Conta a história que Aristóteles foi certa vez apanhado em flagrante por alguns de seus alunos, cometendo um ato degradante que não condizia com sua posição. Os discípulos ficaram atônitos. Afinal, pensaram eles, estamos tratando com um dos maiores pensadores de todos os tempos, e conseqüentemente, ele deveria personificar alguém extremamente elevado. Como poderia cair a tal nível?

Sentindo a necessidade de reparar o dano, Aristóteles declarou: "Qual é o problema? Aristóteles não mudou. A palestra de amanhã ainda terá lugar às 9 horas. Mas agora estou me comportando como um ser humano comum, como qualquer um de vocês o faria!"

A reação à história acima é previsível. Que hipocrisia! Como pode uma pessoa com tal profundidade de pensamento chegar a este nível de degradação? A história não registra a reação dos alunos de Aristóteles à essa declaração; entretanto, bem pode-se imaginar que aqueles estudantes que testemunharam este comportamento foram provavelmente incapazes de assistir a palestra do dia seguinte.

A separação entre a teoria e a prática é muito comum. Todos estudamos e temos conhecimento de várias e virtuosas formas de comportamento, mesmo assim quando se trata de implementar estas maravilhosas filosofias, parece haver certa dificuldade. O que está faltando? Como podemos infundir em nossas ações os valores que tão facilmente entendemos?

A habilidade de conectar as conclusões lógicas da mente com sua execução em ação é uma faculdade conhecida em hebraico como "da'at". A palavra da'at literalmente significa conhecimento. Entretanto, a Torá também usa esta palavra referindo-se ao vínculo entre marido e mulher, indicando que da'at implica um grau de conhecimento que conecta e aproxima. Isto significa que não é o bastante simplesmente chegar a conclusões elevadas; a pessoa deve também comprometer-se com aquela conclusão, unificando a mente e o coração, órgão que controla as ações, dessa maneira obrigando-se a cumprir aquilo que foi tão claramente entendido.

Isto explica uma expressão inusitada que a Torá utiliza na Porção desta semana. Após a dramática descrição da revelação de Yossef aos irmãos, a Torá relata que Yossef "caiu sobre o pescoço de Binyamin e chorou, e Binyamin chorou em seu pescoço". Nossos Sábios explicam que Binyamin chorou porque percebeu a destruição definitiva do Mishcan, o Tabernáculo que ao final estaria localizado no quinhão de Yossef em Israel, e Yossef chorou porque percebeu a destruição do Bet Hamicdash, o Templo Sagrado, que estaria na porção de terra de Binyamin.

Deixando de lado a questão de que estavam chorando pela futura destruição nesta época, ainda precisa ser esclarecido por que estavam chorando especificamente no pescoço um do outro. Não faria mais sentido que o encontro acontecesse sobre a cabeça, ou perto dela, a parte mais elevada do corpo?

Na verdade, a função do pescoço é única, pois numa situação saudável ele age como um condutor entre a cabeça e o coração (e portanto o restante do corpo). Como o intelecto está situado fisicamente na cabeça, diz-se que nossos pensamentos podem também ser canalizados através do pescoço. Um bloqueio no pescoço, obstruindo a livre passagem do fluxo de pensamentos, é obviamente uma condição doentia. A função do pescoço é por isso, análoga à função do da'at. Ambos existem para forjar a conexão entre os pensamentos da mente que se traduzem em ações controladas pelo coração. Eis por que os irmãos choraram no pescoço um do outro.

Os Templos foram destruídos em conseqüência dos pecados do povo judeu. Em outras palavras, o povo judeu não pôs em ação aquilo que sabiam em suas mentes. Existia um bloqueio. Ao prantear a destruição, portanto, os irmãos choraram especificamente sobre o pescoço, ensinando-nos que apenas o entendimento intelectual não é suficiente. Os atos são o supremo e mais importante objetivo.