Na véspera de Rosh Hashaná, todas as coisas revertem a seu estado primordial. A Vontade Interior ascende e é recolhida para a Divina essência; os mundos entram num estado de sonolência e são sustentados apenas pela Vontade Exterior. O serviço do homem em Rosh Hashaná é reconstruir o atributo Divino da soberania e despertar novamente o desejo Divino, "Eu reinarei" – com o toque do shofar.
Os Mestres Cabalistas
Uma noite por ano, o mundo sucumbe a um sono cósmico. No nível funcional, os sinais vitais daquele que dorme ficam mais lentos: o sol ainda se levanta, o vento sopra, a chuva cai, as sementes germinam, os frutos amadurecem. Mas a consciência da criação está emudecida, pois sua alma das almas – a "vontade interior" do desejo Divino para a criação – ascendeu, retirou-se para um local de onde visualiza seu corpo e vida com um distanciamento calculado. Somente a "vontade exterior" – o elemento mais externo do desejo Divino – permanece para sustentar o corpo adormecido da criação.
E então, um som pungente se eleva da terra e reverbera através dos céus. Um som que desperta o universo adormecido, estimulando sua alma para retomar a animação consciente e intencional de sua concha material.
O grito do shofar ressoa. Um grito profundo, mas totalmente simples, uma nota livre das nuanças da música racional. Um grito simples que desperta a alma da criação para um compromisso renovado com o esforço da vida.
Assim os cabalistas descrevem o drama cósmico que se repete a cada ano, como o mundo "adormece" na véspera de Rosh Hashaná e é "despertado" na manhã seguinte pelo som do shofar. De fato, diz-se que certos tsadikim, na noite e manhã de Rosh Hashaná, sentem-se fisicamente fracos: tão sintonizados estavam eles com o mundo durante esta época, que isso afetou o próprio investimento da alma em seu corpo.
O que quer dizer isso, o mundo está adormecido? De que maneira nosso toque do shofar restaura a consciência e vitalidade da criação? Por que a vontade interior de D’us se recolhe na véspera de Rosh Hashaná, e por que Sua vontade exterior permanece? Qual é, na verdade, a diferença entre "vontade interior" e "vontade exterior"? Para responder a estas perguntas, devemos primeiro examinar a dinâmica da "vontade" em nossa própria vida. Pois como nos revelaram os Sábios do Talmud, "Como as almas preenchem o corpo, assim D’us preenche o mundo."
As camadas da vontade
A vontade é a alma da ação. Em última análise, nenhuma ação é realizada sem ser impulsionada pelo motor da vontade.
Porém a vontade é algo que possui muitas camadas. Há a camada mais externa, que impulsiona diretamente nossas ações. Depois vem a camada mais profunda, que sublinha esta vontade exterior que, por sua vez, contém uma camada mais profunda, que é um resultado de uma camada ainda mais profunda, e assim por diante.
Desta maneira, o relacionamento entre vontade e ação não é estático, mas sujeito a mudanças e flutuações. À vezes, o nível mais interior da vontade cobre nossas ações, estimulando–as com o desejo e satisfação que as motivam. Outras vezes, nossos atos podem ser apáticos e letárgicos, apoiados apenas pelo aspecto mais superficial de nossa vontade.
Para ilustrar, tomemos o exemplo de uma pessoa que dirige seu próprio negócio. Nosso empresário faz muitas coisas no decorrer do dia – acorda cedo, dirige-se ao escritório, atende o telefone, recebe clientes em potencial, etc. No nível mais básico, estes atos são impulsionados pela vontade de fazê-los: ele quer levantar cedo, ele deseja ligar o carro, ele quer atender o telefone – se não desejasse fazer estas coisas, não as faria. Mas por que ele deseja fazer isso? Devido a uma vontade subjacente de que se negócio sobreviva e prospere. Mas por que ele deseja que seu negócio sobreviva e prospere? Porque isso lhe proporciona renda e prestígio – se não fosse assim, ele não desejaria ter uma empresa. Se procurarmos mais fundo, o desejo por dinheiro e status brotam de desejos mais profundos – a vontade de comer, abrigar-se e ser aceito pelo próximo - que, por sua vez, são extensões do desejo, intrínseco em toda criatura, de continuar a existir.
Isso não significa que todas as vezes que nosso empresário apanha o telefone, ele o faz porque sente que sua própria existência depende disso. Na verdade, ele não precisa ser convencido de que a ação lhe trará lucros, ou mesmo que é crucial para o crescimento de sua empresa. Em última análise, no entanto, o ato de erguer o telefone "contém" a totalidade do desejo que o impulsiona, incluindo suas causas mais profundas.
Esta "vontade interior" é a alma de sua ação, inundando-a com vida e vitalidade que refletem o quanto suas origens estão enraizadas em seu ser mais interior. Assim, há uma qualidade na maneira que o empresário apanha o telefone que demonstra um desejo e comprometimento mais profundos que aqueles do funcionário mais dedicado.
Avaliação
Há ocasiões, no entanto, quando a alma de uma ação sobe um grau, para visualizar seu corpo e vida com um distanciamento calculado.
Há vezes em que a pessoa reavalia aquilo que faz. A empresa está realmente dando lucro? Está atendendo a minhas necessidades? É isso que desejo para minha vida?
Seu real envolvimento com o negócio continua como antes. Ele ainda se levanta da cama pela manhã, continua a dirigir até o escritório, continua a atender o telefone. Continua a "querer" fazer estas coisas no nível mais externo da vontade. Porém os elementos mais profundos de sua vontade não estão mais presentes. Pode-se dizer que o negócio está "adormecido", animado somente pela camada mais externa de sua alma.
Então acontece algo para reacender o desejo do empresário. Talvez veja um número lucrativo no balanço anual, ou uma projeção mais promissora para o futuro. Ou algum novo contrato materialize e incorpore aquilo que ele ama sobre sua empresa, tudo sobre ela que reafirma sua visão e amplia suas metas. Suas ações, frias e mecânicas em seu ínterim contemplativo, são novamente infundidas com vida e energia. A empresa desperta de seu sono.
Rei do Universo
Uma vez por ano, o universo entra num estado de animação suspensa. D’us reavalia Sua criação. Está dando lucro? Está cumprindo Minhas metas? Ainda desejo investir-Me no papel de "Criador"?
O sol ainda se levanta, o vento sopra, a chuva cai, as sementes germinam, os frutos amadurecem. O desejo de D’us por um mundo continua a apoiar e dirigir o universo. Mas o desejo de D’us por um mundo é apenas a camada mais externa da alma do universo.
Por que D’us deseja um mundo?
Há um motivo mais profundo sob esse, e assim por diante. São diversas as obras cabalistas com vários motivos Divinos para a criação do universo: o desejo de expressar Seu infinito potencial; o desejo de que Ele seja conhecido por Suas criações; o desejo de conceder bondade, entre outros. Cada um desses "motivos" relaciona-se com outra camada da vontade Divina, descrevendo a alma do universo conforme ela se manifesta em outro nível de realidade. No coração disso tudo está a própria essência da vontade Divina de criar: D’us criou um mundo porque Ele desejava ser Rei.
Definindo a Soberania
D’us é capaz de tudo, e todo poderoso. Portanto, poderia parecer algo relativamente simples tornar-Se Rei: tudo que precisava fazer era criar um mundo, povoá-lo com criaturas e reinar sobre elas. Mas isso por si só não faria d'Ele um rei, pelo menos não no sentido comum da palavra.
Um pastor que apascenta um rebanho de um milhão de ovelhas não é um rei. Um tirano que governa um império de um bilhão de súditos aterrorizados não é um rei. Um patriarca benevolente que estende sua autoridade sobre dezenas de seus descendentes não é um rei. Um professor com mil discípulos devotados não é um rei. Todos esses têm algo em comum: seus súditos são forçados a submeter-se a eles. Podem seu compelidos por sua confiança na devoção do pastor a suas necessidades, pelo poder de seu governante sobre eles, por seu vínculo filial ao pai ou pela sua apreciação da sabedoria do mestre – o principal é que são forçados. E a verdadeira soberania não pode ser forçada.
Uma verdadeiro soberano é aquele cujos súditos escolem livremente submeter-se a ele. Não porque precisam dele, não porque temem seu poder, não porque o amam, nem mesmo porque avaliam sua grandeza, mas porque o escolheram como seu rei.
Portanto, para tornar-Se Rei do universo, D’us criou o homem – uma criatura dotada de livre arbítrio. Ele criou um ser que é tanto o mais afastado d'Ele quanto o mais próximo de toda Sua criação.
O homem é o mais distante d'Ele no sentido de ser livre e independente – livre até mesmo para rebelar-se contra seu Criador. Mais próximo d'Ele no sentido em que o homem é um ser livre e independente – como somente Ele é livre e independente. Nas palavras do primeiro homem, Adam, "primeiro e último, Tu me criaste." D’us criou o homem (pó da terra," a última e mais baixa de Suas criações, e 'soprou em suas narinas um sopro de vida" que é a própria "imagem de D’us."
Existem muitos aspectos em nosso relacionamento com D’us. relacionamo-nos com D’us como nosso pastor, expressando nossa gratidão por Sua providência e cuidados com nossa vida. Nós O tememos e reverenciamos, sempre conscientes de Sua majestade e poder. Nós O amamos com o amor incondicional de um filho, reconhecendo nosso vínculo intrínseco com nosso Pai nos Céus. Recebemos uma avaliação ímpar de aluno a seu mestre, ao estudar Sua sabedoria, implícita em Sua criação é revelada a nós em Sua Torá. Cada um desses relacionamentos realiza outro aspecto de "camada" no motivo Divino para a criação, intensificando e vivificando o envolvimento de D’us com Seu mundo.
Mas uma vez por ano, "todas as coisas revertem a seu estado primordial", quando D’us reavalia o próprio âmago de Seu desejo por um mundo, o "por que" subjacente de Seu envolvimento conosco como pastor, rei, pai e mestre. Uma vez ao ano, D’us pergunta-se: Por que criar um mundo?
A Primeira Coroação
A escolha do momento para esta auditoria cósmica não é arbitrária: Rosh Hashaná é o dia no qual a soberania de D’us sobre o mundo foi notada pela primeira vez.
Rosh Hashaná é o sexto dia da criação, o dia em que o homem foi criado. D’us já tinha criado os céus e a terra, os animais e os anjos; Ele já presidia sobre um mundo que se submetia a seu poder, sobre criaturas que O temiam e amavam, e apreciavam Sua sabedoria. Mas o mundo ainda estava num estado de animação suspensa: sua alma das almas ainda precisava ser evocada. Então D’us criou o homem, a única de Suas criações com liberdade de escolher ou rejeitar seu Criador.
Momentos depois, D’us era rei. "Quando Adam ficou de pé" - nos diz o Zohar – "ele viu que todas as criaturas o temiam e seguiam como servos ao seu amo. Disse então a eles: 'Vocês e eu, venham, vamos adorar e nos inclinar, ajoelhemos perante D’us, nosso Criador.'" Quando o primeiro homem escolheu D’us como Rei, o propósito primordial na criação veio a frutificar, infundindo a obra de D’us com vida e energia.
Todos os anos, "todas as coisas revertem a seu estado primordial" conforme D’us novamente Se relaciona com Sua criação como fez antes de Adam coroá-Lo Rei. Na véspera de Rosh Hashaná, a Divina "vontade interior" para a criação é retraída, e o mundo fica num "estado de sonolência.'
Então, um som penetrante se eleva da terra e reverbera através dos céus. O grito do shofar ressoa: um grito totalmente simples, refletindo não o temor do súdito, não o amor de uma criança ou a sofisticação do entendimento do aluno, mas o simples som da trombeta de um povo coroando seu rei. Um grito que reflete a simplicidade da escolha – a verdadeira escolha, livre de todos os motivos e influências externas.
Um grito que eleva a alma da criação a um compromisso renovado e ao envolvimento no esforço da vida.

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