Por Nachum Kaplan
Numa recente visita que fiz a uma pré-escola, duas crianças discutiam para decidir quem tinha feito o desenho “mais idiota”. Um dos adultos na sala disse-lhes para não brigar, ao que as crianças responderam em uníssono: “Não estamos brigando”, e continuaram a atacar-se verbalmente. Quando crescerem, afiarão sua destreza verbal; aprenderão a reagir rápidamente a um comentário negativo, e usarão um ainda melhor.



Desde pequenas, muitas crianças aprendem a usar as palavras como armas. Aprendem a “ferir-se um ao outro” verbalmente e a usar as palavras para proteger-se num ambiente hostil. Aprenderão a dizer o que lhes vier à cabeça a quem quer que seja, criança ou adulto, colega ou superior. E nós adultos temos de aceitar esta linguagem não educada com um dar de ombros e um suspiro, como sinal dos tempos. Não posso deixar de me perguntar quando e como este tipo de conversa tornou-se uma norma aceitável.



Já foi dito que a comunidade judaica imita a sociedade em geral. Um dos desenvolvimentos menos admiráveis de nossa era moderna, assim me parece, tem sido o declínio gradual da linguagem refinada e do comportamento civilizado. A própria ideia da linguagem refinada parece antiquada. Dizemos o que nos vem à mente de maneira clara; nossa escolha de palavras nem sempre é sensível às pessoas com quem falamos. Não sentimos necessidade de fazer rodeios ou de disfarçar quando apresentamos nossos sentimentos e ideias. Alguns se orgulham daquilo que chamam de “dizer na cara” das pessoas tudo o que lhes convém.



Na televisão, a vida familiar é retratada, para nosso entretenimento, como uma série de conversas grosseiras. Os personagens discutem com as pessoas que mais amam, sem se preocupar com os sentimentos do outro; amigos e idosos, tanto faz, isso não importa. Parece até que uma conversa polida e civilizada é algo que não existe. A própria ideia de que eles precisam se dirigir aos mais velhos ou superiores com alguma deferência traria um sorriso a muitas faces. Desde que não seja insultante, qualquer forma de linguagem é aceitável; na verdade, é vista até como mais sincera e mais produtiva.



A desintegração deste aspecto da sociedade civil tem sido um processo gradual e evolutivo. A linguagem dissimulada nos relacionamentos pessoais típicos da Era Vitoriana há muito foram desacreditados. Aprendemos a nos dirigir uns aos outros usando termos familiares, a dizer o que pensamos e a usar uma linguagem mais simples e comum. Em algum lugar ao longo do caminho perdemos parte da deferência e respeito tradicionalmente conferido aos nossos idosos e superiores. Poderia parecer que a comunidade judaica reflete muitas dessas mesmas doenças, apesar do fato de que a inspiração e orientação para a nossa sociedade estão enraizadas na Torá e na Tradição Judaica.



Na narrativa da Torá que descreve o comportamento de Yaacov e Essav, aprendemos que os dois eram distinguíveis por causa do modo de falar refinado de Yaacov. Em toda a Torá somos advertidos freqüentemente sobre como nos dirigir aos nossos superiores e o que é aceitável na conversação. Muitos volumes da Halachá discutem nada além daquilo que é permitido na conversação judaica; o tema subjacente é o refinamento de nosso discurso e a sensibilidade para com os outros. Parece incongruente que nossa sociedade religiosa aceite menos que isso. Mesmo assim, viemos a aceitar algumas coisas que são as doenças da sociedade em geral, algo que não podemos controlar e não temos alternativa senão aceitar, embora de má vontade. Precisamos realmente aceitar a falta de um dogma judaico tão básico como o respeito pelos mais velhos? O que podemos fazer para mudar as atitudes sobre o discurso aceitável?



Não, não creio que estejamos querendo voltar o relógio aos tempos vitorianos, mas podemos virar a maré no que diz respeito ao derech erets e civilidade básica na fala de nossos filhos, O fato de a Torá nos advertir tantas vezes a respeitar nossos pais e anciãos é motivo suficiente para fazermos todos os esforços e fazer disso uma prioridade educacional. Há mais de trinta admoestações positivas e negativas na Torá relacionadas ao discurso, e isso deveria exigir que este aspecto seja parte de todo currículo escolar. Parece óbvio que, talvez sem perceber, tenhamos todos baixado nossos padrões sobre aquilo que consideramos aceitável. Lar e escola são igualmente culpados, porém precisamos começar por algum lugar e a meu ver as escolas devem dar o primeiro passo. Claramente, nem o lar nem a escola sozinhos conseguirão uma mudança fundamental em atitude. Porém, seria razoável acreditar que, quando escola e lar partilharem a mesma agenda e trabalharem em cooperação, as atitudes e o comportamento podem começar a mudar.



Pesquisas sobre atitudes e comportamento social, bem como a psicologia do desenvolvimento, parecem sugerir algumas verdades essenciais.



Primeiro, somente poderemos mudar atitudes quando dermos pequenos passos para mudar o comportamento. Muitos esforços para conseguir coisas importantes morrem no berço porque se dá um passo grande demais. Assim, precisamos ser prudentes e abordar este problema de maneira sistemática, com pequenos passos individuais.



Segundo, quando padrões de comportamento aceitável são estabelecidos e consistentemente reforçados, os comportamentos começarão a mudar. Precisamos chegar a um acordo sobre aquilo que achamos aceitável, e somente então poderemos trabalhar de maneira consistente para reforçar aqueles padrões.



Terceiro, mudar com sucesso o comportamento normativo das crianças exige que todo o ambiente da criança contribua para este fim. Isso não quer dizer que não se possa adotar um conjunto de comportamentos na escola que seja diferente daquilo que é aceito em casa; pode ser feito todos os dias. Muitas coisas, que o ambiente familiar em casa permite, não são permitidas na escola. Porém, isso não muda fundamentalmente o comportamento de uma criança; ela apenas aprende a ajustar-se ao ambiente. Precisamos efetuar uma mudança fundamental e isso não acontecerá a menos que o comportamento indesejável ou padrão de discurso seja alterado por completo, não apenas em um local ou outro.



Podemos esperar de maneira realista ensinar nossos filhos a serem cuidadosos com aquilo que lhes sai da boca, se os mesmos padrões se aplicarem em casa e na escola. Quando eles aprenderem que o mesmo padrão de discurso é esperado em todos os ambientes, em casa, na escola, no acampamento ou no parquinho, mudaremos efetivamente sua maneira de falar, e ponto final.



Por onde começamos? Uma sugestão:

Vamos começar com algo básico; vamos aprender a cumprimentar um ao outro adequadamente. Admito que sou “careta”: acho difícil aceitar que nossas crianças (e adolescentes) não tenham maneira melhor de dizer alô que “E aí meu!” Na verdade, a quem eles estão imitando? Ouvi recentemente, sem ser visto, uma classe de meninos de doze anos conversando pela manhã; cada um deles tentava superar o outro com gracinhas de mau gosto.



Acho difícil de aceitar que esta seja uma brincadeira satisfatória, normativa. Creio que podemos ensinar a volta do simples e social “Bom Dia”, e uma conversa mais refinada. Acho ainda mais absurdo quando, numa tentativa de ser “legal”, adultos falam da mesma maneira que os filhos.



O Talmud (no Tratado Nedarim 8a) fala em termos espirituais sobre o efeito de cumprimentar as pessoas; especificamente com a saudação de “shalom”, até mesmo àqueles que não conhecemos pessoalmente. Não foi há muito tempo que concordamos em saudar as pessoas com quem estamos apenas vagamente familiarizados e no Shabat todos deveriam receber um “Shabat Shalom”. Lembro-me quando eu era jovem, quando o Rebe saía de sua casa no 770 no Shabat e cumprimentava cada passante, adulto ou criança, com “Gut Shabes”.



Qualquer que seja o motivo, as coisas chegaram ao ponto em que, a menos que encontremos um membro da família ou um amigo realmente chegado, não nos incomodamos de trocar cumprimentos. De alguma forma, isto é muito mais um problema nas cidades maiores, especialmente Nova York, que em locais menores (ou, interessante notar, em Israel). Para mim parece irracional passar por um conhecido e dar-lhe um sorriso ou um bom dia de má vontade.



Tive certa vez uma placa no meu escritório que dizia: “Um sorriso não custa nada, mas consegue coisas que nada mais consegue”. Uma saudação matinal e um sorriso podem elevar o espírito de um amigo ou vizinho, professor ou parente e sim, de uma criança. A ideia de que trocar cumprimentos e gentilezas mútuas é uma prática social boa e necessária foi deixada de lado por algum motivo, mas não é difícil de ressuscitar.



Por favor, não me interprete mal. Não estou sugerindo que não haja muitas pessoas para quem este hábito social não é a norma, estou sugerindo que não é tão comum quanto deveria ser. Creio que se nós mesmos começarmos a praticar este “refinamento” básico e esperá-lo de nossos filhos, começaríamos um processo que poderia ajudar a criar uma maior consciência sobre como aquilo que expressamos com nossa boca pode ter um profundo efeito.



Gostaria de sugerir que tanto em casa como na escola, devemos assegurar que as primeiras palavras sociais a saírem da boca de nossos filhos pela manhã sejam um cumprimento matinal. Talvez possamos também espremer um sorriso, para ajudar a tornar a manhã realmente boa. Precisamos treinar nossos filhos e, francamente, nós mesmos, a oferecer um cumprimento adequado, seja manhã, tarde ou noite. Um simples aceno basta para um conhecido.



Se os pais começassem a cumprimentar os filhos, e melamdim e professores seus talmidim e alunos, poderíamos criar uma atmosfera que promoveria um começo para um padrão de maior civilidade. Nossos filhos deveriam saudar uns aos outros com um simples “Bom Dia”, e esquecer “E aí, meu?”


Como fazemos isso dar certo?

Há alguns passos simples que precisam ser tomados para implementar a mudança. Após decidirmos qual é o comportamento desejado, precisamos informar a todos sobre aquilo que esperamos e por quê. Precisamos demonstrar e praticar o comportamento que se quer implementar e então reforçá-lo positivamente. Precisamos também decidir as consequências da não-obediência. Poderemos então ser consistentes e constantes. Nada deve nos deter de reforçar tanto a parte positiva quanto a negativa.



Com isso em mente, aqui está minha sugestão. Uma perspectiva da saudação adequada segundo a Torá, e o inerente “ahavat Yisrael” que ela representa. deveriam ser ensinados em todas as instituições educacionais e partilhados em casa para reforço. Todo adulto e toda criança deveria cumprimentar os membros da família, amigos e professores com um correto bom dia e um sorriso. (Um sorriso tímido dirá à professora que esta criança precisa de atenção). Por sua vez o pai, professor e amigo deve pronunciar algumas amenidades ou um simples cumprimento, para começar o dia.



Por mais curioso que isso possa parecer, pode ter consequências a longo prazo. Se formos constantes, isso se tornará contagioso, e todos desejarão ouvir algo agradável. Com o tempo isso se tornará normativo e nada menos será aceito. Precisamos flagrar as crianças “sendo boas” e cumprimentá-las por isso. Devolver um cumprimento é o melhor incentivo; crianças (e adultos também) apreciarão estas gentilezas.



Pais e professores, bem como qualquer adulto, precisam dizer algo agradável a uma criança que nos cumprimentou corretamente. “Obrigado, Rivca, que maneira bonita de cumprimentar,” ou “Você alegrou meu dia com este lindo cumprimento.” Podemos criar um ambiente que favoreça este primeiro passo.



Quanto às consequências, vamos deixar esta parte com os diretores da escola.