Por Jay Litvin
"Mas Papai, você disse…"
"Sim, eu sei, mas eu não sabia que a casa iria pegar fogo ontem!!!"
"Não importa! Você disse que consertaria minha bicicleta hoje!!!!"
"Mas Susie, sua bicicleta derreteu com o fogo!!!!"
"Mas você diiiiiiiiiiisse…"
Susie está sendo irracional? Talvez. Mas o cenário para o desapontamento de Susie e o inevitável conflito que se seguiu foi armado muito antes do fogo.
A expectativa para o desapontamento é cultivada, não inata. E uma vez que esteja impregnada na personalidade da criança, é como gasolina mal armazenada numa garagem atulhada – não é preciso muito para incendiá-la. E assim como o fogo pode ser prevenido com alguns cuidados simples e práticos, assim também as cenas voláteis de frustração e culpa.
Como? Seguindo uma regra básica: Cumpra sua palavra.
Isso pode parecer um conselho óbvio porém impossível de seguir, dado o desenrolar do rumo da realidade entre a promessa e o cumprimento. Mas com sete filhos, eu já fiz milhares de promessas, e a vida conspirou muitas vezes contra o meu desejo de cumprir minha palavra. Mesmo assim, descobri que é possível se apegar à regra de "cumpra sua palavra" na maior parte do tempo. Aqui estão algumas das maneiras que eu descobri.

1 – Olhe para o futuro
Embora o desapontamento irá inevitavelmente ocorrer, é possível para as crianças aceitá-lo sem culpa ou raiva, mantendo uma visão otimista, visando ao sucesso, que os ajudará muito a atingirem suas metas na vida, tanto no futuro próximo como no distante. Mas primeiro nossos filhos devem aprender a confiar em nós como pais, e virem a acreditar que manter nossa palavra é uma preocupação vital para nós.
Ao fazer isso, podemos criar nos nossos filhos uma expectativa que aquilo que prometemos, iremos cumprir.
As experiências individuais para uma criança são como o contínuo pingar de água sobre uma pedra. Com o tempo, as gotas individuais criam um sulco, que a água terminará por encher. É possível mudar o curso da água, mas somente com esforço. Ocorre o mesmo com os padrões ou "sulcos" do comportamento. É possível mudá-los, mas muito mais fácil criar os sulcos desejadas. Na vida das crianças, estas gotas consistem de momentos pequenos, individuais, momentos que para nós podem parecer inconseqüentes, mas, no decorrer do tempo, se tornam as expectativas de uma criança.
Falhas de caráter são fáceis para uma criança cair dentro, e difíceis para elas subirem de volta. Se padronizarmos nossos filhos para a realização, será preciso que elas se esforcem para mudar o curso rumo ao desapontamento. Se padronizarmos nossos filhos para o desapontamento, culpa e ira surgirão rapidamente à menor provocação, como um trem à toda velocidade descendo montanha abaixo nos trilhos sem ninguém nos controles.
Em vez de criar um "sulco" de caráter de esperar o desapontamento, queremos criar um que espere a realização. A cada vez que cumprimos nossa palavra, a cada vez que fazemos aquilo que prometemos, estamos construindo para o futuro.

2 – Comprometa-se – consigo mesmo
Primeiro, precisamos assumir um compromisso – com nós mesmos, mais ainda que com nossos filhos – de manter nossa palavra. Esta é tanto uma decisão moralmente correta quanto prática. Cumprir a palavra com nossos filhos é simplesmente a melhor política.
Nenhum filho quer ficar furioso com seus pais. Amor e confiança são tendências naturais da criança. Eles querem acreditar em nós. Eles precisam confiar em nós para se sentirem a salvo e seguros. Tudo trabalha a nosso favor. A desconfiança e uma expectativa para o desapontamento é cultivada, não inata. Nós as criamos com nossos "pequenos" atos de comportamento não confiável.
Queremos que nossos filhos nos conheçam como pessoas que querem fazer aquilo que prometeram. Queremos que eles pensem em nós como pessoas que valorizam a confiança.
Quando você não pode cumprir sua promessa de levar seu filho ao zoológico, seu desapontamento por não conseguir manter sua palavra deveria ser tão grande quanto o desapontamento do seu filho por não poder ir ao zoo.

3 – Cumpra sua palavra
Uma vez que você tenha este compromisso de honrar sua palavra, cumpra-o toda vez que puder, especialmente quando for fácil. Haverá muitas vezes em que você não poderá, ou em que isso será difícil.
Se você disser que vai ler uma história, faça isso. Se disser que vai sair para um passeio, faça-o. Se disser que vai consertar a bicicleta (e a casa não pegou fogo), faça isso.
Às vezes você não quer fazer aquilo. Às 3 da tarde de um domingo você faz uma promessa de brincar de esconde-esconde às 5 horas. Então, às 4 você se lembra do jogo de futebol que desde o começo da semana tinha planejado assistir. Você promete ler uma história, e depois do jantar está tãããããão cansado que seus olhos não conseguem achar as letras na página do livro. Você promete deixar Becky ajudar a fazer a sobremesa, mas quando chega a hora faltam apenas 45 minutos para os convidados chegarem.
Estas são as horas de lembrarmos nosso compromisso e visualizarmos aquelas falhas de caráter. De forçar o futuro inteiro dos nossos filhos a surgir na nossa mente. Imaginar que todo o seu futuro depende do equilíbrio da nossa opção. De dizer para nós mesmos: "O fato de eu cumprir ou não minha palavra neste momento é outra gota de água cavando a falha no futuro crescimento e desenvolvimento do meu filho."
Isso pode parecer um exagero. Mas o exagero ajuda quando estamos tentando estabelecer um novo comportamento para nós mesmos, especialmente quando estes comportamentos lutam contra os nossos próprios desejos.
É fácil dizer não a um filho – é fácil reduzir a importância da nossa promessa em face das "responsabilidades adultas", mais importantes. A auto-justificativa torna fácil convencer-nos que precisamos desta sesta – que merecemos este jogo de futebol; que nossos convidados são mais importantes que a promessa feita a nossa filha.
Cumprir a palavra dada ao nosso filho neste momento tem de ser mais importante que todas aquelas coisas.
Sim, haverá algumas vezes nas quais as responsabilidades adultas vão interferir com nossas promessas. É por isso que devemos cumprir nossa palavra sempre que pudermos. E, como você pode ver, a cada vez que o fizermos, estaremos fazendo um depósito em nossa "conta de poupança". Esta será a conta da qual sacaremos nas vezes em que infelizmente, com relutância, não pudermos cumprir nossa palavra.

4 – Chame a atenção para si mesmo
Outra maneira de enfatizar a importância de sermos dignos de confiança é atrair atenção sobre nós mesmos como pessoas que cumprem sua palavra e que desejam cumprir sua palavra. Faça disso algo importante. Toda vez que você disser que vai fazer alguma coisa e a fizer, chame a atenção sobre isso.
"Papai, ontem você leu uma história para David, e disse que hoje leria uma para mim!" "É claro vou ler, querida, se Papai disse que iria, então ele vai."
"Mamãe, ontem você levou Esther à loja com você, e disse que hoje me levaria." "Então vamos lá! Se eu disse que levaria, vou levar!"
Mães e pais podem se apoiar mutuamente nesta gabolice de "cumpra sua palavra".
"Mamãe, Papai disse que chegaria em casa às 2 horas para me levar ao parque, e ainda não chegou!"
"Se Papai disse que levaria você ao parque, ele vai levar. Papai tenta sempre fazer aquilo que promete, pois é importante para ele cumprir sua palavra com você."
Nossos filhos aprenderão a confiar em nós. Começaremos a ver menos conflitos, menos comportamento manipulador. Com consistência, veremos também uma maior tolerância para com a gratificação adiada, menos frustração quando nossos filhos não conseguem aquilo que querem de imediato.
"Mamãe, pode me dar um copo de leite?" "Estou no telefone, querida, mas assim que desligar vou pegá-lo." Se a mãe de Sarah construiu um vínculo de confiança, Sara acredita na mãe. Não esperará por uma hora, mas provavelmente tolerará uns quinze ou vinte minutos.
"Mamãe, Mamãe, posso dormir na casa do Phil esta noite?"
"Estou falando com Papai agora, Steven; converso com você em de minutos." E se Steven consegue uma resposta quando a mãe lhe disse que daria, ele terminará até que seus pais terminem de conversar.
"Papai, pode me ajudar com meu dever de casa?"
"Eu adoraria, mas agora não posso porque tenho meu próprio trabalho para fazer. Se você esperar meia hora, vou ajudá-lo."
Estes momentos são aquilo que a psicoterapeuta Linda Popov chama de "momentos ensináveis". E obviamente, há muitos valores que podem ser ensinados: paciência, respeito, sensibilidade às necessidades dos outros.
Mas para o nosso propósito, estamos usando estes momentos para ensinar aos nossos filhos que somos dignos de confiança, que somos pessoas que cumprimos nossa palavra, que cumprir a palavra é importante.
Sem confiança, acordos e promessas nada significam. Se não cumprimos nossa palavra, nossos filhos jamais saberão o que esperar de nós. Eles ficarão tristes, desapontados e ansiosos, porque não sabem quando podem acreditar em nós ou não. Numa criança, tristeza e desapontamento rapidamente se transformam em ira e frustração, com freqüência expressa em crianças pequenas como ataques de mau gênio.
Quando cumprimos nossa palavra, nossos filhos relaxam. Eles sabem que estamos dizendo a verdade e que faremos o melhor possível. Eles têm fé em nós. E a fé lhes permite relaxar, ter paciência e autocontrole.
Quando isso acontece, nossos filhos param de tentar nos controlar e manipular com sua raiva e ataques. Eles acreditam que cumpriremos a palavra empenhada, não somente para dar-lhes aquilo que querem, mas porque manter nossa palavra é importante para nós.
Ah, mas e se Papai não puder fazer aquilo que prometeu? E se Papai ficou preso no trânsito? Ou se estiver numa reunião de negócios, importante e inadiável?

5 – Se você não puder fazer quando disse, faça depois
No caso de alguma coisa o impedir de honrar sua palavra, procure a primeira oportunidade para cumprir a promessa frustrada. E por favor, não estrague as coisas uma segunda vez.
Como ocorre com todas as promessas que você faz, certifique-se de que esta promessa renovada pode ser cumprida. Pergunte a si mesmo: Terei realmente tempo na próxima quinta-feira?
Conseguirei encontrar uma babá? Se eu levar Chaim para comprar roupas na quarta-feira, o que farei com as outras crianças?
É importante prever os obstáculos e não assumir compromissos com nossos filhos quando dificuldades em potencial ameaçam nossa capacidade de cumpri-los. Eu estarei muito cansado?
Conseguirei os ingressos? Conseguirei realmente sair cedo do trabalho? Minha mulher vai precisar do carro?
Levará algum tempo para que nossos filhos desenvolvam a fé em nós que estamos tentando estabelecer. Nos primeiros estágios da construção da confiança, podem ainda ocorrer alguma frustração quando nossos planos são atrapalhados pelas pequenas surpresas da vida, e não conseguirmos fazer aquilo que nosso filho espera. Portanto, é preciso paciência, mesclada ao nosso compromisso de construirmos para o futuro.
Quando você desaponta seu filho, aceite seu desapontamento, e até o compartilhe. Talvez você se veja tentado a dizer: "Também estou aborrecido; eu queria tanto quanto você ir ao jogo de futebol!" Mas você não desenvolve confiança com esta resposta; por mais genuína que possa ser, seu filho associará seu desapontamento com seu desejo de se divertir. Seu próprio prazer. E cumprir a palavra nada tem a ver com gostar daquilo que fazemos. Ser digno de confiança significa que cumprimos nossa palavra mesmo que não apreciemos isto. Seu filho pode ficar triste porque não foi ao jogo; mas ele deveria receber a mensagem de que você está desapontado por não conseguir cumprir sua palavra.
Com tempo e perseverança, veremos que o desapontamento dos nossos filhos talvez não diminua, mas sua raiva e frustração sim. Eles ficarão desapontados por não terem aquilo que desejavam quando o desejavam, mas se confiarem que o passeio de bicicleta que eles perderam hoje será feito dali a alguns dias, isso ajudará a diminuir sua tristeza.
Quando o carro quebra, ou um telefonema importante de negócios chega na hora errada, ou quando ficamos presos no trânsito e não conseguimos chegar em casa a tempo, seu filho o receberá não com culpa, mas com desapontamento compartilhado, e disposição para encontrar a primeira oportunidade de cumprir a promessa.

6 – A Conta Bancária
Algum tempo atrás, programei uma semana de férias para coincidir com as férias escolares dos meus filhos. No último dia de férias, tínhamos planejado visitar uma caverna cheia de estalactites e outras coisas misteriosas.
Acordamos mais tarde que o planejado. Demorou mais do que o esperado para empacotar a comida, ir ao banco retirar dinheiro, abastecer o carro no posto repleto de pessoas em férias em busca de diversão e aventura.
Quando finalmente chegamos lá no final da tarde, a caverna estava fechada. (Você sabia que cavernas têm horário para fechar?)
Ao voltarmos montanha abaixo, meus filhos estavam realmente chateados. Eu os deixei expressar seu desapontamento. Fiquei em silêncio. Esta era a hora para eles falarem, e para eu escutar.
Seu desapontamento se transformou em raiva e frustração: era o último dia de férias. Não haveria outra chance de visitar a caverna. As férias inteiras foram arruinadas.
E eu escutei. Eram vozes de crianças frustradas.
Mas então eles começaram a culpar minha mulher e eu. Nunca saíamos de casa a tempo. Por que você e Mamãe não são mais organizados? Por que não fizeram isso, e por que sempre fazem aquilo?
Então parei de ouvir e os fiz parar. Eles tinha cruzado a linha do desrespeito, e isso eu não podia tolerar.
Fizemos o resto do caminho em silêncio. Estávamos cansados e há muito tempo dentro do carro. Chegamos em casa, comemos e as crianças foram para a cama.
Na noite seguinte, sentamo-nos para jantar. O humor estava bom e conversamos sobre todos voltarem à velha rotina.
Então eu disse: "Gostaria de conversar sobre ontem. Sinto muito por estarem todos desapontados pela caverna. Eu também fiquei, e estou triste por não termos conseguido fazer conforme o planejado. Mas acho que vocês foram injustos em culpar Mamãe e eu, e ficarem tão furiosos. Nós fazemos o possível para cumprir nossa palavra, para fazer aquilo que prometemos. E vocês sabem disso. Mas às vezes, não importa o quanto tentemos, nossos planos vão por água abaixo. E acho que todos vocês conseguem entender isso."
Expliquei que não havia problema em ficarem desapontados. Tudo bem sentirem frustração e tristeza. Mas não era certo culpar-nos e nos criticar.
Então abri a conta bancária das promessas passadas: "Vocês sabem que fazemos o possível para cumprir nossa palavra, e na maioria das vezes cumprimos, certo?"
Todos concordaram.
Não abri a conta bancária ontem, quando estavam com raiva, porque não teriam me dado ouvidos ou isso poderia ser entendido como uma forma de manipular suas emoções.
E não abri a conta bancária das promessas passadas para me defender ou justificar.
Abri a conta para criar um "momento ensinável". E a maioria dos momentos se torna ensinável depois que passou o calor do momento de emoção. Um momento ensinável tenta afetar o futuro.
Eu senti que era necessário reafirmar aos meus filhos que minha mulher e eu éramos pessoas que queriam e tentavam muito cumprir sua palavra. E depois de todo esse tempo, com tantas promessas feitas e cumpridas, esperávamos haver alguma confiança, merecida, por parte dos nossos filhos. E esperávamos a paciência e compreensão que vem com aquela confiança.
Quando o jantar chegou ao fim, concordamos que quando temos planos para o dia, precisamos todos fazer mais no sentido de sair de casa mais cedo e assegurar que nossos planos não serão arruinados.

Encorajamento e Conclusões
Mudar as expectativas de nossos filhos e cultivar neles a qualidade da confiança são dois dos benefício que recebemos quando cumprimos nossa palavra. Porém se esta é a nossa principal motivação, simplesmente não dará certo – nem para nós nem para eles.
Os filhos são muito sensíveis à nossa sinceridade. Eles sabem logo quando nosso comportamento é uma máscara usada em benefício deles. Se a sinceridade e o cumprimento da palavra empenhada são importantes apenas como um mecanismo para desenvolver neles este traço, eles saberão, e se sentirão manipulados. Porém se este é um traço que valorizamos genuinamente, que é de suprema importância para nós, eles também sentirão isso, e desejarão ser como nós.
Seremos o espelho no qual eles vêem como é ser confiável.
Qualquer que seja o resultado que desejamos, diminuir os ataques temperamentais ou aumentar a qualidade da confiança em nossos filhos, devemos começar com nós mesmos. O ingrediente mais importante para o sucesso é a sinceridade – o verdadeiro desejo e o compromisso de ser uma pessoa que cumpre sua palavra.
Estamos sempre dizendo aos nossos filhos (e a nós mesmos) como eles (e nós) "devemos" ser: mais virtuosos, mais honestos, mais dignos de confiança, pacientes, sensíveis às necessidades dos outros.
Mas as crianças raramente aprendem com "devemos". Um devemos presume uma deficiência, algo que falta. Encerra uma mensagem não falada que a qualidade desejada (neste caso, ser digno de confiança) não existe realmente. Provoca uma reação imediata de culpa e defensiva.
Na verdade, a criança possui o potencial para todas as virtudes (ou seu oposto), pois cada comportamento possível – seja ou não desejável. Aqueles que valorizamos não precisam ser instilados – precisam apenas ser estimulados e encorajados. A capacidade de ser digno de confiança já existe em nós e em nossos filhos. Não precisamos criá-la; precisamos apenas reconhecê-la, nutri-la, esperar por ela e louvá-la.
Jamais conseguiremos estimular um traço de caráter em nossos filhos se não o possuirmos e demonstrarmos em nosso próprio comportamento. E jamais desenvolveremos uma qualidade em nós mesmos em benefício dos nossos filhos – devemos fazê-lo por nós mesmos.
Devemos ensinar e praticar o valor da confiança porque esta é a melhor maneira de ser.
Haverá muitos benefícios com esta atitude de "cumprir a palavra". Haverá resultados práticos a curto prazo, como ataques de mau gênio evitados. E haverá resultados satisfatórios a longo prazo, à medida que observamos nossos filhos crescendo como pessoas pacientes, honestas e confiáveis. Não teremos instilado estas qualidades em nossos filhos – somente D’us pode fazê-lo. Mas nosso exemplo terá permitido que eles façam aflorar estas mesmas qualidades recomendáveis em si mesmos.