As Famílias Levitas
A Parashá Nasso consiste em vários assuntos, cada um deles basicamente independente: a seção sobre a sotá (esposa suspeita de adultério), a seção sobre o nazir, a bênção sacerdotal e as ofertas dos príncipes.
Gostaria de discutir o assunto que aparece no início da parashá – o serviço da família Guershon.
Em termos de conteúdo, o início da parashá está conectado à parashá anterior. Após a divisão das bandeiras e a divisão dos acampamentos, vem a divisão das famílias levitas, cada família em seu lugar e posição designados. A Parashá Bamidbar termina com o serviço dos Kehatitas, e a Parashá Nasso começa com uma descrição do serviço dos guersonitas e meraritas.
A descrição do serviço dos gersonitas segue o padrão da descrição do serviço das outras famílias levitas, os Keatitas e os Meraritas. O versículo “Façam o recenseamento dos filhos de Guershon, segundo as casas de seus pais, segundo as suas famílias”1 é uma repetição quase literal do versículo da parashá anterior: “Façam o recenseamento dos filhos de Kehat entre os levitas, segundo as suas famílias, segundo as casas de seus pais” 2. Os Meraritas também são descritos como sendo contados “segundo as suas famílias, segundo as casas de seus pais”3.
Claramente, então, estamos lidando com uma única seção. Também é claro que, embora pareça que a mesma coisa se repete, cada casa levita aparece independentemente e é descrita de forma única. Os kehatitas são caracterizados de uma maneira, os guershonitas de outra, e os meraritas de outra ainda. Mas a pergunta permanece: por que uma nova parashá começa com os guershonitas? O que se destaca no caso deles é a afirmação “dos filhos de Guershon também”.
Qual o significado da palavra “também” aqui?
Os kehatitas tinham uma designação clara: “Este é o serviço dos Kehatitas na Tenda da Reunião: o Santo dos Santos.”4 Os Kehatitas cuidavam do Santo dos Santos. Exceto em alguns casos, a Arca da Aliança não era carregada pelos sacerdotes, mas pelos levitas – especificamente os Kehatitas. Era responsabilidade deles carregar o conteúdo do Santuário, os vasos sagrados: a Menorá, a Mesa e o Altar do Incenso.
O serviço dos Kehatitas não consistia em trabalho extenuante. Em vez disso, era um trabalho no sentido de transmitir a essência das coisas. A capacidade de alguém carregar a Arca da Aliança não era uma questão de força física. É difícil imaginar como eles carregavam a Arca da Aliança, especialmente à luz da afirmação talmúdica de que a espessura da tampa da Arca era de um palmo.5
Criar uma tampa com a espessura de um palmo, mesmo sem incluir os querubins na equação, exigiria uma enorme quantidade de ouro, e o peso de tal tampa seria bem superior a uma tonelada. Nossos sábios reconhecem isso, explicando que não acarretava em um problema, pois “a Arca carregaria seus portadores”.6 Este é um ponto essencial. O levita que carregava a Arca não estava, na verdade, carregando uma carga pesada; ele estava carregando um objeto sobrenatural.
Nossos sábios dizem que “o lugar da Arca não está incluído na medida”,7 porque a Arca da Aliança existe metade neste mundo e metade em outro mundo. Ela existe entre o material e o espiritual. Portanto, toda a questão de carregar a Arca, a Mesa e a Menorá transcendia o transporte físico.
Assim, o serviço dos Kehatitas era o serviço de pessoas de alto nível. De fato, eles não se limitaram a esse serviço. Muitas pessoas eminentes surgiram de suas fileiras. Uma delas foi um descendente de Korach, o profeta Shmuel, cujo nível de profecia era igual ao Moshe e Aharon: “Moshe e Aharon entre os seus sacerdotes, e Shmuel entre os que invocam o Seu nome. 8E não foi apenas Shmuel. Qualquer pessoa que abra o livro dos Salmos pode ver que essa família realizou muitas outras coisas profundas: “Para o líder, um salmo dos cânticos de Korach.”9 Outrora, eles carregaram a Arca da Aliança; e mesmo quando deixaram de carregá-la, continuaram a produzir grandes pessoas em seu meio. E elas continuaram a carregar a Arca da Aliança, se não fisicamente, ao menos espiritualmente.
Diferentemente dos kehatitas, os meraritas eram simples carregadores. Eles carregavam as tábuas, a estrutura básica do Tabernáculo. Eles levaram toda a estrutura, a casa inteira – mas não os vasos sagrados. Em todo o mundo, há pessoas que precisam realizar o trabalho simples, o trabalho braçal. Podem ser pessoas elevadas ou humildes, mas, de certa forma, tudo depende delas. Nesse aspecto, as famílias guershonitas ocupavam uma posição intermediária. “Este é o serviço das famílias guersonitas: servir e carregar.”10
Os kehatitas lidavam com assuntos espirituais. Embora o serviço dos meraritas não fosse um trabalho intelectual, quando terminavam, uma casa estava de pé. Eles pegavam um martelo e pregos e construíam algo. Se os meraritas realizavam o trabalho pesado e os kehatitas lidavam com os assuntos importantes e elevados, o que restava para os guershonitas? A resposta é que eles carregavam tudo o que havia entre esses dois extremos. Eles coletavam e dobravam todo tipo de coisa, incluindo diversos materiais e cordas.
Às vezes, é muito mais fácil ser um dos simples carregadores do que ser um membro dos guersuonitas. Certamente, um merarita não podia ser um anjo, nem realizar o trabalho dos anjos, mas sua responsabilidade era clara e definida, e ao final de cada dia ele sabia que havia realizado algo.
Já um membro da família Guershon não era nem anjo nem porteiro – ele estava em algum lugar entre os dois. Os guershonitas certamente se dedicavam a trabalhos sagrados, mas não do mais alto nível, como os da família de Kehat. Para os guershonitas, era fácil sentir que não estavam realizando nada.
Por causa disso, a Torá enfatiza: “Façam um censo (naso et rosh – literalmente, levantem as cabeças) dos filhos de Gérson também”, porque essas pessoas devem ser lembradas, devem ser exaltadas e informadas, em essência, de que os queatitas não ocuparam todos os cargos importantes – “Levantem as cabeças dos filhos de Gérson também”.
Essa é também a razão pela qual a parashá começa com o censo dos gersonitas e não está conectada com a parashá anterior: é uma maneira de honrar os gersonitas. Em vez de novamente colocá-los no meio, entre os queatitas e os meraritas, eles recebem a honra de iniciar uma nova parashá.
As famílias guershonitas – pessoas do meio
É desnecessário dizer que essa distinção entre as pessoas não se limita a kehatitas, guershonitas e meraritas; ela pode ser aplicada a quase qualquer pessoa. Algumas pessoas são como os kehatitas que carregaram a Arca Sagrada e tendem a se inclinar para papéis desse tipo em todos os seus empreendimentos. Seja por algum estímulo interno, seja pela sensação de que a sociedade ou a realidade externa as impulsionam nessa direção, elas sabem que farão algo especial. Quando uma pessoa tem paixão por se tornar um líder judeu – se não amanhã, em algum momento no futuro – é porque algo arde dentro dela e lhe dá força para trabalhar arduamente para alcançar suas aspirações.
Outras são como os meraritas; tudo o que querem é ser pessoas decentes, bons trabalhadores, realizar um trabalho honesto e ganhar a vida. Nunca farão nada fora do comum, porque ninguém jamais discute assuntos de grande importância com elas. Essas pessoas talvez pudessem alcançar mais, mas permanecem dentro de seus limites. Muitas pessoas preferem não ser nomeadas para altos cargos, mas simplesmente permanecer como trabalhadores comuns, porque, em muitos aspectos, isso simplifica muito a vida.
Eles exemplificam a declaração do Talmud: “‘Colherás o fruto do teu trabalho; serás feliz e tudo lhe correrá bem.’12 ‘Serás feliz’ neste mundo, ‘e tudo te correrá bem’ no Mundo Vindouro.” 13 Há um “fruto do teu trabalho” cuja grande virtude é “serás feliz neste mundo”. Sabe-se onde o trabalho começa e onde termina, e não há necessidade de lidar com a própria consciência. É fácil ser uma pessoa decente, cumprir as próprias responsabilidades na vida. Quando uma pessoa não aspira a grandes coisas, pode construir para si uma vida pacífica e simples. De fato, muitas pessoas vivem assim. A vida permanece simples mesmo quando surgem dificuldades. Isso não causa dilemas internos, e a pessoa não luta com D’us em questões de fé. Se precisa de dinheiro, por exemplo, procura trabalho para aumentar sua renda.
Alguém disse certa vez: Que azar o do rabino! Mesmo quando recita a bênção Asher Yatzar (após usar o banheiro), ele precisa fazer disso um verdadeiro espetáculo, com contemplações especiais e pensamentos místicos. Muitas pessoas não têm esse problema; recitam automaticamente não só Asher Yatzar, mas também as bênçãos do Tefilin, enrolando-os, beijando-os e enrolando-os mais uma vez, sem prestar a mínima atenção ao significado por trás do processo.
Quando chega do trabalho, ele assiste um pouco os noticiários e depois vai à sinagoga, participando de uma aula de Torá entre Minchá e Maariv. Em seguida, assiste mais um pouco de TV, recita o Shemá e vai dormir. Dessa forma, sua vida será uma boa vida. Tal pessoa poderia ter sido um dos meraritas.
O problema reside no caso de um Guershonita. Ele não está em um nível que lhe permita colocar tefilin em estado de êxtase. Por outro lado, ele não é uma das pessoas simples cujas vidas são desprovidas de ilusões e pretensões. Os Guershonitas não podem realizar o trabalho nobre dos Kehatitas, nem desejam fazê-lo; por outro lado, também não lhes são atribuídos os trabalhos simples e servis. Eles estão no meio, divididos entre os dois extremos.
O que acontece com a pessoa que está no meio? Ela não pode viver como os Meraritas, pois, se o fizer, isso a consumirá por dentro. Contudo, ele também não está realmente no nível dos Kehatitas.
Essa é frequentemente a tragédia de assistentes e subordinados de longa data. Eles têm autoridade e inteligência suficientes para causar dor de cabeça, mas, por outro lado, não têm poder suficiente para tomar decisões importantes.
Pirkei Avot fala de tais pessoas: “Em nossas mãos não está a tranquilidade do ímpio nem o sofrimento do justo.”14 O sofrimento do justo – porque um tzadik passa por um certo tipo de sofrimento simplesmente por ser um tzadik, aceitando seu sofrimento com amor. Aquele que decide ser ímpio também tem um certo tipo de tranquilidade.
O que acontece com alguém que não é nem uma coisa nem outra? Ele não tem nem sofrimento nem tranquilidade, ou, alternativamente, tem ambos. Eis um homem que não tem certeza de por que recebe esses golpes, e quando descansa, sabe que não durará muito; em breve será despertado bruscamente.
“Levantem também as cabeças dos filhos de Guershon”; Dê a essas pessoas, que não têm nem a tranquilidade dos ímpios nem o sofrimento dos justos, um papel no Tabernáculo. A Torá diz ao guershonita que ele jamais poderá alcançar o nível dos kehatitas, que carregam a Arca da Aliança, pois ele não foi talhado para isso. A facilidade e a tranquilidade de colocar as tábuas na carroça e acompanhá-las também não serão seu destino. Em vez disso, o guershonita deve compreender que seu serviço sempre incluirá tanto o serviço de amor quanto o serviço de carregar. Essa é a sua vocação para toda a vida.
Os guershonitas recebem sua própria parashá, uma honra que não foi concedida aos kehatitas e aos meraritas. Eles receberam essa honra porque sofrem em ambos os aspectos. Sofrem porque desejam crescer e têm discernimento sobre assuntos profundos, mas são incapazes de concretizá-lo ou colocar suas elevadas aspirações em prática.
“Entronizados sobre os louvores de Israel”
Na descrição dos ofanim e das chayot que se elevam em direção aos serafins, encontramos essa mesma distinção. Alguns anjos voam acima, e outros permanecem no meio. Os serafins “estavam de pé acima, a Seu serviço”15 – são anjos santos e ardem com Sua luz. O ofan, que é tanto um anjo quanto uma roda, deve observar esse serafim voar acima, enquanto ele, o ofan, está preso abaixo. Se esse ofan fosse simplesmente uma roda de carroça, isso não o incomodaria. Seu problema é que ele é tanto um anjo tentando ascender quanto uma roda que não pode ascender. Por outro lado, é precisamente essa tensão que o torna santo.
Os ofanim e os chayot elevam-se em direção aos serafins – eles também querem estar acima; constantemente tentam ascender. Mesmo sendo essencialmente carregadores que realizam trabalhos simples, de alguma forma precisam se elevar. Portanto, diz-se que, nos reinos mais elevados, os ofanim e os chayot ascendem acima dos serafins. Isso não ocorre porque estejam em um nível superior, mas precisamente porque vivem em meio a essa contradição e angústia.
Os serafins perguntam: “Onde está o lugar de Sua glória?”16 porque, quando falam de D’us, sabem que, por mais santos que sejam, Ele lhes é inacessível. Não importa o quão alto ascendam, D’us está acima e além. “Santo, Santo, Santo”17 significa que D’us está acima, além, do outro lado, de outra realidade, em um mundo diferente.
Em contraste, os ofanim dizem: “Bendita seja a glória de D’us desde o Seu lugar.”18 Sua espiritualidade consiste em revelar a presença Divina no mundo físico. Os serafins podem voar ao redor da carruagem Divina e são muito santos, mas não elevam nem a carruagem Divina nem D’us.
Aqueles que O elevam são os ofanim, as rodas que estão presas abaixo, que jamais serão serafins. De onde um ofan obtém tal poder para elevar? É precisamente porque ele é miserável e precisamente porque admite que não pode ser um serafim. Ele está preso, relegado a uma vida de trabalho. Contudo, o ofan ainda sabe que não é uma simples roda; ele sabe que os serafins existem e que existe uma carruagem Divina, e assim ele sempre aspirará a coisas mais elevadas.
O problema dos guershonitas é o problema dos ofanim e de todos aqueles que estão no meio. Por um lado, o guershonita sabe que não é um anjo. Por outro lado, ele também não é uma simples roda que se contenta com sua sorte. O ofan da carruagem Divina é um anjo, e a fonte de seu poder reside no fato de que ele suporta o sofrimento, através do qual se eleva e carrega a glória de D’us.
A essência dos guershonitas se aplica à humanidade em geral. Uma pessoa tem autoconsciência suficiente para saber que não está satisfeita com sua sorte na vida. Ela é corpórea demais para ser um anjo e Divina demais para ser um animal. A importância do homem como uma criação única reside em sua imperfeição, e é por isso que D’us não se contenta apenas com anjos.
Antes da criação do homem, os anjos vieram a D’us, dizendo: “Sua Majestade quer alguém santo? Escolha Michael. Alguém para decidir sobre as leis judaicas? Escolha Gabriel. Quer alguém que possa gerar novas ideias? Designe dois ou três anjos para trabalharem em novas ideias da Torá. Quer criaturas simples que comam capim? O Senhor já tem essas criaturas.”
Os anjos não reclamaram das vacas, cabras, ovelhas e andorinhas. Somente quando o homem foi criado é que os anjos tiveram algo a dizer. Se D’us tivesse criado o homem estritamente como uma alma santa, os anjos poderiam tê-lo exaltado. 19 Se o homem tivesse sido criado como uma espécie de macaco evoluído que vagueia pelo mundo, isso também não teria incomodado os anjos. Mas D’us criou o homem, e esse é o problema. Por um lado, o homem recebeu uma alma, que constantemente o impele a ascender, mas, por outro lado, recebeu um corpo, que constantemente o puxa para baixo. Assim, D’us formou uma criação que, desde sua origem, existe em estado de contradição.
Lemos que D’us está “entronizado sobre os louvores de Israel”. 20 Ele se assenta em um trono de suspiros, daqueles que dizem: “Mestre do Universo, não estou em um nível muito elevado, mas ainda assim quero me elevar”.
Esses são os “louvores de Israel” sobre os quais D’us está entronizado. As queixas dos anjos ecoam as de muitas pessoas. Essas pessoas estão constantemente aflitas com sua condição de vida. Elas não são simples agricultores, porque interiormente estariam sempre inquietas. Elas também não foram feitas para serem anjos – então, o que resta? O pobre homem permanece ali, dividido entre o alto e o baixo. Teria sido muito melhor se D’us tivesse omitido completamente a criação do homem, deixando um mundo agradável e simples… Mas D’us ignorou os anjos e criou o homem, porque Ele sabia o que eles não sabiam. O que o homem realiza com seu ser interior fragmentado, os anjos não conseguem realizar com toda a sua perfeição.
Os guershonitas não são nem um pouco importantes, mas D’us os aprecia. Por isso, a parashá começa: “Levantai as cabeças dos filhos de Guershon”. Concluímos a parashá anterior parando no meio do assunto, para dar a eles a honra que merecem. Este é precisamente o significado de “entronizados sobre os louvores de Israel”.
O Talmud relata que D’us tem um anjo exaltado sobre o qual não podemos olhar, que é mais alto do que todas as chayot e que está atrás do Trono da Glória, coroando seu Criador com as orações de Israel. 21
Lá embaixo, há um judeu que não é nem anjo nem serafim, mas de tempos em tempos fica profundamente triste e diz: “Mestre do Universo! Eu gostaria de fazer algo por Ti”. Então, este anjo exaltado abaixa toda a sua estatura para se curvar e receber estas palavras, com toda a lama que está grudada nelas. E é-lhe dito para limpá-los, polir e fazer deles uma coroa para D’us, conforme diz o Midrash:
“‘Israel, em quem serei glorificado’22 – assim como o Santo, Bendito Seja Ele, é coroado pelas orações de Israel.” 23
O que está escrito nos tefilin de D’us?
“Quem é como o Teu povo Israel, uma nação única na terra.”24
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