Por Yanki Tauber
Era uma vez uma aldeia repleta de pessoas descontentes. Durante o dia todo elas caminhavam com o rosto triste, cada qual remoendo seus problemas, sempre invejosas do sucesso dos vizinhos.



Certo dia, chegou um idoso sábio à vila. Reuniu todos os moradores na praça principal e lhes disse: "Gostaria que cada um de vocês vá para casa e traga sua posse mais preciosa, aquilo que mais preza na vida, e coloque aqui no meio da praça." Logo havia uma grande pilha de trouxas e pacotes de todos os tipos e tamanhos no centro da praça da aldeia.



"Agora", instruiu o sábio, "vocês podem escolher para si mesmos qualquer um desses presentes. A escolha é sua - peguem o pacote que desejarem."



Todo homem, mulher e criança da aldeia fez exatamente o mesmo. Cada qual escolheu seu próprio pacote.



A Torá, como todos sabemos, começa pelo início, descrevendo a criação dos céus e da terra, os continentes e oceanos, vegetação e vida animal. Então, no 26º versículo, passamos à criação do homem. "E D'us disse", lemos, "Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança…"



Façamos? Até este ponto – e daqui até o restante da Torá – D'us é mencionado como a suprema singularidade. Ele é o Chefe, a fonte exclusiva e fazedor de tudo. Mas neste único exemplo, há um "nós", um coro de opiniões, uma chefia celestial perante a qual o Criador apresenta uma proposta e pede aprovação.



A quem D'us consultou quando desejou criar o ser humano? Nossos Sábios oferecem várias explicações. Uma delas é que D'us perguntou aos anjos, como se para rebater suas críticas posteriores sobre as falhas do homem mortal. Outra explicação é que D'us estava envolvendo todos os elementos do universo, ou todos os aspectos de Seu ser infinitamente potencializado, na formação da alma multi-facetada do homem. Todas essas explicações, obviamente, levantam pelo menos tantas questões quanto respostas. De fato, é a respeito desse versículo específico que os Sábios declararam: "A Torá diz dessa maneira; todo aquele que deseja interpretar erradamente, que o faça…" Obviamente, aqui há uma importante mensagem para nós – tão importante que a Torá insiste nessa fraseologia específica apesar do fato de que dá lugar a má interpretação.



Porém há uma interpretação desse versículo que nos apresenta um enigma de um paradoxo. O Midrash oferece a seguinte explicação: "A quem Ele consultou? As almas dos justos." D'us está perguntando a um conselho de almas humanas se Ele deveria criar a alma humana!



A trama fica mais forte. Quem são estes "justos" (tsadikim) a quem D'us consultou? Segundo o Profeta Yeshayáhu, "Nosso povo é todo de tsadikim." Cada um de nós possui a alma de um tsadic (independentemente de até que ponto permitimos a sua expressão). Em outras palavras, D'us perguntou a cada um de nós se desejávamos ser criados, se escolhemos aceitar o desafio da vida terrena. Somente então Ele nos criou.



Se perguntar a uma alma se deseja ser criada parece uma pegadinha, este paradoxo de fato resolve um paradoxo muito mais profundo – o paradoxo do Divino decreto e do arbítrio humano.



D'us está para sempre nos dizendo o que fazer. De fato, a própria palavra Torá significa "instrução", e isso é basicamente aquilo que a Torá é: uma série de instruções vindas do Alto. E apesar disso sabemos que "um princípio fundamental da Torá" é que "o livre arbítrio foi concedido ao homem". Quais são exatamente as nossas opções, se D'us está constantemente nos instruindo?



A questão vai mais além. Vamos presumir que, em qualquer situação, sob quaisquer circunstâncias, a opção é nossa sobre como agir. Mas que tipo de escolha é essa, se ninguém nos perguntou se queríamos estar naquela situação e sob aquelas circunstâncias, para começar? Que tipo de "escolha" existe, se não escolhemos se devemos ou não receber aquela opção?



Então a Torá nos revela este segredo impressionante: aquela suprema escolha foi feita por nós, antes mesmo de existirmos. Antes que D'us emanasse sua alma e a soprasse dentro do seu corpo, você foi perguntado se deveria ser. Então, em qualquer situação em que você se encontre, em todo desafio que enfrenta em sua vida – você está lá porque você escolheu ser colocado naquela vida.



Passamos pela vida reclamando: "Eu não pedi para nascer…!" Porém mil vezes por dia refutamos essa alegação. Com incontáveis escolhas e ações, afirmamos que a vida que temos é a vida que desejamos. Afinal, nós a escolhemos.