-lhe a vida. "O que lucraremos matando nosso irmão e ocultando seu sangue?" argumentou Yehudá. "Podemos vendê-lo aos ismaelitas e não o feriremos com nossas próprias mãos, pois ele é nosso irmão, nossa própria carne." Os outros aceitaram o arrazoado de Yehudá, e Yossef foi tirado do fosso infestado de cobras ao qual fora jogado, e vendido como escravo.

(b) Yehudá admitiu publicamente sua culpa no incidente de Tamar, assim salvando da morte a ela e seus dois filhos ainda não nascidos.

Poderia parecer, entretanto, que Reuven era não menos virtuoso que Yehudá. De fato, nestas duas áreas, as ações de Reuven eram melhores, e suas intenções, mais puras.

A respeito da trama para matar Yossef, foi Reuven quem primeiro salvou a vida de Yossef, sugerindo aos irmãos que, ao invés de matá-lo, deveriam atirá-lo no fosso. Como declara a Torá, ele assim o fez "para salvá-lo das mãos deles, [para que ele pudesse mais tarde] devolvê-lo a seu pai" (Reuven não sabia que havia cobras e escorpiões no fosso). A Torá também atesta que Reuven não estava presente quando Yossef foi vendido, e registra seu choque quando não encontrou Yossef no fosso ao voltar para buscá-lo, e sua censura aos irmãos pelo que tinham feito. Yehudá, por outro lado, apenas sugeriu uma maneira mais "lucrativa" de livrar-se de Yossef (a Torá nada diz sobre suas intenções ocultas), e foi a causa da venda de Yossef como escravo. De fato, vemos mais tarde os outros acusando Yehudá: "Foi você que nos disse para vendê-lo. Se tivesse nos falado para devolvê-lo (para casa), teríamos lhe dado ouvidos" (Rashi, Bereshit 38:1).

Quanto à penitência pública, aqui, também, Reuven superou-o: também admitiu seu pecado e arrependeu-se dele. E enquanto Yehudá enfrentou uma opção, admitir sua responsabilidade ou provocar a destruição de três vidas inocentes, no caso de Reuven não havia estes fatores compulsivos. Além disso, a penitência de Reuven não terminou com uma única admissão de culpa, mas continuou a consumir todo seu ser durante muitos anos. De fato, a razão pela qual Reuven não estava presente quando da venda de Yossef nove anos após sua má ação original contra seu pai, foi que "ele estava ocupado com sacos de estopa e jejum."

O Lubavitcher Rebe explica: No que tange à virtude pessoal, Reuven na verdade superou Yehudá, tanto na pureza de suas intenções para com Yossef como no arrependimento por suas faltas. Mas Yehudá foi quem realmente salvou Yossef, ao passo que Reuven inadvertidamente colocou-o em perigo mortal. No mesmo teor, o arrependimento de Yehudá salvou três vidas, ao passo que o remorso de Reuven não ajudou a ninguém; de fato, se ele não tivesse estado preocupado com "seus sacos de estopa e seu jejum," poderia ter impedido que Yossef fosse vendido como escravo.

De fato, Reuven conservou seus direitos como primogênito de Yaacov em tudo que se refere a ele como indivíduo. Porém ele foi privado de seu papel como líder, ao negligenciar o requisito mais básico para a liderança. Crendo que Yossef estivesse temporariamente salvo, Reuven apressou-se a voltar para fazer suas preces e penitência, esquecendo que a preocupação pelo próximo deve sempre ter precedência sobre seus próprios assuntos, não importa quão elevados e piedosos estes assuntos pudessem ser.

Enquanto Reuven rezava e jejuava, Yehudá agiu. Yehudá ganhou a liderança de Israel ao reconhecer que quando outro ser humano precisa de nós, devemos deixar de lado todas as outras considerações e nos envolver. Mesmo que nossos próprios motivos ainda estejam longe da perfeição. À vezes, a pessoa não pode ser dar ao luxo de esperar.