Por Daisy T. Maltz
Eles estavam falando muito baixo. O som era quase inaudível. Mesmo assim, pude escutar. As vozes se misturavam e tive que fazer um esforço incomum para distingui-las. Mas consegui! Era fundamental eu entender, uma oportunidade única que talvez jamais tornasse a acontecer: um diálogo no Paraíso.
— Não posso deixá-los sofrendo lá em baixo, não é justo! Após estes anos e logo agora que poderia orientá-los melhor. O tempo voou e mal aproveitei para dizer o que pretendia e o que é realmente importante fazer durante nossos anos de vida...

— Agora já é tarde, basta de arrependimentos! Não se culpe e nem se atormente tanto. Seu momento havia chegado e sua missão acabado. Estava fora de seu alcance entender a razão. Você vai se distrair e crescer muito aqui. Aos poucos irá se desprender da vida terrestre e deixará que esta luz ilumine seu novo caminho por completo. Mas antes, precisará de alguns "acertos".

— Que tipo de acertos?

— Você ainda Não sabe? Sua alma precisa de ar puro, de uma "aspirada" total para purificá-la.

— Mas como, se já não posso fazer mais teshuvá?

— Através de seus próprios méritos e do mérito de seus filhos e...

Perdi a conexão! Para onde estariam indo, alma e anjo?

Continuei à espreita...

— Senhor! Não pode abandoná-los. Eles já sofreram tanto e por tão longos anos... Já não basta?

— Criador do Universo, Pai Misericordioso, os botões já foram polidos, posso avistar o anão nos ombros de um gigante, o bem e o mal lutam na linha divisória e tenho medo...

— Não temam! Jamais abandonei meus filhos, tampouco o faria agora, nesta hora tão delicada em que correm perigo eminente de vida. Aprontem-se! Vou mostrar ao mundo o que jamais assistiram antes e, aos incrédulos, todo o poder de Minha indubitável existência! Não terão dúvidas sobre onde se encontra o Eterno D’us de Israel e de toda a humanidade. Que Eu traga Mashiach agora!

(cochichos...)

— Mas senhor...será... será que eles merecem?

— Moshê, o que tem a dizer?

— Chegou a hora, sem dúvida! Anos no deserto, já computamos tantas perdas e sacrifícios ilimitados ao longo da história. Olhe só seus filhos. Estão lamentando a perda do Templo Sagrado em todos os cantos do mundo. E já se passaram milhares de anos... Choram como se estivessem em meio à cinzas. Observem o recipiente das mitsvot, está transbordando...

— D’us. Estou pronto. Me revele agora! Como aguardei este momento...

— Então vá! Mashiach, tem Minha bênção. Redima todo o povo e conduza-os à Terra Santa. Construa uma moradia para que Eu possa habitar entre eles. Bem, você já sabe todos os detalhes de como deverá proceder. Então vá, não demore mais!

(Muito barulho e palmas e risos, uma festa se formou entre nuvens, luz, almas, anjos, cenários celestiais...: o céu todo estava em festa!)

Eu já não sabia se me encontrava entre o céu ou o inferno. Havia muita confusão e uma penumbra...eu não estava nem no inferno, nem no paraíso; eu me encontrava na terra!

Todos corriam, pedras eram jogadas, gritos e mortes. Podia ver-se poças de sangue e criancinhas perdidas correndo procurando desesperadas por seus pais. A cena era terrível.

Mas de repente, raios vieram dos céus, trovões abafaram os gritos, o som de shofarot ecoaram por todos os lados inundando o planeta, enquanto uma luz forte descia do céu em direção à terra...

"Mashiach chegou!"

Virei-me de um lado para o outro, a cabeça tinindo. Continuei escutando vozes. Estava na cama. As vozes vinham do andar de baixo. Meus vizinhos estavam discutindo algum assunto com tamanha empolgação que podia ouvi-los.

Foi um sonho?

Parecia tão real...Quantos sonhos mais teremos que sonhar?

Tentei dormir de novo para tentar continuar a história, saber o que viria a seguir. Será que seria capaz de sonhar em capítulos? Mas a discussão lá em baixo continuava. Desisti de meu sono. E desta vez pude nitidamente escutar:

— Você não acredita, não escuta o barulho? Então abra já a janela e olhe com seus próprios olhos!

Corri como se a ordem tivesse sido dada a mim. Levantei-me. Afastei a cortina. Abri a janela. Olhei incrédula!!! Não foi um sonho. Mashiach chegou!