Por Jill Pincus
Uma amiga minha tem um filho fisicamente incapacitado, confinado a uma cadeira de rodas. Porém, apesar das contínuas concessões que a família deve fazer, qualquer pessoa que se hospede na casa deles não percebe as limitações da criança. A atenção está sempre voltada à considerável inteligência e conquistas dela, que são sempre destacadas.



Recentemente, ao interagir com o filho deles em outro local, fiquei chocada ao perceber o peso total das suas limitações físicas. Realmente, esta família criou um lar no sentido mais profundo da palavra, que proporciona ao filho um refúgio das experiências limitadoras que ele enfrenta no mundo.



Este modelo de família é algo que todos devemos imitar no lar que damos aos nossos filhos, um lar que seja um refúgio, onde uma criança possa escapar das incessantes experiências destruidoras da autoconfiança que ela enfrentará continuamente no mundo, como uma parte inescapável do processo conhecido como adquirir educação, ou coloquialmente, crescimento.



Quando criança eu pensava cantar muito bem, e esta presunção nunca foi ameaçada, até que participei de um ensaio para o coral da escola. Depois daquele ensaio, nunca mais quis cantar em público, nem pretendo fazê-lo. Naquele dia aprendi que eu não era “cantora”. O ensaio estreitou meu auto-conceito, e fez com que eu me visse como mais limitada do que imaginara antes. Porém na segurança da casa da vovó, a cantora ainda ousava emergir, e eu fazia apresentacões espontâneas à minha avó e minha tia-avó, que jamais deram a entender que aqueles desempenhos não eram dignos da Broadway. Na escola, eu era limitada como cantora, mas na casa da vovó, eu estava livre daquelas limitações. Ali era o meu refúgio.



Todos nós temos algum tipo de defeito ou limitação. Há crianças que não conseguem ficar sentadas quietas, crianças que não gostam de ler, crianças que são desorganizadas, crianças com dificuldades de aprendizagem, crianças que lutam para entender conceitos básicos, enquanto seus irmãos correm rumo a assuntos mais avançados. Algumas crianças correm devagar ou desajeitadamente, algumas são escolhidas por último para completar o time, ou sempre deixam a bola cair.



Existem crianças com limitações físicas, cujos defeitos são óbvios à primeira vista. Porém há outras que são profundamente limitadas, marcadas, porque não há onde se esconder do incansável tsunami de críticas que constantemente as ameaçam. Em meu trabalho como terapeuta, também vejo estas crianças como incapacitadas, mas seus defeitos são muito mais difíceis de detectar e tratar, porque estão profundamente ocultos nos recessos de sua alma.


Nossos filhos são conscientes de seus pontos fortes e fracos, da mesma maneira que são conscientes de seus próprios corpos, mas não lhes conferem a mesma importância que nós lhes damos. Eles não os vêem necessariamente como limitações com o poder de impedi-los de reconhecer seus sonhos. Embora adultos se definam por quem são e pelo que podem realizar, crianças se definem pelos seus sonhos.



Como pais, nós temos uma opcão. Podemos suspender nossa percepção das duras realidades da vida, de que corredores lentos não se tornam astros do futebol, que meninas desajeitadas não se transformam em bailarinas, a fim de nutrirmos o senso de desenvolvimento dos nossos filhos, e preservar seu senso de ser uma alma ilimitada, somente definida pelo poder dos próprios sonhos, enquanto isso for possível.



Podemos escolher criar um lar que reforce ainda mais as experiências limitadoras que eles recebem no mundo, um lar que destaque suas falhas e as áreas nas quais não se saem bem, o tipo de lar onde a crítica é livre e feita com freqüência; ou podemos escolher criar um refúgio para nossos filhos, um lar onde eles possam escapar do insistente confinamento de seus limites, um lar onde não precisam atingir um determinado nível, porque são queridos por aquilo que são, e por fazerem parte da nossa família.



Como pais, nossa escolha não depende do tipo ou gravidade das limitações dos nossos filhos. Pelo contrário, muitas vezes, os pais daqueles que possuem as limitações mais graves criam os melhores refúgios, como minha amiga criou para seu filho. A escolha então não depende de nossos filhos. A escolha depende apenas de nós.