Traduzido das memórias de Rabi Segal (1904-1985), um Chanadnik ativo na luta para libertar Israel do domínio britânico
A área em frente ao Muro Ocidental antigamente não era como hoje, com uma praça ampla e grande. Somente uma estreita ruela separava o Cotel das casas dos árabes a poucos metros de distância. O governo britânico nos proibira de ali colocar uma Arca com a Torá, mesas ou bancos na viela, para que não se transformasse numa sinagoga. Nem sequer um banquinho para usar como assento podia ser trazido ao Cotel.

Os britânicos tinham instituído numerosas regras para restringir as atividades judaicas em nosso local mais sagrado. Estávamos proibidos de rezar em voz alta, ou ler na Torá (nós ouvíamos a leitura da Torá nas sinagogas do bairro judeu). E o mais importante, éramos proibidos de tocar o shofar em Rosh Hashaná e Yom Kipur. Policiais britânicos estacionados no Cotel aplicavam severamente estas regras. Nos Grandes Dias Festivos, o próprio Comandante da Polícia se posicionava ali para certificar-se de que não tocaríamos o único toque que põe fim ao jejum.

Em Yom Kipur de 1930, eu estava rezando no Cotel. Durante o intervalo da tarde entre as preces, entreouvi pessoas cochichando e perguntando umas às outras: "Onde iremos para ouvir o shofar? É impossível tocar aqui. Olhe, eles têm mais policiais aqui que pessoas rezando…"

Escutando aqueles sussurros, pensei comigo mesmo: "Como podemos perder este importante toque do shofar, que proclama a soberania de D'us e ecoa a Redenção de Israel?"

Aproximei-me de Rabi Yitschac Horenstein, que atuava como o Rabino de nossa "congregação" improvisada, e disse-lhe: "Por favor, dê-me um shofar."

"Para quê?"

"Para tocá-lo."

"Shh! Shh! O que está falando? Não vê a polícia em toda a parte?"

"Vou tocá-lo assim mesmo."

O Rabi virou-se rapidamente para o outro lado, mas primeiro lançou um olhar à estante de prece no fim da viela. Eu entendi: o shofar estava na estante.

À medida que Yom Kipur chegava ao seu final, fui até a estante e inclinei-me sobre ela. Abri a gaveta e escorreguei o shofar por dentro de minha camisa. Agora eu estava com o shofar, mas e se eles me apanhassem antes que eu tivesse uma chance de tocá-lo? Sendo ainda solteiro e seguindo o costume Ashkenazita, eu não tinha talit. Portanto, voltei-me para a pessoa ao meu lado e pedi-lhe que me emprestasse o talit para disfarçar. Meu pedido deve ter parecido estranho para ele, mas os judeus são bons, especialmente nos momentos mais sagrados do mais sagrado dos dias, e ele passou-me seu talit sem proferir uma palavra.

Envolto no talit, senti que havia criado meu próprio domínio particular. Ao meu redor, a polícia e um governo estrangeiro oprimiam e restringiam o povo de Israel até no nosso dia mais santo, em nosso local mais sagrado. Mas aqui, debaixo deste talit, há um domínio completamente diverso. Aqui estou sob o jugo de meu Pai Celestial. Aqui eu farei como Ele me ordena, e nenhuma força na terra poderá me impedir.

Esperei nervosamente enquanto os versos finais da prece de encerramento, Ne'ilah – "Ouve, ó Israel", "Bendito seja o Nome" e "O Senhor é D'us" – eram proclamados. Reuni toda minha força e coragem. Tirei rapidamente o shofar e produzi um toque longo, resoluto e retumbante.

Todos à minha volta ficaram chocados. Quem ousava desafiar os britânicos? Tudo acontecera muito rapidamente. Diversas mãos agarraram-me. Removi o talit de minha cabeça, e ali, à minha frente, estava o Comandante da Polícia em pessoa.

Fui preso imediatamente e levado à kishla, a prisão na Cidade Velha, e deixado sob guarda árabe.

Passaram-se as horas; não recebi qualquer água ou comida para quebrar meu jejum. Finalmente, à meia-noite, a polícia recebeu ordem de libertar-me, e deixaram-me ir sem uma palavra.

Eu soube depois que o Rabino Chefe A. Y. Kook ouvira falar de minha prisão, e contactara imediatamente o Alto Comissário, pedindo-lhe pela minha liberdade. Quando seu pedido foi negado, ele declarou que não quebraria seu jejum até que eu fosse libertado. O Alto Comissário resistiu por muitas horas, mas finalmente, por respeito ao Rabino Chefe, não teve outra opção a não ser libertar-me.

Durante os próximos dezoito anos, até a conquista da Cidade Velha em 1948, o shofar foi tocado no Cotel em todo Yom Kipur, apesar dos inevitáveis encarceramentos. Os britânicos entenderam a importância deste toque do shofar. Eles sabiam que ele terminaria por expulsar seu reino de nossa terra, assim como as muralhas de Jerichó ruíram perante o shofar de Yehoshua.

Os opressores britânicos usaram suas forças policiais para silenciar nosso shofar. Porém, nossa tradição continuou. Todo Yom Kipur, o shofar era tocado por homens corajosos que estavam prontos a irem para a prisão pela alegação de posse de nosso local mais sagrado.