Yitschak Rabin era um agnóstico de carteirinha, e bastante tímido. Portanto, quando num dia de primavera em 1972 ficou esperando na fila da Eastern Parkway, 770 em Crown Heights pelo seu encontro com o Rebe, ele ficou agitado.

Estava visivelmente desconfortável entre a multidão de homens barbados ao seu redor, todos vestidos de maneira idêntica com ternos pretos e chapéus, e todos aparentemente indiferentes à tinta descascada, o linóleo rachado e o indefinível odor do edifício estilo Tudor quue abrigava a sede do Movimento Lubavitch.

Yitschak Rabin era então o embaixador de Israel em Washington, e seu presidente, Zalman Shazar, tinha lhe pedido para transmitir pessoalmente seus cumprimentos ao Rebe de Lubavitch – Rabi Menachem Mendel Schneerson – por ocasião do 70º aniversário do Rebe. Então ali estava Rabin sentado, uma kipá azul e dourada de veludo precariamente equilibrada na cabeça, como um visitante numa terra estranha.

Quando ele finalmente foi admitido, a face do Rebe reluziu. Era um rosto angelical, com uma barba cinzenta, na cabeça o característico chapéu preto, com o efeito de um bastião que protegia a mente de invasões iníquas.

Porém o que atraiu Rabin foram os olhos. Eram bem separados, com sobrancelhas grossas e pálpebras arqueadas. Eram de um azul do mar profundo, intensos e fortes, transpirando sabedoria, percepção e amizade.

Porém, como eu saberia mais tarde, quando a alma do Rebe se tornava turbulenta, eles podiam escurecer para um cinzento escuro, como o do céu plúmbeo.

Era os olhos de alguém que podia ver mistério no óbvio, poesia no mundano, e grandes questões nas pequenas coisas; olhos que atraíam, cativavam e transmitiam alegria e júbilo, além de sacrifício – e tudo isso era extravagante para o secular e equilibrado Yitschak Rabin.

Ele e o Rebe falaram principalmente dos assuntos de Washington; porém quando o sábio voltou-se para as coisas celestiais, como Torá, eternidade e destino espiritual, os olhos do embaixador se desviaram. Dogmas desse tipo eram inescrutáveis demais para este austero e velho soldado para quem a realidade era um fenômeno físico, não uma maravilha metafísica.

Apesar disso, ele estava impressionado. Ao sair, confidenciou-me: “Aquele homem sabe mais sobre o que está se passando em Israel e no Oriente Médio que a maioria dos membros do Knesset.”

O Presidente Shazar ficou contente ao saber do encontro. Quando jovem, Shazar tinha sido criado na doutrina Lubavitch; e agora, no crespúsculo de sua vida, ficou entusiasmado ao redescobrir seu encanto, como uma conta esquecida de um colar partido.

Em suas raras visitas a Nova York ele dispensava o protocolo diplomático, preferindo visitar o Rebe no Brooklyn como um discípulo, em vez de solicitar que o Rebe o visitasse no Waldorf como chefe de estado. Isso provocava a ira dos membros do governo israelense e da imprensa, fazendo um exasperado Shazar dizer numa véspera de Purim quando se encaminhava para o 770 numa limusine escoltada pela polícia de Nova York com as sirenes tocando: “O que eles querem de mim? Posso ser o presidente de Israel, mas sou também um simples chassid indo visitar seu Rebe. Quem pode objetar a isto?”

Algum tempo depois, num fragrante dia de julho em 1977, Menachem Begin foi similarmente confrontado. Um repórter hirsuto num terno largo perguntou-lhe com atrevimento: “O senhor é o Primeiro Ministro de Israel recentemente eleito, por que veio ver Rabi Schneerson? Certamente, o protocolo exige que ele vá visitá-lo.”

Essa altercação ocorreu nas escadas da sede de Lubavitch, onde o Rebe estava recepcionando o Sr. Begin em meio aos flashes dos fotógrafos. “Por que, na verdade?” perguntou o Primeiro Ministro, num tom agradável. “Uma boa questão.”

E então, com um ar de profunda reverência: “Vim aqui porque estou a caminho de Washington para encontrar o Presidente Jimmy Carter pela primeira vez. Portanto, é natural que eu venha pedir as bênçãos desse grande sábio do povo judeu. Rabi Schneerson é uma das personalidades judaicas mais importantes de nossa época. Seu status é único entre o nosso povo. Portanto, certamente sua bênção vai me fortalecer quando eu embarcar numa missão de grande importância para o nosso futuro.”

“O Rabino gostaria de comentar isto?” perguntou o repórter.

Ele disse: “Somente para reiterar minhas bênçãos. E para acrescentar, aceito a homenagem da visita do Primeiro Ministro não por mim mesmo, mas em reconhecimento à dedicada obra do Movimento Lubavitch em divulgar o amor de D’us e Sua Torá entre nossos irmãos judeus, onde quer que estejam.”

Os dois homens tinham sido amigos durante anos, e ficaram juntos durante uma boa hora, ao final da qual o Sr. Begin informou a Rabi Schneerson que eu voltaria Washington para New York a fim de informar-lhe sobre as conversas na Casa Branca.

Foi assim que cinco dias depois eu me vi sozinho com o Rebe na sua sala apainelada, a mobilia antiga com uma distinção adquirida pelo uso. Volumes do Talmud e outros pesados livros se alinhavam nas prateleiras, rescendendo a séculos de erudição e debates conduzidos por gerações de estudantes, habitando um mundo acadêmico no qual os alunos não estudam e os professores não ensinam. Todos aprendem.

Conversamos em hebraico – o do Rebe clássico, o meu moderno. E ele dissecou meu relato sobre Washington, seu ar de autoridade se aprofundando. Aquilo vinha de algo além do conhecimento. Era seu jeito de ser, algo que ele possuía na alma, algo dado a ele sob as castanheiras e os bordos do Brooklyn e não sob os álamos e pinheiros de Jerusalém – para onde, misteriosamente, ele nunca tinha viajado.

A apresentação, interrogatório e esclarecimento demoraram cerca de três horas. Já eram duas da manhã, e eu estava exausto. O Rebe, cheio de ânimo e vigor, pediu-me para comunicar s seguinte mensagem ao Sr. Begin: “Ao manter sua atitude firme sobre Erets Yisrael na casa Branca, você fortaleceu todo o povo judeu. Conseguiu salvaguardar a integridade de Erets Yisrael e evitar um confronto com os Estados Unidos. Isto é verdadeiro estadismo judaico: direto, forte, sem falsas pretensões ou desculpas. Seja forte e tenha coragem.”

Ele ditou isso numa voz suave mas impregnada de fogo.

E agora mais relaxado, ele fez uma tenda com seus dedos delgados, fitou-me e disse com um sorriso suave: “Como é possível que você venha nos visitar com tanta frequência e pareça estar tão próximo de nós, e apesar disso jamais se tornou um Lubavitcher? Por quê?”

Sentei-me novamente, abalado pela franqueza da pergunta. Era verdade. Este provavelmente era meu terceiro ou quarto encontro com o Rebe. No decorrer dos anos eu tinha me tornado uma espécie de elo não-oficial entre vários primeiros ministros de Israel e a corte Lubavitch.

Engolindo em seco, balbuciei: “Talvez seja porque conheci tantas pessoas que conferem ao Rebe poderes que o Rebe não confere a si próprio!”

Enquanto eu falava, percebi que tinha presumido demais. Podia ouvir minha voz se extinguindo.

As sobrancelhas do Rebe se uniram, e seus profundos olhos azuis se acinzentaram com tristeza. Suavemente, ele disse: “Yesh k’nireh anoshim hazekukim l’kobayim – Obviamente há pessoas que precisam de muletas.”

Seguiu-se uma pausa repleta de significado. Talvez suas linhas secretas de percepção e comunicação estivessem rastreando meus pensamentos, pois aquilo que ele disse a seguir respondeu minha pergunta não formulada.

Erguendo a mão num gesto de paz, com um sorriso encorajador, ele disse: “Deixe-me dizer a você o que tento fazer. Imagine que você está olhando para uma vela. O que você realmente vê é um mero pedaço de cera com um fio no meio. Então quando o pavio e a cera se transformam numa vela? Ou, em outras palavras, quando eles cumpprem o propósito para o qual foram criados? Quando você coloca uma chama no pavio, então a vela se torna uma vela.”

Enquanto ele falava, uma cadência rítmica crepitava em sua voz à maneira de um talmudista sobre um texto, então o que ele disse a seguir saiu como um cântico: “A cera era o corpo, e o pavio a alma. Acenda a alma com o fogo da Torá e uma pessoa irá então cumprir o propósito para o qual foi criada. E é isso que eu tento fazer – acender a alma de nosso povo com o fogo da Torá.”

Uma campainha tinha soado periodicamente, indicando que outros estavam aguardando por uma audiência. Levantei-me então e preparei-me para sair, parando na porta para perguntar: “Minha vela – o Rebe a acendeu?”

“Não,” disse ele tocando minha mão. “Dei-lhe o fósforo; somente você pode acender sua vela."