Por Bella Schapiro
À medida que o sangue escoa de meu corpo, fico pensando sobre o quanto sou inconsciente dos rios vitais que fluem dentro de mim. Estas correntes intricadas trazem-me tudo que preciso para viver, mesmo assim fazem seu trabalho de maneira tão eficiente que sua presença mal se faz notar. Apenas ocasionalmente, durante momentos de extremo terror ou empolgação, sinto o bater de meu coração e penso nas ramificações daquela batida – sangue para o cérebro, sangue para minhas pernas, e sangue para cada célula do meu corpo, para que esteja pronto a reagir a tudo que se apresente em seu caminho. Mas esta conscientização é rara; minha vida diária me permite ser alegremente ignorante daquilo que é mais vital.

Porém, enquanto observo meu sangue passando por aquele tubo estreito, ao redor de minha cadeira e enchendo aquela pequena bolsa, estou consciente até demais. Penso sobre todo o peso que recai sobre o sangue no simbolismo das eras. Violência, morte, amor. E vida. Como pode uma determinada coisa incorporar idéias tão contraditórias? Como pode ser tanto a essência da vida e a epítome da morte? Mas é claro, se o sangue realmente fornece uma, deve incorporar também a outra. Tirar sangue de outra pessoa é o maior ato de violência; doar sangue, o maior ato de amor. Quando o sangue fica imóvel nas veias, ou flui para fora do corpo, isso é morte. Quando permanece dentro, e flui através do corpo, isso é vida.

E então há aqueles momentos na vida que transcendem estas definições, nas quais violência e amor parecem vir juntos, onde a linha entre vida e morte parece borrada. Um cirurgião segurando uma faca, provocando destruição em tecido sadio, perpetrando violência com o maior dos amores. Uma mulher trazendo à luz, com dor e derramamento de sangue, uma vida completamente nova. Um menino com oito dias de vida, perdendo uma gota de sangue e ganhando uma identidade, tornando-se mais que apenas um menino. Parece-me que nestes momentos, transcendemos os próprios parâmetros desses símbolos contraditórios; podemos ter um vislumbre de que aquilo significa mais que simplesmente vida, e verdadeiramente nunca morrer.

Estou quase terminando. A bolsa está enchendo, repleta do líquido vermelho profundo que rodopia dentro dela. Quando comecei, meu corpo tinha oito quartilhos de sangue para nutri-lo; agora tem sete. Mas eu sei que mesmo agora, as células que permanecem estão trabalhando febrilmente para recuperar-se. Quando me levantar, sentirei tontura por alguns instantes, e então o sangue fluirá para meu cérebro e sairei da sala ereta e orgulhosa. E amanhã, meu corpo estará saltitante outra vez, o sangue novo percorrendo suas veias, e me sentirei mais saudável que nunca, mais viva que uma hora atrás.

E não sei por que, mas este pensamento me traz um nó à garganta, e à medida que as últimas gotas de meu sangue enchem a bolsa, e a atendente vem e corta o cordão que me conecta à ela, eu ofereço uma breve oração, para que eu seja sempre suficientemente sadia para dar uma bolsa de meu sangue para um estranho anônimo.