Por Yisrael Rice
Há muito quiproquó atualmente sobre adoção intercultural (eu me pergunto o porquê). E deveria haver. Estudos demonstram que arrancar uma criança de seu ambiente e cultura nativos é muito traumatizante. Desde pequenos, nos acostumamos ao idioma, sabores, cheiros, sons e imagens. Todos estes sentidos ajudam a criar nosso ambiente, nosso lar. Por mais empobrecido que possa ter sido, ansiamos e sentimos falta do lar.



Isso significa que jamais devemos fazer este tipo de adoções? Às vezes, a própria vida da criança pode depender disso. Mas mesmo quando uma adoção intercultural é justificada ou exigida, deve-se tomar cuidado com a transição da criança. Os pais adotivos são aconselhados a se informarem sobre o idioma nativo, cultura, comida e música. Devem criar um ambiente que tenha alguns elementos do país da criança.



Talvez uma maneira melhor de pensar sobre isso é que você não está adotando a criança, mas sim que ela está adotando você!



Isso traz à mente um outro tipo de adoção. Envolve uma criança de um local mais distante, uma viagem mais desafiadora e uma diferença cultural mais extrema que qualquer coisa que se possa ver nos jornais.



Estou falando de você. 



Quer dizer que os seus pais não lhe contaram que você foi adotado?



Você tem uma alma, uma neshamá. Esta alma - a sua – vem de um local muito elevado, onde é só unida a D'us. É completamente consciente de si mesma, e consciente da unicidade de D'us, da qual é parte inseparável. Não tem dúvidas, preocupações, conflitos, nem contas a pagar… Isso se parece com alguma coisa aqui na Terra? Não. (Pelo menos, ainda não).



A partir deste profundo e elevado local de origem, a alma é adotada pela sua família e seu corpo. Ela desce do mundo espiritual até que, no nascimento, torna-se firmemente enraizada em seu corpo no planeta Terra. Os papéis de adoção foram aprovados! Mazal Tov!



Imagine o choque cultural! Imagine as diferenças em linguagem e a percepção dos sons e visões, à medida que a alma é transportada a esta nova dimensão, até seu corpo que ainda não sabe de nada.



Porém recebemos maneiras de passar pela transição, de suavizar a descida e aclimatar a alma ao nosso corpo e a nossa existência material:



Linguagem – Aumente seu conhecimento de Torá, a linguagem Divina que sua alma compreende.



Comida e aromas – Embora no estado espiritual, a alma não come ou cheira, e não precisa de comida para permanecer em contato com o corpo, há alimentos cujo aroma e sabor a ajudam a lembrar-se de casa. O vinho do kidush, a chalá, nossas comidas do Shabat, matsá em Pêssach, o aroma do etrog ou do ramo de mirta em Sucot, todos trazem lembranças. Certamente, a alma apenas consegue tolerar comidas casher – que combinam com as leis do seu ambiente espiritual, a Torá.



Sons – Os sons da prece e estudo de Torá são bem familiares a ela. O shofar em Rosh Hashaná realmente a mantém ligada. Canções judaicas que louvam o amor de sua vida e falam das mitsvot que cumprimos a lembram dos coros de anjos e almas lá no Alto.



Estas adaptações parecem difíceis às vezes, mas devemos nos lembrar daquilo que nossa alma está passando, o lar que ela teve de sacrificar para se tornar parte de nossa vida. E quando fizermos o esforço, algo interessante acontece. Como mais de um pai adotivo já atestou, você pode pensar que vai realmente mudar a vida de uma criança, mas logo descobre que você é que foi transformado…