Por Anne Simon
A luz começou quase discretamente, pairando no limiar de minha consciência. Uma centelha tremulante que reluzia no calor de uma única vela — então uma noite de velas, brilhando mais e mais até que se mesclaram a um sol abrasador que explodiu perante meus olhos. Com a mesma rapidez, a luz sumiu, substituída por uma pálida visão em branco sussurrando alguma coisa… Sim, meu nome. Repetindo uma e outra vez.

"Sr. Stein? Sr. Stein? Pode ouvir-me, Sr. Stein?"

Creio que assenti — não tenho certeza — Mas meu próximo momento de claridade revelou uma cena diferente, repleta de máquinas, estranhas máquinas com múltiplos apêndices com fios conectados entre si, e conectados a mim. Outras máquinas estavam falando enquanto andavam… Falando? Andando?

"Um sonho" — pensei — "com certeza é um sonho." Devo ter falado isso em voz alta, porque a visão em branco, agora claramente uma mulher jovem, sussurrou suavemente: "Não."

Eu estava vivo, acordado, deitado numa cama de hospital.

O ano, disse ela, era 2102. Seu nome era Chana Levy, e era uma "Especialista Nanotech em Ressuscitação." Eu me lembrava de ter estado nos Alpes Suíços, perguntou ela? A avalanche?

Quando não respondi, seus olhos mostraram preocupação. Eu me lembrava quem era? Conforme sua voz suave e calma continuava, a incrível história de quem como e por que começou a tomar forma. Lembrei-me de ontem, um ameno dia de primavera. Seria a aventura de minha vida, saltar de um helicóptero até a pura neve branca. Lembrei-me do vento impetuoso quando iniciei minha descida, meus esquis mal tocando a superfície. E então o som do Inferno engolindo-me por inteiro. Havia a escuridão interminável e o frio penetrante e, finalmente, um último pensamento consciente. "Por que D-us derrubou uma montanha em cima de mim?"

A voz calmante de Chana trouxe de volta meus pensamentos. "Você estava congelado" — disse ela. "Perdido por mais de 100 anos."

Naquela época, avanços milagrosos na física tinham ocorrido. O mistério do funcionamento dos átomos tinha sido resolvido. A mecânica quântica e a relatividade agora mesclavam-se numa definição unificada do universo. Minúsculos chips de montagem que modificavam átomos com pinças a laser construíam toda e qualquer coisa, incluindo a intricada beleza de um cérebro humano. Minhas células tinham sido tão bem preservadas, com os neurônios ainda conectados, que a reconstrução de meu cérebro tinha sido possível. O DNA intacto permitira a clonagem de um novo corpo.

"Um milagre" — sussurrei assombrado.

Ela sorriu enquanto seus olhos enchiam-se de lágrimas. "Um milagre" — repetiu ela, e então ligou uma chave que fez a parede opaca à minha esquerda preencher-se com uma imagem que parou o universo em seus trilhos.

"Conheço aquele lugar" — arquejei com reverência.

Pois eu estava contemplando a antiga cidade de Jerusalém, um frágil pedaço da História aninhado reverentemente no coração de uma metrópole futurista. Lá, às margens da velha cidade que eu conhecia tão bem, onde eu rezara e onde meu pai tinha rezado, bem como seu pai e seu avô antes dele, a visão pela qual eu tinha rezado estava inteirinha no lugar: o Templo — renascido, disse ela, do próprio pó, os mesmos átomos originais.

Olhei para Chana, e sua face encheu-se de júbilo quando disse que eu era o milagre pelo qual ela tinha rezado dentro daquelas paredes sagradas. Uma chance de que um dia ela poderia agradecer àqueles cuja fé e preces tanto tempo atrás tinham ajudado a transformar o sonho em realidade.

E ao olhar seu rosto reluzente, eu sabia a resposta para a pergunta que minha alma tinha gritado ontem, há tanto anos.