Yechezkel (ל-יְחֶזְקֵא) foi um profeta que viveu na Babilônia na época da destruição do Primeiro Templo . Entre suas profecias mais famosas, compiladas no Livro de Yechezkel, estão suas visões da Carruagem Divina, do Vale dos Ossos Secos e do Terceiro Templo.
Vida de Yechezkel
Yechezkel nasceu na Terra de Israel, filho de Buzi, um sacerdote, 1 e foi ali que começou sua carreira como profeta. 2 No ano de 3327 a.C. (434 a.C.), Jerusalém foi conquistada por Nabuchadnezar, rei da Babilônia. Nabuchadnezar exilou o rei judeu Jehoiachin juntamente com dez mil cativos, incluindo a família do rei, a nobreza da terra e os líderes do exército. 3 Entre os cativos estava o profeta Yechezkel. 4
Yechezkel passou o resto da vida na Babilônia, onde concebeu a maioria de suas profecias. As profecias de Yechezkel são únicas, pois foram vivenciadas na Babilônia, embora, em geral, o espírito Divino não permaneça na Diáspora. Contudo, como Yechezkel já havia começado a profetizar na Terra de Israel, ele continuou a fazê-lo depois de deixá-la. 5
Talvez por não ter habitado a Terra de Israel, Yechezkel não tenha registrado suas profecias por escrito. Em vez disso, os Homens da Grande Assembleia — um grupo de 120 profetas e sábios judeus que viveram por volta de 3400 a.C. (360 a.C.) — aceitaram a tarefa de compilar o Livro de Yechezkel. 6
A Carruagem Divina
O livro de Yechezkel começa com sua famosa profecia da Carruagem Divina. Nessa visão, 7 que ele teve no ano 3332 (429 a.C.), enquanto estava às margens do rio Chebar, 8 Yechezkel descreve em detalhes vívidos o trono celestial de D’us, sustentado por quatro criaturas angelicais com quatro faces distintas: a de um homem, a de um leão, a de um boi e a de uma águia. 9
Este capítulo de Yechezkel serve como fundamento para grande parte da literatura cabalística. De fato, o corpo esotérico da Torá como um todo é referido no Talmud como Maasse Merkavá, “a construção da Carruagem Divina”.10
Esta porção é lida na haftará no primeiro dia de Shavuot que comemora a entrega da Torá no Monte Sinai, quando D’us se revelou acompanhado por multidões de anjos — um tema relacionado à visão de Yechezkel. 11
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O estilo de Yechezkel: imagens verbais e descrições técnicas
“Tu és para eles como uma canção tocada na flauta, que tem uma bela voz e toca bem”, diz D’us a Yechezkel. 12 Ironicamente, Yechezkel é um dos poucos profetas cujo livro é escrito em grande parte em prosa. No entanto, suas profecias incluem algumas das mais comoventes descrições da relação de D’us com o Seu povo, da importância de cada um deles para Ele e da eternidade de sua missão.
Numa dessas passagens, ele começa por imaginar a nação judaica como um bebê abandonado, sem cuidados, ao relento:
No dia em que você nasceu, seu cordão umbilical não foi cortado, você não foi lavada com água para ser purificada, nem foi empoada ou envolta em panos. Ninguém teve compaixão de você para fazer nada disso, para ter misericórdia e você foi lançada em campo aberto… Passei por você e a vi caída e ensanguentada, e eu lhe disse: “Com o seu sangue viverá”, e eu lhe disse: “Com o seu sangue viverá”… 13
Ela é então resgatada por um benfeitor que cuida dela, casa-se com ela e a adorna com as mais requintadas vestes — apenas para que ela, como Yechezkel descreve em detalhes igualmente convincentes, demonstre uma chocante ingratidão ao usar esses mesmos dons na busca por deuses estranhos e alianças estrangeiras desnecessárias. Em pinceladas vívidas, ele detalha as consequências desse comportamento. Contudo, após tudo isso, o relacionamento do Benfeitor com sua protegida permanece intacto: “Lembrarei-me da minha aliança contigo nos dias da tua mocidade e estabelecerei para ti uma aliança eterna”.
Mais adiante, Yechezkel usa outra metáfora, de D’us como o Pastor do Seu povo:
Meu rebanho se dispersou por todos os montes e por todas as colinas altas, e por toda a face da terra. Meu rebanho se espalhou, e ninguém o procura nem o busca… Pois assim diz o Senhor D’us: Eis que estou aqui, e buscarei as minhas ovelhas e as procurarei… e as livrarei de todos os lugares por onde se dispersaram em dia nublado e de trevas. Eu as tirarei dentre as nações, e as reunirei das terras, e as trarei à sua terra, e as apascentarei nos montes de Israel… Buscarei a perdida e recuperarei a que se extraviou; curarei a ferida e fortalecerei a enferma… 14
E na passagem seguinte, ele resume milhares de anos de história judaica e para onde tudo isso nos levará:
…Por causa da sua iniquidade, a Casa de Israel foi exilada, porque me traíram, e eu escondi deles o Meu rosto e os entreguei nas mãos dos seus adversários, e todos caíram à espada. Agi contra eles de acordo com a sua impureza e as suas transgressões, e escondi deles o Meu rosto. Portanto, assim diz o Senhor D’us: Agora voltarei ao cativeiro de Yaacov , e terei compaixão da Casa de Israel, e serei zeloso pelo Meu Santo Nome… Quando Eu os fizer voltar dentre os povos e os reunir das terras dos seus inimigos, serei santificado por meio deles diante dos olhos de muitas nações. E saberão que Eu sou o Senhor, seu D’us, quando os exilei para as nações e quando os reunir na sua terra; não deixarei nenhum deles lá. Não esconderei mais deles a Minha face… 15
Ao mesmo tempo, Yechezkel entrelaça de forma fluida frases do livro da Torá de Vayicrá (Levítico), com suas descrições técnicas detalhadas do sistema sacrificial e das leis pertinentes aos Cohanim (sacerdotes). Nos últimos capítulos de seu livro, ele mescla projetos ponto a ponto do futuro Templo com descrições poéticas da Presença Divina repousando nele:
Ele [o guia angelical de Yechezkel] mediu-a em todos os quatro lados, com um muro ao redor, de 500 [varas] de comprimento e 500 de largura, para separar o sagrado do profano. Então ele me conduziu ao portão, um portão que dava para o leste, e eis que a glória do D’us de Israel vinha do leste; Seu som era como o de muitas águas, e a terra resplandecia com a Sua glória… Ele me disse: Filho do homem! Este é o lugar do Meu trono e este é o lugar da planta dos Meus pés, onde habitarei para sempre no meio dos filhos de Israel. 16
Um profeta da destruição…
Muitas das profecias na primeira metade do livro de Yechezkel dizem respeito à destruição iminente do Templo em Jerusalém como resultado dos pecados da nação judaica. Avisado de que o povo não seria receptivo às suas mensagens verbais e que ele teria que permanecer “mudo” e se abster de repreendê-los, a menos que recebesse uma mensagem Divina, 17 ele deveria, em vez disso, acompanhar suas profecias com dramatizações eloquentes dos eventos vindouros.
Yechezkel recebeu instruções para pegar um tijolo e gravar nele uma imagem de Jerusalém sitiada. 18 Como símbolo das privações que os habitantes de Jerusalém sofreriam, foi-lhe dito para amassar uma massa de trigo, cevada, feijão, lentilhas, milho-miúdo e espelta 19 (um tipo de mistura que só seria consumida em condições extremas), assá-la usando esterco animal como combustível e comer pequenas porções desse “pão” durante 390 dias, permanecendo imóvel. 20 Além disso, ele deveria cortar cabelos da cabeça e da barba e representar com eles os diversos destinos dos judeus durante e após a destruição: queimados, atingidos pela espada, dispersos, e alguns poucos preciosos seriam “envoltos em suas vestes”, representando o remanescente que sobreviveria ao exílio babilônico e de quem a nação seria regenerada. 21
Assim diz o Senhor D’us: Visto que Jerusalém derramou sangue, chegou a sua hora. Visto que praticou coisas abomináveis, tornou-se contaminada… Eu te espalharei entre as nações e te dispersarei pelas terras; assim removerei de dentro de ti a tua impureza. 22
Num episódio particularmente doloroso, a própria esposa de Yechezkel morreu vítima de uma praga, simbolizando a destruição da “alegria dos olhos dos judeus”, o Templo. Em consonância com esse simbolismo, Yechezkel foi instruído a seguir sua rotina habitual e evitar as práticas de luto, um verdadeiro “ensaio geral” de como o povo judeu seria incapaz de se consolar mutuamente devido à sua própria dor (ou talvez até mesmo incapaz de demonstrar luto, por medo dos babilônios ).23
Por fim, as profecias de Yechezkel se cumpriram. No ano de 3336 (425 a.C.), no décimo dia do mês de Tevet , D’us instruiu Yechezkel: “Anote esta data: hoje o rei da Babilônia sitiou Jerusalém”. 24 Em comemoração a este evento calamitoso, o décimo dia de Tevet (em dezembro/janeiro) é observado como um dia de jejum e arrependimento.
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Três anos depois, no quinto dia de Tevet, um fugitivo chegou de Jerusalém e relatou a terrível notícia: poucos meses antes, a cidade havia sido conquistada e o Templo, incendiado. 25
…E Consolo
Após a destruição do Templo, as profecias de Yechezkel passaram a ter um espírito diferente. 26 Em vez de repreensor, ele agora era o consolador, prevendo tempos melhores, quando Israel retornaria à sua terra e o espírito de D’us repousaria entre eles mais uma vez.’’
Assim diz o Senhor D’us: Reunirei a casa de Israel dentre as nações para onde foram dispersos… habitarão na sua terra que dei ao meu servo Yaacov… executarei juízos sobre todos os que zombam deles, e saberão que Eu sou o vosso D’us. 27
Uma das profecias de Yechezkel dizia respeito à longa divisão da nação de Israel em dois reinos. Essa cisão existia desde os tempos de Rehoboam, filho do rei Shlomo (da tribo de Yehuda), quando dez das tribos se separaram das outras duas e criaram um reino independente, governado por Jeroboam, da tribo de Efraim. 28
Yechezkel recebeu instruções para pegar dois ramos, em um dos quais escreveu o nome Yehuda e no segundo o nome Efraim. Em seguida, foi-lhe dito para segurar os dois ramos juntos. 29 Isso simbolizava que, quando os judeus fossem finalmente libertados do exílio, a divisão entre essas duas tribos seria sanada e os judeus seriam novamente governados por um único líder. 30
Vale dos Ossos Secos
Uma das visões mais famosas de Yechezkel é a do Vale dos Ossos Secos. Yechezkel foi transportado para um vale repleto de ossos humanos secos. Foi-lhe ordenado que instruisse os ossos a se unirem e a serem cobertos com tendões, carne e pele. Em seguida, foi dada a instrução às almas para que entrassem nos corpos e os reanimassem.
[D’us] me disse: Filho do homem! Estes ossos representam a casa de Israel. Eles dizem: “Nossos ossos secaram, nossa esperança está perdida!” Diga-lhes o seguinte: “Assim diz D’us: Abrirei os seus túmulos e os tirarei deles, ó Minha nação, e os trarei para a terra de Israel… Porei o Meu Espírito dentro de vocês, e vocês viverão, e Eu os estabelecerei na sua terra.”31
O Talmud registra uma disputa sobre se a ressurreição desses cadáveres foi uma visão espiritual ou um acontecimento real. Um sábio, Rabi Yehuda ben Beteira, testemunhou: “Sou descendente deles e aqui está um par de tefilin que herdei deles.”32
O Terceiro Templo
O livro de Yechezkel culmina com uma profecia visualizada no Yom Kipur de 3352 (410 a.C.), quatorze anos após a destruição do Primeiro Templo. Yechezkel se viu sendo transportado para o Monte do Templo, onde um anjo segurando uma vara de medir lhe deu uma visita detalhada ao Terceiro Templo, descrevendo as medidas exatas de suas várias estruturas.33
Yechezkel recebeu instruções para transmitir essa visão aos seus irmãos, para que estudassem as dimensões da obra e estivessem preparados para construí-la quando chegasse a hora. 34 Dessa forma, os judeus ouviram uma mensagem clara: a recente destruição do Templo era apenas temporária, e um edifício ainda maior que o primeiro seria erguido no futuro.
O Midrash registra uma discussão entre D’us e Yechezkel:
Yechezkel disse a D’us: Senhor do Mundo! Os judeus estão exilados na terra de seus inimigos, e Tu me pedes para informá-los sobre as dimensões do Templo? Serão eles capazes de construí-lo agora? Aguarda até que sejam libertados do exílio, e então eu lhes direi!
D’us respondeu: Só porque Meus filhos estão no exílio, Minha casa não deve ser construída? Diga-lhes que estudem a forma do Templo, e será como se eles próprios o estivessem construindo! 35
Nesse espírito, é costume estudar as dimensões do Templo, incluindo esses capítulos de Yechezkel, durante as Três Semanas de luto (17 de Tamuz a 9 de Av), utilizando esses dias para agir em prol da futura reconstrução do Templo. 36
Esta seção do livro de Yechezkel também contém descrições detalhadas de como o Terceiro Templo será administrado. Algumas de suas afirmações parecem estar em conflito com as regras da Torá: são descritos sacrifícios que não têm paralelo em nenhum outro lugar quanto ao número e quantidade; são dadas regulamentações para os Cohanim (sacerdotes) que, de acordo com a lei da Torá, se aplicam apenas ao Cohen Gadol (Sumo Sacerdote); e assim por diante.
O Talmud registra como, em certo momento, os sábios sentiram que seria necessário “esconder” o livro de Yechezkel para evitar mal-entendidos, mas que ele foi salvo para a posteridade pelos esforços hercúleos de Chananya ben Chizkiya, que usou “300 barris de óleo” para iluminação enquanto analisava os versículos e deduzia seus verdadeiros significados. 37
Uma abordagem é ler esses versículos de forma menos literal, de modo a produzir as mesmas leis da Torá, embora expressas de maneira diferente. 38 Outra é dizer que os sacrifícios descritos se aplicam apenas durante o período de dedicação do Terceiro Templo, assim como houve ofertas incomuns trazidas durante a dedicação do Tabernáculo do Deserto e do Primeiro e Segundo Templos, 39 e que os regulamentos para os Cohanim visam colocá-los no nível superior do Cohen Gadol , apropriado ao maior nível de santidade que prevalecerá naquele tempo. 40
Morte e sepultamento de Yechezkel
Yechezkel faleceu em algum momento antes de 3364 a.C. (397 a.C.) e foi sepultado na Babilônia. 41 Em 3364 a.C. Nabucodonosor morreu, e seu filho Evil-Merodach, que assumiu o trono caldeu, libertou o rei judeu Jehoiachin da prisão. 42 Jehoiachin, acompanhado por uma grande comitiva de judeus, visitou o túmulo de Yechezkel e construiu um magnífico túmulo no local, que também servia como sinagoga.43
O rabino Benjamin de Tudela, que visitou o túmulo por volta de 4930 (1170), relatou que os judeus viajavam de Bagdá até lá todos os anos para rezar durante as Grandes Festas, e no Yom Kipur liam um rolo da Torá escrito pela própria mão de Yechezkel.44
Acredita-se que o túmulo de Yechezkel esteja em Al Kifl, no Iraque, embora isso não seja conclusivo.
O habitante da aldeia
O Talmud destaca que 45, enquanto Yechezkel descreveu a Carruagem Divina em grande detalhe, o profeta Yeshayahu descreveu a glória Divina em termos breves e concisos. Compara suas perspectivas às de um habitante da cidade e de um habitante do campo que viram o rei. O habitante da cidade não se entusiasma com as carruagens luxuosas, os uniformes e a ostentação real, porque vê tudo isso o tempo todo. Seu foco está no próprio rei. Por outro lado, quando um habitante do campo vê a comitiva, como raramente presencia tais demonstrações, cada detalhe é emocionante.
Embora essa comparação pareça minimizar a profecia de Yechezkel, na verdade ela transmite uma mensagem profunda. O propósito da Criação é reconhecer como tudo no mundo material é um reflexo do que existe nos reinos superiores. Essa ideia é expressa na visão de Yechezkel, onde o foco está nos detalhes, a partir dos quais a grandeza de D’us é percebida. Pelas palavras de Yechezkel, entendemos que sua visão era uma representação dos reinos superiores, e essa é uma consciência que devemos nos esforçar para internalizar. 46

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