A narrativa de Lot e suas duas filhas, cuja união em uma caverna logo após a destruição de Sodoma deu origem a duas nações, é talvez uma das histórias mais intrigantes e controversas de toda a Torá.

Ao longo dos séculos, o incesto entre Lot e suas filhas suscitou muitas questões, debates e teorias entre estudiosos e leigos.

A História

A história de Lot e suas filhas se passa depois que D’us destruiu completamente a cidade de Sodoma e toda a sua metrópole, onde viviam. Como os únicos sobreviventes de sua família, Lot e suas duas filhas passam a viver na caverna de uma montanha deserta próxima. É aqui que as coisas tomam um rumo inesperado:

A filha mais velha disse à mais nova: “Nosso pai é velho, e não há homem no mundo que queira se casar conosco da maneira tradicional. Venha, vamos dar vinho para nosso pai beber, deitar-nos com ele e assim gerar filhos.”

Naquela noite, deram vinho ao pai para beber. A filha mais velha foi e deitou-se carnalmente com ele, mas ele estava tão bêbado que não percebeu que era ela quando se deitou ao seu lado. Mas quando ela se levantou, ele estava sóbrio o suficiente para se dar conta de que era ela.

No dia seguinte, a filha mais velha disse à mais nova: "Ontem à noite fui eu quem se deitou com nosso pai. Esta noite também, vamos dar-lhe vinho para beber, e você vai e se deita com ele, e teremos filhos por meio de nosso pai."

Naquela noite, deram vinho ao pai novamente. Desta vez, a filha mais nova se levantou e deitou-se carnalmente com ele, mas, mais uma vez, ele estava tão bêbado que não percebeu que ela se deitara ou se levantara. 1

A narrativa na Torá continua, revelando que as duas mulheres conceberam de seu pai:

A filha mais velha deu à luz um filho e lhe chamou de Moab [“em homenagem ao pai”]; ele é o ancestral do povo de Moab até os dias de hoje.

A filha mais nova também deu à luz um filho e o chamou de Ben-Ami [“filho da minha família”]; ele é o ancestral do povo de Amon até os dias de hoje. 2

Lot como pecador

Uma leitura simples do relato parece sugerir que as filhas de Lot, com medo de nunca poderem se reproduzir, se envolveram em atividades imorais e incestuosas para satisfazer seus desejos e confrontar seus medos e dúvidas — um pecado grave.

Segundo uma interpretação midráshica, as filhas de Lot certamente tinham a intenção de transgredir, mas D’us lhes concedeu gravidezes e um legado de duas grandes nações. 3

A maioria dos comentaristas rabínicos, no entanto, vê as filhas de Lot como mulheres de intenções boas e até nobres, enquanto seu pai é retratado como um pecador: Não sabemos se Lot cobiçou suas filhas ou se suas filhas o cobiçaram... Pelo que está escrito: 'O solitário busca a luxúria' 4 - vemos que Lot cobiçou suas filhas, mas suas filhas não o cobiçaram. 5

Na verdade, a razão pela qual Lot inicialmente procurou viver na cidade moralmente depravada de Sodoma foi precisamente porque sua sociedade estava profundamente mergulhada na imoralidade. 6 Isso fica ainda mais evidente pelo fato de que, embora na manhã seguinte Lot tenha reconhecido o que havia ocorrido na noite anterior, ele não se absteve de beber novamente na noite seguinte. 7

Segundo uma fonte, esse incidente vergonhoso foi um castigo por um ocorrido anteriormente, no qual ele teria oferecido suas filhas para apaziguar a multidão que se aglomerava do lado de fora de sua casa, um ato vergonhoso e covarde. Assim, ele foi punido ainda mais por seu comportamento indecoroso, e o episódio na caverna tornou-se amplamente conhecido. 8

De fato, a Torá continua relatando que, imediatamente depois, Avraham viajou e mudou-se, o que, como explicou Rashi, 9 foi uma manobra destinada a se distanciar de Lot, que havia caído em desgraça por ter tido relações com suas filhas: 10

Lot e suas duas filhas — aqueles que agiram com o intuito de cumprir uma mitsvá — [está escrito]: “Os justos andarão neles”. 11 Mas aquele que agiu com o intuito de pecar, [está escrito]: “Os transgressores tropeçarão neles”. 12

Para salvar o mundo

Diferentemente do pai, as filhas de Lot são vistas de forma favorável e até virtuosa, sendo retratadas como visionárias em uma missão.

As duas filhas, tendo acabado de escapar da destruição total que assolara Sodoma, estavam convencidas de que a população mundial havia sofrido um destino semelhante. Acreditavam que D’us havia feito chover fogo e enxofre sobre a Terra e, tal como no Dilúvio, eram agora as únicas sobreviventes. 13

A mãe delas também havia falecido durante a fuga de Sodoma, e elas reconheceram que o pai havia ficado sem companheira e, portanto, sem outro meio de perpetuar a raça humana. 14

Assim sendo, essas filhas são reconhecidas por terem desejado garantir a propagação da humanidade e do mundo que D’us criou.

De fato, encontramos um paralelo semelhante com Caim, o primogênito de Adam, que se casou com sua irmã. Embora a Torá designe tal união como imoral e uma grave transgressão, o Talmud observa que ela foi permitida, como uma bondade Divina, “para que o Seu mundo pudesse ser construído a partir dele”. 15

Embora suas ações fossem de fato abomináveis, D’us conhecia suas intenções e os recompensou por seus atos com o surgimento de duas grandes nações.

Mais tarde, quando a Torá nos ordena que “nenhum amonita ou moabita seja admitido na congregação do Senhor”, 16 a proibição contra o casamento misto (após a conversão) limita-se apenas aos homens, e não às mulheres, em reconhecimento às nobres intenções das mães que deram à luz a essas nações. 17

Faíscas de Mashiach

Os feitos das duas filhas de Lot acabariam por gerar o Rei David e, eventualmente, o próprio Mashiach.

A filha mais velha deu à luz Moab, de quem descendeu Ruth, a moabita, bisavó do rei David. A filha mais nova deu à luz Ben-Ami, de quem descendeu Naamá, a amonita, predestinada a casar-se com o rei Salomão e gerar seu filho Rechoboam boão. Mashiach está destinado a descender do rei David e do rei Salomão através de Rechoboam. Assim, ambas as filhas contribuíram para a dinastia de Mashiach, o redentor final. 18Além disso, os descendentes da filha mais velha se uniram ao povo judeu quatro gerações antes dos descendentes da filha mais nova. Por quê? Porque ela agiu antes. 19

Como eles conseguiram o vinho?

O Midrash menciona a presença de vinho em uma caverna obscura nas montanhas, que as filhas usaram para embriagar o pai, e concorda que ele havia chegado ali milagrosamente para possibilitar a união que, em última instância, produziria Mashiach. 20 Esse milagre era prenúncio dos tempos messiânicos, quando “as montanhas gotejarão suco”. 21

É possível que as próprias filhas tenham reconhecido o aparecimento milagroso do vinho como providencial, destinado a auxiliá-las em sua missão de propagação da humanidade.

Sobre o versículo nos Salmos, “Encontrei o meu servo David”, 22 aludindo ao Mashiach, o Midrash comenta: “Onde Ele o encontrou? Em Sodoma!” 23 — uma referência à união que acabou por produzir o Rei David e, eventualmente, Mashiach. Claramente, as filhas de Lot não apenas agiram de forma altruísta, mas seu ato foi essencial para o advento de Mashiach e da Redenção Final.

Para enganar

Os místicos detalham a necessidade de a dinastia do Redentor Final nascer de uma união ilegítima, e incestuosa ainda por cima. Quando chega a hora de uma grande e santa alma descer a este mundo, as forças do mal se levantam com toda a sua força para impedi-la de entrar. A natureza duvidosa da união tinha, portanto, o propósito de “enganar Satanás”, que presume que Mashiach só pode surgir por meio da linhagem e da santidade. 24

O mestre chassídico, Rabi Meir de Premishlan, ilustrou isso com uma parábola: Assim como os mercadores que desejam contrabandear mercadorias valiosas para um país primeiro as sujam com terra, para que os funcionários da alfândega acreditem que as mercadorias não são novas e, assim, evitem pagar impostos, D’us providenciou para que as almas do Rei David e de Mashiach descendessem por meio de uniões que parecem ilegítimas, para que ninguém imaginasse que uma alma tão grandiosa pudesse surgir delas.

Alternativamente, D’us desejava trazer uma existência inteiramente nova a este mundo — uma verdadeira novidade — e, portanto, precisava criar uma nova combinação. Quanto mais distante uma nação estivesse de Israel, como no caso dos amonitas e moabitas, que foram proibidos de se juntar à congregação de Israel, mais inédito e fundamentalmente novo seria o produto dela resultante. Assim, foi a união dessas duas nações que frutificou na grande e sublime alma de Mashiach. 25

O Terceiro Rebe, Rabi Menachem Mendel de Lubavitch, conhecido como Tzemach Tzedek, explica que a dinastia real do Rei David está enraizada na mais elevada das uniões, uma relação cuja origem é tão sublime que não pode ser alcançada neste mundo através da santidade. Contudo, sua contraparte no mundo físico se manifesta como uma relação proibida e um pecado. A alma sublime de Mashiach havia descido a tamanhas profundezas de impureza que só poderia ser resgatada e revelada através da união de Lot e suas filhas. 26

Sem dúvida alguma, é evidente que, das profundezas da escuridão, da impureza e da depravação, D’us escolheu que emergisse o bem supremo, a luz e a santidade. Isso pode servir de lição para o homem ou a mulher que se sente aprisionado pelos desafios e tribulações da vida: estes podem muito bem marcar o início do seu destino final e das suas maiores bênçãos.

O Sonho de Duas Mulheres

O rabino Moshe Feinstein (1895-1986), nascido em Uzdan, perto de Minsk, na Bielorrússia, tornou-se a principal autoridade haláchica de sua geração após imigrar para os Estados Unidos, com suas decisões aceitas em todo o mundo.

Em 1921, enquanto servia como rabino-chefe da cidade de Luban, na Bielorrússia, um estudioso local da Torá adoeceu gravemente com uma estranha doença, cujo sintoma mais marcante era uma língua anormalmente inchada e alongada. Os médicos não conseguiram diagnosticar a doença e, em pouco tempo, o homem jazia em seu leito de morte.

Quando o Rabino Moshe veio visitá-lo, o doente pediu que todos saíssem da sala para que pudesse falar com o Rabino Moshe em particular. Assim que ficou a sós, explicou o que acreditava ser a causa de seu sofrimento.

Na semana anterior, disse ele, havia proferido um sermão no qual criticou duramente as filhas de Lot, condenando-as como descaradas e imorais. Questionou como tais mulheres poderiam merecer que Mashiach descendesse delas, especialmente porque divulgaram abertamente seu ato incestuoso ao nomearem seus filhos dessa forma.

“Na noite passada”, continuou o homem com a voz trêmula, “duas mulheres muito idosas me apareceram em um sonho. Elas usavam longas vestes que as cobriam completamente e se identificaram como as filhas de Lot.

“Disseram-me que estavam profundamente chateadas com a forma como eu havia falado delas e que tinham recebido permissão para vir a este mundo para responder. Disseram que eu nunca deveria tê-las acusado de depravação ou de conduta vergonhosa, e que eu estava sendo punido através da minha língua pelas minhas duras palavras.”

As mulheres explicaram que, após a destruição de Sodoma, acreditavam ser os últimos seres humanos vivos na Terra. Sentiram-se compelidas a garantir a continuidade da humanidade e, sem alternativa, acreditaram que deviam agir daquela maneira.

Elas explicaram ainda que se sentiam na obrigação de divulgar o ocorrido. Se tivessem ocultado o fato, as gerações futuras poderiam ter acreditado ser possível o nascimento de uma criança sem pai. Afinal, não havia outros homens presentes, e seria inconcebível que coabitassem com o próprio pai.

Elas disseram que isso poderia ter levado à crença perigosa no nascimento virginal, com pessoas declarando falsamente uma criança como uma divindade ou proclamando um falso Mashiach. Para evitar isso, elas suportaram a imensa vergonha de divulgar suas ações, garantindo que nenhuma geração futura jamais pudesse acreditar que uma criança pudesse nascer sem pai. Por essa razão, concluíram que mereciam que o verdadeiro Mashiach descendesse delas.

O homem terminou de relatar o sonho a Rav Moshe, virou o rosto para a parede e faleceu. 27