A porção da Torá Beshalach apresenta a famosa Az Yashir, a canção poética que Moshe e os Filhos de Israel cantaram para comemorar a divisão milagrosa do mar. Por quase 3.500 anos desde então, e até hoje, os judeus recitam Az Yashir todas as manhãs durante a reza de Shacharit.

Para recapitular, uma breve narrativa que levou a este ponto: O povo passou 210 anos no Egito, com quase 100 desses anos marcados por opressão brutal. O Faraó, tendo esquecido Yossef e suas contribuições para a grandeza do Egito, ficou obcecado com o "Problema Judaico", sujeitando o povo à escravidão cruel. Finalmente, D'us encarregou Moshe de conduzi-los para fora do Egito. Depois que Moshe e Aharon passaram quase um ano em negociações com o Faraó, incluindo D'us trazendo as 10 Pragas sobre os egípcios, o povo milagrosamente partiu, embarcando em sua jornada ao Monte Sinai para receber a Torá. Arrependido de ter deixado o povo sair, o faraó liderou suas forças especiais para persegui-los. Acampados ao redor do Mar Vermelho, o povo se viu encurralado.

Um Midrash bem conhecido elabora essa parte da história, fornecendo insights sobre a mentalidade de nossos ancestrais naquele momento crucial.

Presos entre o mar à frente e o exército egípcio atrás deles, o povo foi dividido em quatro campos, cada um com sua opinião fortemente defendida sobre o que fazer a seguir. (Os judeus são sempre divididos em muitos grupos — como dizem, "dois judeus, três opiniões" — é o que torna a vida interessante!)

O dilema em questão era`: "O que vamos fazer? Há um mar à nossa frente, um feroz exército egípcio atrás de nós e muitas memórias ruins dentro de nós."

O primeiro grupo disse: "Vamos todos mergulhar no mar — pelo menos morreremos por nossas próprias mãos. Morreremos como pessoas livres." Suicídio em massa com dignidade.

O segundo grupo disse: "Vamos apenas nos render. Vamos levantar uma grande bandeira branca, nos entregar e voltar para o Egito." Ser escravizado, eles raciocinaram, é melhor do que morrer.

O terceiro grupo disse: “O que temos a perder? Vamos lutar contra os egípcios. Lutaremos até a última gota de sangue. Pelo menos agiremos em respeito próprio.”

O quarto grupo disse: “Vamos todos rezar. Vamos nos voltar para o céu e dizer: ‘D’us, podemos realmente contra com a sua ajuda agora mesmo.’ ”

Mas então, algo interessante aconteceu: Moshe rejeitou todas as quatro opções. "Não tenham medo!", ele os tranquilizou. Vocês não têm nada a temer, exceto o próprio medo:

"Fiquem firmes e vejam a salvação do Senhor que Ele fará por vocês hoje, pois a maneira como vocês viram os egípcios é [apenas] hoje, [mas] vocês não continuarão a vê-los pela eternidade. O Senhor lutará por vocês, mas vocês devem permanecer em silêncio."1

O Midrash nos diz que com essas palavras, Moshes se dirigiu a cada um dos quatro grupos:

Para aqueles que disseram: "Vamos pular no mar", Moshe disse: "Fiquem firmes e vocês verão a salvação de D'us."

Para aqueles que disseram: "Vamos nos render e voltar para o Egito", Moshe falou: "Como vocês viram o Egito hoje, vocês não o verão mais, para sempre. Vocês não voltarão ao Egito."

Para o grupo que sugeriu lutar contra os egípcios, Moshe respondeu: "D'us lutará por vocês, mas vocês não lutarão".

E para o quarto grupo, aqueles que queriam rezar a D'us, Moshe disse: "Vocês ficarão em silêncio". Como dizemos em iídiche: Shá shtil! Zog gornisht!

Então lá se foram todas as quatro ideias, todas as quatro filosofias. A resposta correta era "Nenhuma das anteriores".

O que, então, as pessoas deveriam fazer?

Siga em Frente!

A resposta é encontrada no próximo versículo. “Fale aos filhos de Israel”, D'us disse a Moshe, “e deixe-os viajar”. 2

O que os judeus deveriam fazer? Seguir em frente!

Não havia necessidade de uma reunião de mentes para decidir sobre um plano de ação. O povo já havia recebido suas ordens de marchar, e tudo o que era necessário era continuar se movendo. Quando D'us apareceu a Moshe na Sarça Ardente, Ele disse: “Quando você tirar o povo do Egito, você adorará a D'us nesta montanha”. 3 Então, se houver um mar na sua frente, um exército enorme atrás de você, ou ambos, continue se movendo em direção ao seu objetivo. O objetivo desde o primeiro dia foi o Monte Sinai. Desde o início, a missão foi receber a Torá e se tornar um povo Divino. Continue progredindo em direção ao seu objetivo. E se houver um mar na sua frente, ou um exército atrás de você, isso é problema de D'us. D'us terá que lidar com essa questão.

Como isso difere da filosofia do grupo que defendia pular no mar em um suicídio coletivo no estilo de Massada? A distinção está em se seu foco está na ameaça ou no objetivo. As pessoas queriam pular no mar em vez de cair nas mãos dos egípcios. Moshe estava dizendo a eles para andarem na água, porque continuar era como eles chegariam ao Monte Sinai.

O Rebe leva isso um passo adiante, explicando que esta lição se aplica à mentalidade do povo judeu ao longo dos tempos, tanto coletivamente como nação quanto em nossas circunstâncias individuais. Constantemente enfrentamos desafios, ameaças e problemas, e podemos não saber para onde nos voltar porque cada opção parece ter um impedimento. Sempre temos essas quatro vozes dentro de nós. Seguir em frente? Há um mar na sua frente. Retroceder? Há um exército atrás de você. Parece não haver para onde ir.

A resposta continua a mesma: "Siga em frente!" Não se distraia. Não tente combater a negatividade. Defina claramente seu objetivo: Monte Sinai. Siga em frente independentemente dos obstáculos.

Parece impossível? No mundo de D'us, nada é impossível. No mundo da Torá e no mundo das mitsvot, quando se trata da missão do povo judeu, nada é impossível.

Comece a trabalhar — continue andando! — e deixe o resto para D'us.

O Improvável Renascimento Judaico

Esta parashá é frequentemente lida próxima ao dia auspicioso de 10 de Shevat, marcando o yahrtzeit do Rebe Anterior, Rabi Yosef Yitzchak Schneersohn, de abençoada memória. É também o dia em que o Rebe — Rabino Menachem M. Schneerson, de abençoada memória — assumiu o manto da liderança de Chabad.

Rabi Yosef Yitzchak foi Rebe por três décadas: a década de 1920, que viu a ascensão do comunismo na União Soviética; a década de 1930, marcando a ascensão do nazismo e o início do Holocausto; e a década de 1940, durante a qual ele escapou milagrosamente da Europa devastada pela guerra e se mudou para os Estados Unidos. Uma vez nos EUA, ele continuou fazendo tudo o que podia para apoiar seus irmãos na União Soviética e na Europa, e empenhou-se para fazer reflorescer o judaísmo na América e globalmente.

O Rebe Anterior suportou adversidades inimagináveis. Preso em 1927 pelo regime soviético, ele foi submetido a espancamentos brutais na prisão e, finalmente, condenado à morte. Embora tivessem toda a intenção de executá-lo, ele sobreviveu milagrosamente. Forçado a emigrar, ele deixou a União Soviética em 1928 para a Letônia, mais tarde se estabelecendo na Polônia, onde estava morando quando foi invadida pela Alemanha em setembro de 1939, marcando o início da Segunda Guerra Mundial.

Depois de passar as Grandes Festas em 1939 em abrigos antiaéreos em Varsóvia, ele embarcou para os Estados Unidos no último navio de passageiros a deixar a Europa. Chegando às costas da América na primavera de 1940, ele era um homem fisicamente quebrado, confinado a uma cadeira de rodas.

Quando ele foi levado para fora do navio no píer do Porto de Nova York, muitos provavelmente pensaram: "Graças a D’us este grande homem sobreviveu; agora encontraremos um bom lar de convalescença para ele, e ele poderá se aposentar."

Provavelmente não ocorreu a ninguém que ele iria querer continuar seu trabalho em nome do povo judeu. Afinal, esta era a América; um mar de assimilação. Pensar que a América poderia ser a nova terra onde o judaísmo prosperaria era um sonho impossível.

No entanto, com guerra, perseguição e opressão atrás dele e o mar de assimilação à sua frente, qual foi a primeira declaração proclamada pelo Rebe?: "Eu vim para as margens dos Estados Unidos para mostrar que a América não é diferente!" O Rebe afirmou que o judaísmo poderia florescer na América e servir como uma base para seu ressurgimento no mundo inteiro.

“Siga em frente!”, disse o Rebe, ecoando a instrução de D'us três milênios antes. Apesar do que quer que esteja acontecendo ao nosso redor, os objetivos, aspirações e missão de um judeu nunca mudam. Quer estejamos na Rússia, Letônia, Polônia ou América, seguimos em frente em direção ao Monte Sinai.

E ele foi direto ao trabalho. Depois de estabelecer uma yeshivá Chabad em Nova York para treinar um pelotão de novos soldados em seu exército espiritual (fundado em seu primeiro dia nos Estados Unidos!), ele imediatamente começou a enviar shluchim (emissários) para cidades por toda a América. E quando o Sétimo Rebe sucedeu seu sogro, ele expandiu esse esforço, despachando shluchim para todos os lugares do mundo.

Hoje precisamos apenas olhar ao redor para ver que mesmo após décadas, os shluchim ainda estão cumprindo a missão do Rebe. Parafraseando a canção “Ufaratzta” adotada pelo Rebe de um verso de Bereshit, eles se espalharam para o leste, para o oeste, para o norte e para o sul. Esses emissários estão alcançando os judeus onde quer que estejam, trazendo conforto e encorajamento, educação e sabedoria, e uma vida de Torá e mitsvot.

Um Assunto de Família

Isso é profundamente pessoal para mim porque meus pais, Rabino Sholom B. Gordon e Rebetsin Miriam Gordon, de abençoada memória, estavam presentes naquele píer em 1940 quando o Rebe Anterior desembarcou. Meu pai tinha 18 anos e minha mãe tinha 15. Suas famílias estavam entre as primeiras famílias chassídicas Chabad a imigrar para Nova York.

Minha mãe frequentemente me contava que, ali no píer, ela decidiu: "Estou dentro. Vou me ‘alistar’ no exército do Rebe. Vou dedicar minha vida a ser uma emissária do Rebe."

E meu pai fez o mesmo. Ele foi um dos 10 alunos que se matricularam na nova yeshivá do Rebe naquele dia. Na verdade, foi apenas dois anos depois, em 1942, com a tenra idade de 20 anos, quando meu pai foi enviado pelo Rebe Anterior para Newark, New Jersey, para estabelecer uma nova yeshivá.

E como isso funcionou? Meus pais mereceram ser emissários do Rebe Anterior e, mais tarde, emissários do Rebe por mais de 50 anos. Eles estabeleceram instituições judaicas em várias partes de N.J. e em Springfield, Massachusetts, e produziram muitos discípulos e discípulos de discípulos. Notavelmente, meus pais têm descendentes — filhos, netos e bisnetos — que continuam como emissários do Rebe em diversos locais, como Huntsville, Alabama; Salem, Oregon; Nova Orleans, Louisiana; Londres, Inglaterra; Munique, Alemanha; Tasmânia, Austrália; e mais.

"A América não é diferente!" Sempre siga em frente em direção ao Monte Sinai!

Se alguma vez nos depararmos com desafios, nos sentirmos sobrecarregados ou em dúvida sobre o caminho a seguir, vamos relembrar nosso mandato: não pule no mar na sua frente, não acene uma bandeira branca em rendição, não comece uma briga e nem pare para rezar! Em vez disso, apenas siga em frente. Mãos à obra. Caminhe em direção ao seu objetivo: ajude um colega judeu a colocar tefilin, incentive uma menina judia a acender velas de Shabat, convide outras pessoas para sua casa e em seu coração.

Que possamos merecer ver o cumprimento de todas as promessas de D'us com a vinda do nosso justo Mashiach, que inaugurará a Redenção Final. Que isso ocorra rapidamente em nossos dias!