Por Jonathan Sacks - Rabino chefe da Inglaterra

Numa cultura infantil, as crianças querem uma chance para crescer.

Há alguns anos, conheci a Lei de Parkinson: "O trabalho se expande para preencher o tempo disponível para sua realização." Desde então, descobri um outro princípio, que nos dá mais esperança: "Os jovens crescem para preencher o espaço que criamos para eles."

Peça pouco às nossas crianças e elas continuarão pequenas – não fisicamente, mas ética e espiritualmente. Peça muito e elas o surpreenderão pela capacidade de dar e aceitar responsabilidade.

Uma das perguntas que a sociedade deveria fazer a si mesma: Que espaço nós criamos para nossos filhos?
São os adultos, não as crianças, que infantilizam nossa cultura. Isso aconteceu quando as grandes empresas descobriram que as crianças representam um imenso mercado em potencial, não apenas para brinquedos mas também para roupas, música, filmes, vídeo games, refrigerantes, guloseimas, toda a parafernália que se chama "fashion".

Começaram então a transformar crianças em consumidores, cuja obesidade é apenas o sintoma mais recente a chamar a atenção do público. Na cultura do "você é aquilo que compra", as crianças são transformadas em adultos prematuros, assim como os adultos se transformam em crianças com mais idade.

Penso, num grato contraste, em minha própria infância. Meu falecido pai chegou à Inglaterra como uma criança refugiada. Sua família era pobre. Podia arcar apenas com a educação de um único filho, e ele não era o mais velho. Portanto, teve de deixar a escola aos 14 anos para começar a trabalhar. Nunca reclamou. Ele sabia que a Inglaterra, ao lhe proporcionar abrigo, provavelmente tinha salvado sua vida. Em vez disso ele se concentrou em assegurar que nós, seus quatro meninos, tivéssemos a educação que ele não pôde receber.

Ele nos deu um presente. Pode parecer ridiculamente pequeno, mas não era. Ele nos deu a chance de lhe dar orgulho. Ele jamais colocou isso em palavras. Não era um pai neurótico, ansioso por status, insistindo para que seus filhos conseguissem o máximo. Nós apenas sabíamos, sem que nos fosse dito, que estávamos além dele, lendo os livros, absorvendo as idéias, adquirindo a cultura que ele admirava mas não tivera a chance de tornar sua. Ele caminhava um pouco mais ereto por causa de nós – e nós caminhávamos um pouco mais eretos porque sabíamos que ele o fazia.

Nada é mais verdadeiro do que afirmar que na infância nos tornamos aquilo que somos inspirados a ser. "Seus filhos e filhas profetizarão" – disse o Profeta Yoel – "seus velhos terão sonhos e seus jovens terão visões."

A infância precisa de suas visões e aspirações. Yossef – a primeira pessoa descrita como adolescente na Bíblia – foi o sonhador dos sonhadores. O jovem Moshê, movido pela provação de seu povo, começou a luta contra a injustiça e escravidão que se tornaria sua vida e seu legado.
Quando somos jovens, queremos mudar o mundo. Se este instinto é frustrado, há o perigo de que nossos filhos se voltem para a bebida, drogas, sexo, perigos, violência, fúria e muitas outras patologias de nossa era.

É por isso que nossa comunidade, juntamente com muitas outras, fez um esforço especial para reconhecer a contribuição dos jovens à Semana do Voluntariado deste ano. Vinte e um milhões de pessoas na Inglaterra tomaram parte em alguma atividade voluntária, e tentamos, dentro de nossas escolas e grupos de jovens, encorajar isso da melhor maneira, permitindo que os jovens exercitem sua liderança no serviço comunitário e social, ajudando os necessitados, amparando os solitários, compartilhando talentos e promulgando seus ideais. Nós damos a eles a chance de nos proporcionar orgulho – e eles correspondem.

Assim deve ser o caminho do futuro. Se queremos que nossos filhos se tornem cidadãos ativos, temos de induzi-los cedo nos hábitos da responsabilidade. Eles precisam de espaço para escreverem seu próprio capítulo na história que compartilhamos, e precisam saber que confiamos neles para fazê-lo – cometendo erros ao longo do caminho, mas aprendendo com eles. Mais que os pais ou as escolas, são as crianças que educam as crianças. Tudo que podemos fazer é dar-lhes a chance de dar – para outros, para a sociedade e ao mundo que um dia lhes pertencerá.
Um ideal religioso? Sim, realmente.

D’us é um Pai e nós somos Seus filhos. Nós Lhe damos dor de cabeça grande parte do tempo, mas Yeshayáhu ousou pensar que às vezes também Lhe damos orgulho. "Você é meu servo" – disse ele em nome de D’us – "em quem me glorifico." Os rabinos dizem: "Chame-os não de ‘seus filhos’, mas de ‘seus construtores’.

Precisamos compensar o desequilíbrio entre afluência material e pobreza moral em nossa cultura. Nossos filhos construirão o amanhã se eles doarem, não consumirem, no dia de hoje.