A Cabalá entende o bem e o mal como pólos opostos na série da moralidade. Isso significa que qualquer situação ou entidade na vida contém elementos tanto do bem quanto do mal. A capacidade do homem de descer com segurança a série moral rumo ao pólo do mal a fim de transformá-lo em bem é uma função de quão fortemente ele está ancorado nas regiões superiores da série, próximo ao pólo do bem. Quando ele está firmemente ancorado no bem, ou seja, ele sente-se próximo em seu relacionamento com D'us, não teme revelar nenhum mal dentro de si mesmo ou no mundo, e sua descoberta não representa uma ameaça à sua crença geral no triunfo definitivo do bem e da santidade.

A natureza animalesca do homem o impele incessantemente em direção ao pólo do mal, para longe da consciência de D'us, ao passo que sua alma Divina o impulsiona rumo ao pólo do bem. O espírito do homem ascende rumo ao alto, mas o espírito do animal dirige-se para baixo, rumo à terra. Sua capacidade de permanecer ancorado na bondade, então, depende de seu sucesso em dar à sua alma Divina a precedência sobre sua alma animalesca.

Aprendemos no Talmud que quatro Sábios, Rabi Akiva e três de seus discípulos, engajaram-se em técnicas meditativas místicas e ascenderam aos reinos transcendentes da consciência Divina. Ben Azai contemplo [a Divina glória] e morreu; sobre ele, as Escrituras [profeticamente] declaram: "Caro à estima de D'us é a morte de Seus devotos" (Salmos 116:15). Ben Zoma olhou e enlouqueceu; sobre ele as Escrituras declaram: "Você encontrou mel; coma [não mais que] sua cota, do contrário ficará repleto e vomitará" (Mishlê 25:16). O outro, [Elisha ben Avuya, olhou e] tornou-se um herege. Rabi Akiva entrou em paz e saiu em paz.

A Cabalá explica que cada um destes Sábios tentou retificar o pecado de Adam (Adão) e seu efeito sobre o mundo. Antes do pecado, o bem e o mal existiam em dois reinos separados e não se misturavam de forma alguma. Quando Adam e Eva comeram o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, estes se misturaram, e a série moral a que se referiu anteriormente foi criada. O erro de Elisha ben Avuya foi que tentou retificar o pecado lidando diretamente com o mal, e foi negligente ao deixar de ancorar-se firmemente ao bem. Concentrando-se inteiramente no mal do mundo, ele perdeu a habilidade de reconciliar sua existência com um D'us benevolente e amoroso. As perguntas apresentadas pelo mal foram grandes demais para ele; concluiu que não há nenhum D'us e tornou-se um herege.

Conta-se que ele observou alguém que pediu ao filho para subir numa árvore e trazer-lhe alguns filhotes de passarinho. O filho, que obedeceu, estava cumprindo dois mandamentos da Torá de uma só vez: honrar o pai (Shemot 20:12) e espantar a ave mãe do ninho antes de pegar seus filhos (Devarim 5:16). A recompensa prometida para estes dois mandamentos é vida longa, mas o filho acidentalmente caiu da árvore e morreu. A anomalia foi demais para Elisha ben Avuya suportar.

Rabi Akiva, em contraste, procurou retificar o pecado de Adam ao enfatizar o bem e ao sobrepujar o mal indiretamente. Embora não conseguisse no final, mesmo assim foi capaz de emergir ileso da tentativa. Como permaneceu arraigado à consciência da bondade de D'us, o mal no mundo não constituiu uma contradição para ele.

Manteve sua perspectiva até o fim da vida. Quando foi apanhado ensinando Torá durante as perseguições de Adriano, foi condenado à morte. Enquanto os romanos rasgavam sua carne com ancinhos de ferro, ele recitava o Shemá: Ouve, ó Israel, o Eterno é nosso D'us, o Eterno é Um, a declaração da unicidade de D'us. Ele prolongou a recitação da palavra "Um" até que expirou enquanto a pronunciava. A existência do mal não apresentou nenhuma questão para sua fé; ao contrário, sua fé era tão forte que pôde sentir-se perto de D'us mesmo quando sua carne estava sendo rasgada com ancinhos de ferro.