A porção da Torá Toldot começa com uma poderosa mensagem de esperança e fortalecimento para o povo judeu ao longo dos séculos:

"Estas são as gerações de Yitschac, filho de Avraham; Avraham gerou Yitschac"1

Rashi explica:

"Gerações" refere-se a Yaacov e Esav, que são mencionados nesta parashá.

Qualquer pessoa com um conhecimento, mesmo que superficial, da história dos patriarcas sabe que Yaacov e Esav eram filhos de Yitschac. O que, então, Rashi transmite com seu comentário aparentemente elementar?

O Rebe explica que essas palavras, na verdade, nos ensinam uma lição profunda: "Esav" refere-se aos nossos inimigos ao longo da história. Podemos nos sentir sobrecarregados e desanimados quando enfrentamos ameaça após ameaça de nossos inimigos, mas este versículo nos lembra que tanto Yaacov quanto Esav devem sua própria existência ao fato de serem "mencionados na parashá". Esav existe porque é isso que a Torá determina.

A Torá é o projeto de D’us para a criação. Nada existe fora de D’us, e tudo faz parte de Seu plano Divino. Der Aibershter firt di velt, “D’us governa o mundo”. Precisamos apenas nos conectar à Sua Torá, e não teremos motivos para temer os Esavs do mundo.

Cavando Poços

O que distinguiu o serviço divino de nosso patriarca Yitschac do de seu pai, Avraham, e de seu filho, Yaacov? Podemos obter uma compreensão disso a partir da história de Yitschac cavando poços e do conflito resultante com os filisteus.

Os ensinamentos chassídicos, baseados na Cabala, delineiam os modos únicos de serviço de nossos antepassados. Avraham exemplificou o atributo de chessed, bondade abrangente, benevolência e fluxo do bem. Yitschac personificou guevurá, representando severidade, contração ou restrição. Yaacov personificou tiferet, denotando beleza ou harmonia — o equilíbrio perfeito entre bondade e severidade.

Avraham serviu a D’us por meio de sua bondade e hospitalidade. Yitschac, representando o atributo da severidade, tornou-se um cavador de poços, simbolicamente servindo a D’us ao cavar e sondar as profundezas do ser e da alma, esforçando-se para alcançar a perfeição.

Além do profundo simbolismo da escavação do poço por Yitschac, há uma mensagem fundamental para nós, seus descendentes. A determinação inabalável de Yitschac em extrair a bondade inerente de qualquer situação nos inspira a seguir o mesmo caminho. Quando saímos pelo mundo, também precisamos cavar, buscando a “água”, a bondade que sempre está presente. A questão é apenas a profundidade da escavação. Às vezes, uma pequena escavação revela água, e a bondade é facilmente descoberta; outras circunstâncias exigem uma escavação mais profunda.

Mesmo quando os filisteus tapam os poços que cavamos — quando as forças do mal tentam impedir ou desfazer nossas conquistas espirituais — persistimos, cavando novamente, seguindo em frente, jamais desistindo.

O ato de cavar, de romper a terra, emana do atributo de guevurá, que significa força feroz. Yitschac, personificando esse atributo, acreditava que poderia revelar a bondade inerente em cada pessoa, chegando a tentar desenterrar a bondade adormecida escondida no íntimo de Esav.

A Bondade Dentro de Esav?

Perto do final da nossa porção da Torá, lemos a narrativa fascinante de Yaacov interceptando as bênçãos destinadas a Esav. Yitschac instrui Esav: “Vai ao campo e caça para mim, e prepara para mim comidas saborosas, como eu gosto… e eu comerei, para que a minha alma te abençoe antes que eu morra.”2

O que exatamente é “comida saborosa”? É doce? É azeda? É uma combinação de doce e azedo? Poderia este ser o primeiro pedido de comida chinesa registrado na história judaica?

No Capítulo 27 do Tanya, o Alter Rebe, fundador do Chabad, explica: Existem dois tipos de comida que são iguarias: uma é doce e a outra é ácida. Esta última costuma ser desagradável de comer pura, mas quando preparada adequadamente com os temperos e acompanhamentos certos, torna-se uma iguaria.

Da mesma forma, explica o Alter Rebe, existem dois tipos de "delícias" espirituais quando se trata de combater a sitra achra (lit. "o outro lado", ou seja, tudo aquilo que não representa abertamente a santidade), como a má inclinação e o nosso desejo de pecar.

A primeira "delícia" caracteriza-se pela completa erradicação da má inclinação, um processo comparável à conversão da amargura em doçura e das trevas em luz. Isso só pode ser alcançado pela pessoa perfeitamente justa, o tsadik, sábio/justo,que já não nutre sequer o desejo de pecar.

A segunda "delícia" ocorre quando a má inclinação não é eliminada, mas sim subjugada. Isso é alcançado pela pessoa comum, o beinoni (lit. "intermediário"), que, por meio de intenso esforço espiritual, atinge a perfeição em pensamento, palavra e ação, apesar de um desejo persistente de pecar. Em outras palavras, o beinoni não peca de fato, embora o desejo de fazê-lo ainda esteja presente.

O Alter Rebe explica que D’us ama essa iguaria “azeda”. D’us favorece o arrependimento do baal teshuva, o penitente. É o baal teshuva, o beinoni, que pega elementos azedos e os transforma em algo palatável, até mesmo delicioso.

Foi isso que Yitschac disse a Esav: “repare comida para mim do jeito que eu gosto “…– pegue o que é azedo e faça com que fique delicioso. Pegue a negatividade que você tem e transforme-a em positividade. Faça uma mitsvá! Arrependa-se! Envolva-se no serviço transformador do baal teshuva. Traga-me algo doce e azedo.

Reparando Recipientes Quebrados

Na Cabala, o mundo em que vivemos é chamado de mundo de tikun, que significa “ordem” ou “retificação”. Antes de o nosso mundo existir, porém, havia outro mundo, um reino superior e mais espiritual conhecido como mundo de tohu, “caos”. Tohu recebeu esse nome porque a energia Divina, ou luz, Divina era grande demais para os recipientes e os sobrecarregou, resultando na “quebra” daquele mundo.

Consequentemente, fragmentos de santidade “caíram” nos mundos inferiores, chegando finalmente ao nosso mundo — o mais baixo — e se instalando em seus lugares mais baixos. “Quanto mais alto você está, mais baixo você cai.” Assim, esses fragmentos de santidade desceram ao nosso mundo material, aos reinos mais baixos da negatividade e até mesmo do proibido.

Esav personifica essas energias Divinas caídas de tohu. A intenção de Yitschac era elevar, redimir e libertar essas energias de Esav, transformando-o em um servo de D’us. Fundamentado no atributo Divino da severidade, Yitschac acreditava que, se concedesse uma tremenda bênção a Esav, revelaria sua bondade inerente. Ele via apenas o bem — o potencial Divino — em Esav.

Não veja as ervas daninhas

O falecido Rabino Dovid Edelman, shliach do Rebe e diretor da Yeshivá Lubavitch em Springfield, Massachusetts, por mais de seis décadas, foi entrevistado certa vez ao lado de um de seus apoiadores, Jeffrey Kimball.

O Sr. Kimball contou a seguinte história: Certo dia, ele, sua esposa e sua filha pequena visitaram o prédio da escola que ele ajudará a financiar. Ao chegarem, o Sr. Kimball notou que as flores, antes tão belas, na entrada, estavam agora tomadas pelo mato. Virando-se para o rabino, expressou sua decepção com o fato de o jardim não estar sendo cuidado adequadamente. “Por que o mato está tomando conta das flores?”, perguntou. “O senhor precisa falar com o jardineiro! Este lugar precisa estar bonito.”

Testemunhando essa conversa, a filha do Sr. Kimball, bastante confusa, correu até a mãe no carro e perguntou: “Por que o papai está gritando com o rabino?”

Acalmando-a, a esposa perguntou se ela tinha visto as belas flores e o mato. Confirmando que sim, a mãe da menina explicou: “O papai vê o mato e quer que ele o remova. Mas o rabino só vê as flores, não o mato. É por isso que o papai ficou chateado.”

Era isso que o Rebe queria que todos nós fizéssemos: olhar para uma pessoa e ver apenas as flores, suas qualidades positivas, e não as ervas daninhas, seus defeitos.

Quando Yitschac olhou para Esav, ele só viu as flores. Ele não queria ver as ervas daninhas. Foi por isso que ele desejou conceder sua bênção a Esav. Acontece que D’us disse: “Não. Esav não está pronto para isso.” A força de Yitschac— mesmo na forma de uma bênção — não elevaria Esav, mas, na verdade, o quebraria. A missão de Yitschac teria que ser cumprida por Yaacov e é por isso que Yaacov acabou recebendo a bênção que Yitschac havia destinado a Esav.

Paz que Vem da Força

A vinda de Mashiach e a Redenção final inaugurarão uma era de paz e prosperidade. Nossos sábios dizem que, quando chegar este tempo, Yitschac ocupará um lugar especial entre os patriarcas, devido à sua contribuição para a paz final.

Abracemos essas profundas lições de vida de nosso patriarca Yitschac. Seja incansável na busca pela positividade. Continue cavando poços; esforce-se para descobrir a bondade inerente nos outros, escolhendo focar nas flores em meio aos desafios da vida, em vez de se deixar atolar pelas ervas daninhas.

Que permaneçamos firmes e resolutos diante de qualquer oposição que encontrarmos – canalizando a força de Yitschac – e que possamos inaugurar a redenção final, rapidamente, em nossos dias!