Por Jay Litvin
Eu os encontrei certo dia em meu carro

Encontrei anjos pelo caminho. Foi há cerca de 19 anos. Havia talvez uns 10.000, pairando no ar. Eram de diferentes tamanhos e formas. Alguns se pareciam com desenhos animados de Walt Disney, do tipo que carregou Pateta para o céu quando ele levou uma pancada na cabeça. Outros pareciam saídos das vitrines das lojas ou de cartões de felicitações. Alguns se pareciam com os anjos de gesso que eu costumava comprar em um mercado no México, primitivos, brilhantemente pintados em azuis e rosas pastel. Era um sortimento fascinante, todos adejando vigorosamente suas asas de tamanho pequeno, médio ou grande.

Encontrei-os outro dia em meu carro. Após dias de deliberação e superando uma imensa quantidade de medo, minha mulher e eu decidimos deixar nosso filho de seis anos atravessar a rua sozinho. O local era Milwaukee. Não tão mau quanto Nova York ou Chicago, mas com carros tão duros que corriam tão rápido quanto lá. As imagens que passaram por nossa cabeça eram tão terríveis como se ele fosse atravessar a Rua 42 com a Broadway pela primeira vez. Pequenos ossos frágeis, macia pele rosada. Você sabe a que me refiro.

Bolamos este plano. Sem que ele soubesse, assim que ele saiu de casa, eu ficaria dentro do carro, e iria a cada uma das esquinas que ele teria de atravessar, estacionando o carro onde ele não me pudesse ver, para vigiar. Não sei se poderia protegê-lo. Mas pelo menos saberia o que aconteceu.

(Já há muitos anos que não penso nisto. Então, outro dia, aconteceu algo que desvelou uma imagem nítida em minha memória.)

Sentei-me no carro e o vi aproximar-se da primeira esquina. Ele parecia tão pequeno. Caminhou com aqueles passinhos, olhando para um lado e outro, parando a cada vez para observar alguma coisa no chão ou para voltar a cabeça e vislumbrar um pássaro em uma árvore ou uma nuvem, ou algo numa janela lá no alto. Vestia uma camiseta listrada de azul e amarelo, shorts azuis, meias acima dos tornozelos e tênis azuis.

Quando ele se aproximou da primeira esquina, meu coração acelerou, minhas mãos agarraram o volante. Reuni toda minha concentração e tentei, por telepatia, lembrá-lo de parar e olhar para as duas pistas. Meus olhos não piscavam por medo de que na escuridão momentânea que minhas pálpebras criariam ao cobrir meus olhos, algo de horrível pudesse acontecer. Quando ele chegou ao meio-fio, minha mão mexeu na maçaneta da porta e calculei quanto tempo levaria para abrir a porta e correr para agarrá-lo. Não havia esperança de resgatá-lo, mas agarrei a maçaneta mesmo assim.

Seja porque ele recebeu minha mensagem, ou porque seu próprio bom senso prevaleceu, ele parou. Carros vinham de ambas as direções. O que faria ele? Enquanto esperava, olhando para os dois lados, para frente e para trás, calculando quando atravessar, eu senti uma enorme impotência. Senti como se não tivesse espinha, nenhum músculo em minhas pernas e braços, nenhuma força viva animando meu corpo. Sentei e assisti, e esperei e tentei respirar. Ele estava fora de meu alcance. Então ele se moveu. Quando o caminho estava completamente livre, ele começou a saltar pela rua, feliz como um passarinho, lépido como um coelho.

Na próxima esquina aprendi a rezar. Naquele tempo, eu não era religioso. Mas ao sentar-me encolhido no carro decidi que deveria haver um D'us. Enquanto observava meu filho se aproximando, não podia aceitar sua vulnerabilidade às grandes forças desconhecidas das trevas e do mal neste mundo. Como também não podia aceitar minha impotência para mantê-lo a salvo. Recusei-me a crer que este sujeitinho estava lá fora sozinho, sem nenhuma proteção. Para mim, não fazia sentido que uma vida pudesse ser trazida a este mundo, ser forçada um dia a afirmar sua independência, e então ser deixada à deriva sem ninguém ou nada para vigiá-lo. Rezei. E implorei a todas as forças benevolentes que houvesse no mundo com o poder de cuidar de meu filho para que chegassem até ele agora e o protegessem.

Não me entenda mal. Minha mão ainda estava sobre a maçaneta da porta do carro. Eu estava tenso como um cavalo de corrida esperando abrir-se o portão, preparado para disparar, mesmo sabendo que a carreira estava perdida. Mesmo assim, rezei com toda a força de meu amor, e medo, e terríveis fantasias, tudo combinado. E então ele atravessou novamente a rua.

Na terceira esquina, eu não estava conseguindo uma vaga para estacionar onde ele não me pudesse ver. Entrei em pânico. Nesta hora estava convencido de que minhas preces e minha concentração (lembrando-o para parar e olhar para os dois lados) eram as únicas coisas que o protegiam. O que poderia acontecer se eu não conseguisse estacionar o carro a tempo para assumir minha posição com minha mão agarrando a maçaneta (o que a esta altura já tinha se tornado uma superstição)? E se eu não conseguisse focar meus olhos que não piscavam em sua camiseta listrada e começasse a rezar antes que ele chegasse à esquina? Finalmente consegui um beco, e posicionei o carro para que apenas o capô e parte de minha janela aparecessem, permitindo-me mantê-lo à vista sem que ele me visse.

Quando ele se aproximou da esquina, tomei minha posição, mão no lugar, olhos sem piscar, a mente concentrada e os lábios murmurando preces pela misericórdia e proteção Divinas.

Foi então que vi os anjos.

Havia milhares deles. Todos pairavam sobre ele, adejando as asas e cobrindo-o da cabeça aos pés, alguns tocando-o. Percebi que meu filho não estava caminhando, mas sendo carregado por estes anjos. Pude vê-los claramente quando eles todos, incluindo meu filho, chegaram à esquina. Os anjos pararam, e então meu filho também parou. Os anjos moviam-se em uníssono, somo se compartilhassem uma só mente. Lembro-me de pensar como isso era estranho, uma vez que os anjos eram tão diferentes uns dos outros. Como era possível que aqueles anjos de Walt Disney soubessem o que os anjos mexicanos de gesso estavam pensando e fazendo? Mas com certeza, todos eles moviam-se ao mesmo tempo e fizeram meu filho ficar imóvel no meio-fio. E eles não o deixaram arredar pé. Assistir era fascinante. Enquanto a maioria dos anjos ali ficaram segurando meu filho, outros voavam, como escoteiros, para ter certeza de que nenhum carro se aproximava. Então, ao voarem de volta para fazerem seu relatório, uma nova revoada de anjos tomou seu posto para vigiar. Perguntei-me se a missão de alguns deles seria realmente impedir os carros de seguirem pela rua, para que meu filho pudesse atravessar. Os anjos voavam para cá e para lá, indo e vindo, da mesma forma que eu agora imagino anjos subindo e descendo a escada de Yaacov.. Sentava-me, petrificado.

Finalmente, quando tudo estava quieto, os anjos moveram meu filho para o outro lado da rua. Assistindo a isso, deixei minha mão soltar a maçaneta. Meus olhos começaram novamente a piscar. Minha mente relaxou e pareceu encher-se de luz. Respirei profundamente. Creio - embora não possa confiar em minha memória a esta altura - que sorri.

Sei que meu filho sorriu. Eu o vi (e posso vê-lo perfeitamente em minha memória mesmo agora) com um enorme sorriso no rosto, e vi como que ele saltando pela rua afora. Pela primeira vez, percebi como ele era completamente seguro de si mesmo. O quanto estava apreciando sua recém-conquistada liberdade. Como ele a abraçava sem a menor pontinha de ansiedade ou preocupação. Perguntei-me, então, se ele podia ver os anjos, e como qualquer pessoa podia ter filhos e não acreditar em D'us ou nos anjos, e ainda sobreviver ao crescimento dos seus rebentos sem ter um colapso nervoso.

Na verdade, nunca mais vi os anjos depois desta ocasião. Mas sei que estavam lá. Quando cada filho depois dele nasceu e crescia até atingir a idade de atravessar a rua, eu me lembrava dos anjos, mas não os via, realmente. Continuei a rezar, embora não mais tão desesperadamente. Continuei mesmo a dirigir até cada esquina da rua, mas agora mais por curiosidade que por genuína preocupação e temor. E quando cada um deles ficava mais velho, parei de pensar tanto sobre os anjos, exceto em ocasiões especialmente preocupantes.

Para meu filho que me apresentou aos anjos, não pensei mais neles, de forma alguma. Não até o outro dia.

Meu filho agora tem 25 anos e vive em Nova York. Visitei a cidade a negócios e passamos bastante tempo juntos. Ele mostrou-se seu apartamento. Rezamos juntos. Saímos para jantar, compramos algumas coisas. Ele me acompanhou enquanto eu cuidava de meus negócios. Falamos sobre ele, seus irmãos e irmãs e sobre sua mãe. Falamos sobre seu futuro. Estava claro que ele podia atravessar a rua sozinho, porém ele ainda caminhava perto de mim pela rua, e às vezes eu sentia que estava tomando conta de mim, em vez de o contrário. Ele tirava os fiapos de meu casaco ou perguntava se eu tinha me lembrado das passagens ao saírmos para pegar um táxi rumo ao aeroporto. Eu o amei tanto durante aqueles dias. Apreciava-o. Gostava do homem em que se transformara. Porém agora eu precisava deixá-lo e voltar para casa, a muitas quilômetros de distância.

Foi difícil achar um táxi, e ele carregou minha mala enquanto caminhávamos até um ponto de táxi. Abraçamo-nos e segurei as lágrimas quando ele disse-me adeus. Deixou-me beijá-lo. Pus minha bagagem no porta-malas, e quando entrei no táxi ele disse: "Não esqueça de pegar a mala quando chegar ao aeroporto, Pa." Olhei para o outro lado, para que ele não pudesse ver minhas lágrimas e a dor em meu coração, minha preocupação e esperança, meu temor e arrependimento, meus lábios movendo-se numa prece.

E um pouquinho antes do táxi virar a esquina olhei para trás. E então vi novamente os anjos carregando-o rua afora.