Por Jay Litvin
Se fosse o seu filho, você se importaria?
Você já olhou dentro dos olhos dele? Do meu filho, quero dizer. Aquele que está com tantos problemas na sua aula de matemática.
Eu olhei. Quando o ajudo à noite, vejo a frustração em seus olhos quando ele não consegue entender. Vejo-o procurando no meu rosto, com medo do meu desapontamento, das minhas críticas, quando ele dá a resposta errada para o problema depois de eu ter explicado tantas e tantas vezes.
Vejo em seus olhos a vontade de desistir. Vejo a tristeza e o desespero nos cantos de sua boca.
Percebo a tensão em sua testa enquanto ele se esforça para entender. Observo seus dedos ficarem brancos quando ele agarra o lápis com tanta força, na esperança de que desta vez – desta vez – o lápis não vá traí-lo e ele escreverá as respostas certas na página.
Você olha para ele durante a aula quando o ensina? Olha em seus olhos e vê como o desapontamento e a frustração ameaçam chegar até a alma dele? Partir seu coração? Você consegue ver o fracasso endurecer até o alicerce do seu caráter?
Eu pergunto a você: Pode ver o quanto ele tenta? O quanto ele quer agradar? Como sua auto-estima desmorona cada vez que ele não consegue lembrar que sete vezes oito é igual a cinquenta e seis? Ele sabe, mais dolorosamente que você, que ele tentou aprender isso quinhentas e sessenta vezes, e mesmo assim esqueceu.
Eu vejo o quanto ele tenta. Vejo isso tudo. Sento-me com ele à noite e mal consigo continuar nossa sessão de lição de casa quando vejo seu rostinho sardento esforçando-se para lembrar que quatro vezes seis são vinte e quatro, e meu coração se parte no mesmo número de pedaços.
E assim tentamos e damos risada. Digo a ele que as pessoas aprendem em velocidades diferentes e tempos diferentes. Conto a ele que seu irmão mais velho só conseguiu aprender a ler aos oito anos e então, quando chegou a hora para ele, aprendeu a ler em apenas três meses e passou direto para o primeiro lugar na classe.
Explico a ele que alguns bebês aprendem a usar o toilete com um ano, outros com dois, e outros ainda somente aos três ou quatro, e que nunca se vê um garoto de quinze anos em fraldas. E ele ri. Vejo que seus olhos se iluminam um pouco, E quando ele libera a tensão, parece se concentrar mais, lembrar-se melhor.
Mas ainda não é o suficiente. E eu me vejo odiando as tabuadas por magoarem o meu filho. A divisão se tornou minha inimiga, Sessenta e quatro dividido por oito é mais do que posso tolerar. Oitenta e um dividido por nove é mais do que qualquer criança de nove anos deveria ter de lidar.
E às vezes eu culpo o professor. Você o ensina bem? Às vezes fico furioso por você tê-lo criticado, fazendo-o se sentir mal. Mas então penso que você simplesmente está ali para culpar, enquanto eu me sinto tão infeliz pelo meu meigo garotinho.
Você sabe o quanto ele é meigo? Meu filho.
Ontem à noite, brigamos até que ele finalmente se sentou com a matemática.
Ficamos durante uma hora e meia repassando três vezes três igual a nove, nove dividido por três igual a três. Colocamos grãos de feijão na mesa como se fossem alunos numa classe, balas para cada aluno, moedas para a loja, todas as coisas que podem ser divididas e multiplicadas, avaliadas e arredondadas. Às vezes usamos uma calculadora, qualquer coisa que o ajude a ver os números muitas vezes repetidas. Finalmente os olhos dele ficam vermelhos, suas pálpebras caem e ele diz: "Papai, estou tão cansado. Posso ir dormir agora?"
De pijama, ele vem me dar um beijo de boa noite. "Sabe, Papai" – diz ele – "eu detesto quando tenho de parar de brincar para fazer lição de casa com você. Mas então, quando começamos, gosto tanto que não quero parar."
Você sabe o quanto meu coração pulou com estas palavras, o quanto eu rezei ontem à noite para que você dê a ele uma boa nota na prova de matemática desta manhã?
Na verdade, não me importo se ele faz o problema certo ou errado. Eu não ficaria chateado se somente hoje sete vezes oito fossem igual a cinqüenta e quatro, ou cinqüenta e dois, ou quarenta e oito. No que me diz respeito, dois mais dois não precisa ser quatro se isso significa que meu filho se sente bem consigo mesmo, e se continuará tentando, se começará a pensar em si mesmo como inteligente, corajoso e competente.
Cinco mais cinco realmente são dez? Não poderia ser doze, para o bem do meu filho? Em nome do seu bem-estar? A matemática se importa se a conta está certa, ou é você que se importa? Os números ficariam ofendidos, ou é apenas a sua severidade que força cinco a ser a resposta impossível para duas vezes dois? Estes números valem uma vida? Um futuro?
Você se faz estas perguntas quando está dando nota ao teste do meu filho?
Se você olhasse nos olhos dele, daria? Se o amasse, daria?
Porque, veja bem, o amor é suficientemente forte para permitir que cinco vezes zero seja cinco em vez de zero, apenas desta vez.
Se fosse o seu filho, você se importaria?
Não estou pedindo para amar meu filho como eu o amo. Nem para dar notas injustas às suas provas. Eu quero que ele saiba fazer contas corretamente, e que entenda a importância da exatidão em todas as coisas.
Somente, por favor, olhe dentro dos olhos dele. Embora os números não possam mudar, a sua maneira de ensinar poderia. Embora as respostas dele possam estar erradas, você verá que o coração dele não é. Embora demore para ele aprender, você verá o quanto ele se esforça. E quando lhe der uma nota – faça-o de tal maneira que somente os números sejam julgados, não o menino. Cinco mais cinco sempre serão dez, quatro vezes quatro sempre dezesseis, mas certifique-se que o que quer que ele escreva, meu filho não seja somente um zero aos seus olhos, ou aos olhos dele.
De um pai amoroso.