Torta de Maçã

O pequeno Johnny e sua família moravam no interior, e como resultado, quase nunca tinham convidados. Ele estava ansioso para ajudar a mãe depois que seu pai apareceu com dois convidados do escritório para o jantar.

Quando o jantar estava quase terminando, Johnny foi à cozinha e orgulhosamente trouxe o primeiro pedaço de torta de maçã, entregando-a ao pai que o passou a um convidado. O pequeno Johnny voltou com um segundo pedaço de torta e entregou-o ao pai, que mais uma vez o deu a um convidado.

Isso foi demais para o Pequeno Johnny, que disse: “Não adianta, Papai. Os pedaços são todos do mesmo tamanho.”

Culinária de Pêssach

Os hebreus tinham vivido no Egito durante 210 anos.Durante quase cem anos tinham sido brutalmente oprimidos. Os homens adultos eram sujeitados ao trabalho escravo, enquanto seus filhos eram afogados e abatidos. Por fim, após dez pragas que devastaram o Império Egípcio, chegou a noite da libertação.

Moshê, em nome de D'us, instrui o povo judeu sobre seu comportamento durante aquela noite memorável, quando eles descobririam a liberdade. Surpreendentemente, a natureza da culinária daquela noite ocupa um espaço importante na imaginação Divina:

“D'us disse a Moshê e Aharon… Eles comerão a carne naquela noite, tostada sobre o fogo, com matsot e ervas amargas. Não a comam assada numa panela, nem cozida, nem fervida em água; somente tostada ao fogo 1.”

Na verdade, essa se tornou a rotina anual de Pêssach. Quando o Templo Sagrado (Bet Hamicdash) estava de pé em Jerusalém, toda família judia (ou grupo de pequenas famílias) levava um cordeiro ou cabrito ao Templo no dia 14 do mês hebraico de Nissan, odia que antecede a Festa de Pêssach. O cordeiro seria oferecido no pátio do Templo, e algumas partes queimadas sobre o altar. Seria então tostado num espeto sobre o fogo. Naquela noite – a primeira noite de Pêssach – a carne seria comida com matsá e maror (ervas amargas), constituindo as três etapas do seder. Atualmente, na falta de um Templo, nossas mesas do seder são deixadas apenas com matsá e maror, sem a oferenda de Pêssach2.

Neste mandamento, encontramos novamente a versão judaica de religião. No Judaísmo, o Criador do Céu e da Terra não está preocupado somente com as verdades cósmicas e existenciais, mas também com os padrões da cozinha do povo. A maneira pela qual você prepara o jantar – num microondas, no forno, numa grelha ou diretamente sobre a fogueira – é importante aos olhos de D'us. Na fé judaica, D'us está intimamente envolvido com toda dimensão da experiência humana, incluindo sua dieta3.

Porém parece singularmente estranho que D'us escolhesse tostar e rejeitasse o refogado para a oferenda de Pêssach. D'us realmente Se importa se você cozinha, ferve ou refoga a oferenda de carne em Pêssach? Qual é a mensagem por trás dessa mitsvá peculiar4? O que deixa a oferenda de Pêssach à parte de todas as outras oferendas no Templo por ser a única que deve ser tostada sobre o fogo, e você nem mesmo teve permissão de assar na panela com os próprios sucos, sem qualquer outro líquido5?

Não me entenda mal. Não tenho preconceito contra um churrasco decente, especialmente aquele acompanhado por pãezinhos torrados (a versão moderna de maror). Apesar disso, eu ainda não transformaria o braai – como nossos amigos sul-africanos carinhosamente definem o churrasco – num mandamento moral e Divino!

A Cabalá de um Churrasco



Porém é exatamente aqui que encontramos a definição judaica de liberdade. A diferença entre cozinhar e grelhar é que ao cozinhar (e ferver ou refogar) o alimento é preparado através da combinação de fogo (ou calor) e água (ou outros líquidos), e grelhar usa apenas o fogo para aquecer a comida.

Ao grelhar – quando você não usa nenhum outro líquido – há duas categorias: tostar na panela e tostar ao fogo. Na panela ainda envolve uma separação entre o alimento e o fogo, ao passo que ne grelha, o alimento entra em contato direto com o fogo.

Qual é a diferença entre fogo e água? O fogo está sempre subindo, lambendo o ar, numa perpétua dança para cima. A chama tremulante nunca está “contente” em seu espaço; está sempre procurando se afastar de sua vasilha e elevar-se aos “céus”. A água, por outro lado, desce e pode ser contida tranquilamente para permanecer em um espaço.

Além disso, o fogo destrói e decompõe todo item com o qual entra em contato. A água possui a qualidade de conectar itens.

No misticismo judaico, o fogo representa o esforço ascendente, anseio, paixão,tensão e inquietude. A água, por outro lado, simboliza a saciedade, contentamento, tranquilidade, realização, calma e resolucão. O fogo decompõe, quebra e divide; você coloca um objeto no fogo e ele é literalmente desafiado até seu âmago. A água conecta, une e integra6. O fogo representa a parte em nós que desafia o status quo, procurando destruir a convenção; a água incorpora nossa capacidade de fazer as pazes com a vida, de entrar em acordo com a realidade; abraçar aquilo que é.

Sobre a Essência da Liberdade



A vida humana deve sintetizar “fogo” e “água”. Se desenvolvermos apenas nossa dimensão do fogo, a tensão resultante pode ser prejudicial. Pessoas que nunca estão satisfeitas tendem a fazer elas mesmas e aos outros infelizes. Por outro lado, se formos apenas criaturas como a água, podemos ficar paralisados e imóveis, presunçosos e limitados. Uma vida saudável e produtiva é aquela que ensina como equilibrar e até integrar os elementos “fogo” e “água” dentro da personalidade humana.

Mas como? Como podemos funcionar nos dois níveis de consciência? Ou ansiamos por uma jornada de ambição e fervor incessantes, ou por uma existência de tranquilidade e gratificação? Somos ambiciosos o tempo todo, ou apenas nos entregamos ao status quo?

Vamos fazer a pergunta de maneira diferente: qual qualidade dentro de nós é mais libertadora, a água ou o fogo?Alguém poderia imaginar que a liberdade significa atingir aquele estado na qual a psique é purificada de toda a tensão e anseio que somente serve para transformar a vida num campo de batalha de ideias e emoções. “Mostre-me o coração não abalado por sonhos tolos e eu mostrarei um homem feliz.”

Vem a Torá e nos diz que na mesma noite em que Israel abraçou o milagre da liberdade, simultaneamente aprendeu que a oferenda da liberdade de Pêssach não poderia ser preparada nem sequer com uma gota de água, apenas através do contato direto com o fogo. Por quê?

Liberdade é a capacidade de ser verdadeira e plenamente humano. E ser humano é ser inquieto. Ser humano é ser movido pelo chamado do infinito, pelo mistério interminável, pela visão ilimitada. Criado à imagem do Divino, a essência infinita da realidade, os horizontes do homem estão sempre se expandindo. A infame falta de saciedade humana não reflete sua natureza inferior; pelo contrário, reflete sua grandeza. Um ser humano sempre sente que há muito mais na vida, na realidade, na verdade, e anseia por isso.

Levar uma vida livre, livre para expressar sua plena humanidade e Divindade, significa jamais ser complacentee satisfeito com seu crescimento pessoal e suas conquistas morais; não permitir sequer que uma gota de água sacie a sua sede e silencie a sua busca; nem mesmo permitir que uma “panela” contenha e limite seu fervor íntimo e paixão para atingir a verdade. Sua perpétua luta em busca de algo maior e mais profundo que si mesmo não deveria resultar em tensão e raiva, mas sim em celebração pela oportunidade de espelhar a Divina infinidade. Você deve aprender a prezar a inquietude dentro de seu coração, fazer as pazes com sua impaciência, abraçar sua má vontade de abraçar o convencional.

Um história

Um estudante, em visita ao Rebe em seu escritório no Brooklyn, viu o Rebe apagar algumas palavras que tinha escrito antes.

“Por que apaga palavras que escreveu?” perguntou o estudante ao Rebe. “Estou certo que se uma mente tão notável como a sua concebeu originalmente essas palavras, elas contêm gemas preciosas de verdade; por que destruí-las?”

“Quando escrevi essas palavras,” respondeu o Rebe, “elas poderiam ter refletido a verdade daquele momento. Mas à medida que o tempo passa, a verdade do passado deve ser descartada em prol de uma luz mais profunda que acaba de emergir.”

(Este ensaio é baseado numa anotação feita num diário particular e não datado do Rebe7.