(tô'rä) תורה root: יורה
Palavras relacionadas: instrução הוראה, guia מורה

Torá em Cinco Livros

A palavra Torá literalmente significa Instrução” – significando algum tipo de orientação na vida.

Mas quando os judeus dizem “Torá”, eles provavelmente estão falando dos Cinco Livros de Moshê, a base de toda a instrução e orientação judaica. Podemos também chamar de Chumash, em hebraico, que significa cinco – assim como o não tão judaico e um tanto arcaico título Pentateuco que vem do prefixo grego penta, que significa cinco.

Com frequência, quando as pessoas falam sobre “uma Torá”, estão se referindo a uma versão num rolo de pergaminho dos Cinco Livros de Moshê que é guardado na arca da sinagoga e tirada para ser lida durante os serviços.

Beis Yisroel Torah Gemach
Beis Yisroel Torah Gemach

Torá em 24 Livros

Os Cinco Livros de Moshê são na verdade uma seção de uma coleção de obras também chamada de Torá, mas de outra forma conhecida como Tanach.

Tanach é um acrônimo das palavras:

  • Torá: Chumash (Cinco Livros de Moshê) – como acima
  • Nevi’im (Profetas)
  • Ketuvim (Escritos, como Salmos, Lamentações e Provérbios)

Há uma distinção, porém.1 Embora todos os livros do Tanach e todos os livros da Torá sejam obras divinas, o Chumash ocupa um lugar único, e são reverenciados como obras divinas. Isso porque o Chumash é a obra de Moshê e a veracidade da profecia de Moshê está baseada numa comunicação direta testemunhada de D'us com ele.

Até aí, as pessoas não podiam estar inteiramente certas de que aquilo que Moshê estava dizendo a elas provinha realmente de D'us. Elas não tinham evidência empírica, exceto sua obra de milagres – mas o que milagres demonstram? Somente uma habilidade para realizar o sobrenatural; eles não são provas de que D'us falou com você ou com outro alguém. Isso por que quando as pessoas viram e ouviram por si mesmas elas não mais tiveram dúvidas.

Todas as outras profecias no Tanach, seja Shmuel, Yeshayiahu ou Daniel, foram a testemunha de um único indivíduo. Elas são acreditadas somente porque Moshê nos instruiu – em nome de D'us – a acreditar e obedecer aos profetas que cumprem as condições estabelecidas claramente para eles. Alguém que fala em nome de D'us mas não cumpre essas condições deve ser severamente punido – independentemente dos milagres que pode realizar. 2

Obviamente, então, nenhum profeta pode acrescentar ou tirar nada que Moshê ensinou – pois sua credibilidade está inteiramente em sua autoridade.3 Os profetas vêm somente para explicar, elaborar e advertir as pessoas a manter “a Torá de Moshê”, como diz o último deles, Malachi: “Seja consciente dos Ensinamentos de Meu servo Moshê, a quem encarreguei em Horeb com leis e regras para todo Israel.”4

Tanach é às vezes mencionado pelo restante do mundo como “A Bíblia Hebraica”. Os judeus escreveram muitos outros livros de história, sabedoria e profecia, mas nenhum desses foi considerado como sendo divino e eterno para ser incluído no Tanach. Portanto eu poderia também dizer: “Shir HaShirim, o Cântico dos Cânticos é um livro da Torá” – embora não seja um dos Cinco Livros de Moshê.

Torá Oral – Uma Torá Interminável

Toda obra requer conhecimento e entendimento de seu contexto para fazer sentido dos seus conteúdos, muito mais então aquela que é para transmitir todas as instruções necessárias para u ma nação inteira e todo indivíduo em toda situação para a eternidade. É por isso que temos “A Torá Oral” (em hebraico: Torah Sheba’al Pê). E é literalmente interminável.

Nos Cinco Livros de Moshê, lemos repetidamente como Moshê transmitia instruções de D'us para o povo. Mas é prontamente aparente que Moshê ensinava muito mais que poderia ser escrito naqueles cinco livros.

Por exemplo, ao escrever que somos mandados a “descansar no sétimo dia” – mas não há explicação escrita sobre que tipo de descanso significa. Somos mandados a abater animais antes de comê-los “como Eu lhe ordenei”5 – sem nenhuma descrição de que tipo de abate foi ordenado.

Os exemplos são quase intermináveis. Há muito faltando e muita ambiguidade que dificilmente qualquer lei pode ser extraída do simples texto em termos práticos.

Acrescente a isso o fato de que a Torá escrita não contém os pontos de vogal necessários para a leitura do hebraico bíblico. A palavra para leite, por exemplo, tem as mesmas letras que a palavra para gordura. Em muitos casos, a única maneira de saber a diferença é devida à tradição. Também não há qualquer pontuação no texto escrito.

Não admira que quando os antigos protestantes começaram a traduzir a Bíblia Hebraica no vernáculo que eles eram forçados a confiar na tradição judaica de pontuação e vogais bem como nos clássicos comentaristas judeus para o significado simples do texto.

A Torá também ordena os anciãos a “Manter os Filhos de Israel distantes da impureza!” Isso diz:6 “Guarde meus guardiões!” 7Isso significa que se a liderança espiritual vê que sua geração tem maior tentação do que as gerações anteriores – ou simplesmente não podem ser tão cuidadosas como antes – é tempo de acrescentar alguns ávidos para mantê-los mais longe.8 Muitas dessas precauções foram acrescentadas na antiga história judaica sem serem registradas num documento público.

Além disso, de tempos em tempos, os sábios e lideres do povo usavam os princípios de interpretação transmitidos por Moshê para derivar novas regras, ou recuperar aquelas que foram esquecidas. Eles também estabeleceram novas regras para proteger a lei ou aplicá-la a novas situações à medida que surgem, como Purim e Chanucá. A própria Torá provê ampla autoridade aos setenta anciãos e aos “sacerdotes e os homens sábios que haverá em seus tempos” para responder “tudo que é difícil para vocês” ao ponto que “você não deveria sair de suas palavras para a esquerda nem para a direita.” 9

Portanto a totalidade da Torá teve de ser transmitida oralmente, de pai para filho, de professor a aluno.10 Poderia somente ser transmitida daquela maneira, devido à sua própria natureza. Embora a Torá Oral seja um organismo vivo, crescente que não pode ser captado por um pouco de tinta seca numa página, a Torá escrita é um texto sagrado dotado com um número exato de palavras. Porém eventualmente, o âmago essencial dessa tradição oral teve de ser colocado em escrita, para que não fosse perdido.11

Como essa tradição oral é também uma parte vital da instrução divina, é também chamada Torá – a Torá Oral. Inclui:

  • A leitura adequada do texto, sua pontuação, vogais e recitação, junto com o significado das palavras.
  • A compilação de leis e regras conhecidas como Mishná, junto com outras compilações aceitas, como Sifre, Sifra, Mechilta, Braita e Tosefta.
  • A discussão e debate daquele material, conhecido como Talmud ou Guemará.
  • As obras esotéricas (com frequência conhecidas como Cabalá) e guias éticos baseados na Torá e compostos por eruditos da Torá.
  • As histórias e suas lições que são coletadas no Talmud e obras midráshicas.

Qualquer outro ensinamento que tenha sido aceito por um consenso a longo termo da comunidade judaica praticante, porque está baseado firmemente sobre algum precedente, ou porque foi demonstrado para emergir por meios aceitos de textos e opiniões anteriores.

Como declara o Talmud: “Escrituras, Mishná, Talmud e Agadá (parábolas) – mesmo aquelas que um estudante diligente está destinado a instruir perante seu professor – tudo já foi dito a Moshê no Sinai.”12

Portanto sim, um amigo poderia lhe dizer: “Você deveria ter ouvido a impressionante Torá que o rabino disse em nome de seu professor nessa manhã!”

Se você perguntar a ele: “Qual livro da Torá?” ele poderia responder que ainda não foi escrito. Isso porque a Torá Oral está sempre viva e crescendo nas mentes e bocas daqueles que a estudam, acreditam nela e a abraçam.

Integridade da Torá Oral

Uma pergunta muito comum: Como sabemos que os anciãos e os rabinos a têm certa? E como sabemos que essa tradição oral não foi corrompida no decorrer dos anos?

Mas quando você considera que o autor desse sistema é o mesmo que O autor da Torá inteira – ou seja, o Próprio D'us – a pergunta desaparece. Como foi citado acima, D'us nos instruiu para levarmos todas as questões difíceis para as cortes estabelecidas de anciãos e sábios em cada geração e para seguir suas regras. Se Ele confia neles, também devemos confiar.

O Midrash de Rabi Tanchuma coloca dessa maneira: uma pessoa não deveria dizer: 13

“Não vou cumprir as mitsvot de nossos Sábios, pois elas não são da Torá.”

O Eterno, Bendito seja, diz a essas pessoas: “Meus filhos, vocês não podem falar dessa maneira! Mas sim, tudo que eles decretam sobre vocês, deverão cumprir, conforme dito em Minha Torá: ‘Farás de acordo com a Torá aquilo que eles lhe ensinam.’14 Por quê? Porque Eu também concordo com as palavras deles, como é dito: ‘Você decretará uma declaração e será estabelecida para você.’”15

O primeiro livro da Torá, o Livro Bereshit , em particular, nos ensina repetidamente que D'us é encontrado na história. Ele nunca nos deixou e continua a nos guiar através dos Seus profetas, Seus sábios e os homens e mulheres justos que Ele envia para pastorear seu povo.

Assim também, o processo pelo qual novas leis e ensinamentos são estabelecidos e transmitidos é robusto. Não estamos falando de um pequeno grupo de indivíduos, mas de uma nação inteira envolvida em estudo, debate e transmissão da tradição oral da Torá. Para uma nova lei se tornar efetiva, tinha de ser aceita pela comunidade inteira. Para durar, tinha de ser transmitida por um grupo crítico de mestres.

Perguntas sempre foram encorajadas como uma parte vital do aprendizado. Uma pergunta comum que aparece repetidamente no Talmud é: “De onde isso vem?” – significando: “Como isso chegou a nós – através de exegese de um texto, através de uma tradição oral de Moshê, ou por algum decreto posterior?” Nenhuma tradição foi aceita como garantida, nenhuma regra veio sem forte precedente.

O Talmud provê um exemplo muito forte com uma ilustração:16

Rav Yehuda disse em nome de Rav:

Quando Moshê ascendeu ao alto ele encontrou o Eterno, bendito seja Ele, engajado em afixar coroas às letras.

Moshê perguntou: “Senhor do Universo, Quem O está forçando a fazer isso?” Ele respondeu: “Surgirá um homem, ao final de muitas gerações, Akiva Ben Yossef seu nome, que irá expor sobre cada pontuação pilhas e pilhas de leis.”

“Senhor do Universo,” disse Moshê, “permita-me conhecê-lo.”

D’us respondeu: “Dê um passo para trás.”

Moshê deu um passo para trás e sentou-se atrás de oito grupos de alunos de Rabi AKiva. Ele não sabia o que eles estavam falando e se sentiu desanimado.

Então eles chegaram a um determinado assunto e os discípulos indagaram ao mestre:

“Como o mestre sabe isso?”

Rabi Akiva respondeu: “Esta é uma lei que sabemos por tradição oral ter sido dada a Moshê no Monte Sinai.”

Então Moshê foi confortado.

No entanto, quase sempre encontramos visões díspares sobre um assunto. Nossa tradição aborda isso explicando que Moshê também recebeu múltiplos pontos de vista:

Rabino Yanai disse:

A Torá não foi dada cortada e seca. Em vez disso, para tudo que D'us diria a Moshê, Ele forneceria 49 facetas de pureza e 49 facetas de impureza.

Moshê indagou: “Mestre do Universo, quando vamos esclarecer isso?”

D'us respondeu: “Siga a maioria.17 Se aqueles que o declaram puro são a maioria, ele é puro. Se aqueles que o declaram impuro são a maioria, ele é impuro.

Rabi Avahu disse em nome de Rabi Yonatan: “Rabi Akiva tinha um estudante diligente e seu nome era Rabi Meir. Ele foi capaz de encontrar 49 facetas da Torá para declarar um roedor puro, junto com 49 facetas para declará-lo impuro.”

Rabi Yehoshua ben Levi disse: “Nos dias de Shaul e David, e nos dias de Shmuel, até mesmo as crianças sabiam como aprender a Torá com 49 facetas de pureza e 49 facetas de impureza.18

Esta noção de múltiplas verdades através das quais cada aluno deve peneirar é um princípio fundamental no estudo da Torá - bem como um dos segredos para a robustez da tradição. Na tradição judaica, D'us também é chamado de "Luz Infinita" - ou apenas "o Infinito". Como Ele é infinito, a sabedoria que vem Dele é ilimitada em sua aplicação, bem como nos pontos de vista capazes de incluir.19

Obviamente, nem todas as opiniões são Torá. Existem requisitos vitais para garantir a integridade da Torá.

Conforme o Talmud expõe as palavras em Cohelet (Eclesiastes):

“As palavras dos sábios são como aguilhões; como pregos bem fixados são os ditos dos mestres da coleção, fornecidos por um só pastor.”20

… Quem são os “mestres da coleção”? Estes são os alunos dos sábios que se sentam em grupos ocupados no estudo da Torá. Estes declaram algo impuro e estes o declaram puro. Estes proíbem e permitem. Estes declaram algo casher e estes o declaram impróprio.

Talvez uma pessoa diga: "Se sim, como posso estudar Torá?"

Isto é o que nos foi ensinado: tudo foi dado por um único pastor. Um D'us os deu, um líder os falou da boca do Mestre de Todas as Coisas, bendito seja Ele, como está escrito: "E D'us falou todas essas coisas, dizendo ..."

Você também deve tornar seu ouvido como um moedor e adquirir um coração compreensivo para ouvir as palavras de todas essas opiniões.21

Autoria da Torá

A tradição judaica é que Moshê escreveu os Cinco Livros de Moshê. Você encontrará alusões a isso em vários pontos do texto, e ainda mais explicitamente em Yehoshua 1: 7-8. Dezesseis ocorrências no Tanach fazem referência à "Torá de Moshê".

No entanto, não podemos realmente chamar Moshê de autor. Na verdade, nenhum profeta é seu próprio autor. Alguns, como David, foram capazes de dizer: “O espírito de D'us falou dentro de mim e Sua palavra está em minha língua.”22 Ele se sentiu nada mais do que um canal para o divino entrar neste mundo. Outros tiveram visões ou sonhos que lhes foram dados de Cima para que pudessem transmitir uma mensagem ao povo.23

Mas a profecia de Moshê estava em um nível completamente diferente. Suas palavras não estavam envoltas em alegoria e metáfora, mas eram instruções diretas, pois não havia sentido do eu nas palavras de Moshê - como vemos, que ele se refere a si mesmo na terceira pessoa, articulações precisas da voz divina que precedeu o universo. Não havia sentido pessoal nas palavras de Moshê - como vemos, que ele se refere a si mesmo na terceira pessoa, descrevendo seu nascimento e os eventos de sua vida objetivamente, como se falasse de outra pessoa.24

É isso que D'us queria dizer quando se dirige a Miriam e Aharon: “Boca a boca falo com ele”.25 Isso também é o que o Talmud quer dizer quando diz que “D'us ditou e Moshê escreveu”. 26

E quanto aos últimos oito versículos da Torá, que descrevem a morte de Moshê?

O Talmud registra duas opiniões.27 Rabino Yehuda diz que esses últimos versos foram escritos por Yehoshua, aluno e herdeiro de Moshê. Rabino Shimon difere, dizendo: “Até este ponto, o Santo, Bendito seja Ele, ditou e Moshê repetiu depois dele e escreveu o texto. Deste ponto em diante, o Santo, Bendito seja Ele, ditou e Moshê escreveu com lágrimas.”

Quando Moshê escreveu a Torá?

Quando Moshê escreveu tudo isso? O Talmud também fornece duas opiniões sobre este tópico. Uma é que ele escreveu pergaminhos separados à medida que os assuntos se desenrolavam durante o período de quarenta anos no deserto, e apenas os costurou no final de sua vida. A outra é que ele escreveu todos os cinco livros no final de sua vida.28

Até o final do século 17, a origem divina da Torá era inquestionável. Acadêmicos e estadistas europeus citaram-na muito mais do que qualquer outra fonte, pois era considerada um texto da mais alta autoridade. É por isso que a maioria do que consideramos "valores iluminados" encontra sua fonte na Torá.29

Nos séculos 18 e 19, alguns estudiosos seculares tentaram datar a escrita da Torá para uma era muito posterior. O mais proeminente foi Julius Wellhausen, que alegou que se tratava de uma falsificação, obra de canonizadores sacerdotais nos primeiros anos do segundo Templo, remendando escritos de várias tradições. Isso é geralmente referido como “A Hipótese Documentária” - uma tentativa de reconstruir a evolução do texto.

Nenhuma evidência externa foi produzida para apoiar essa hipótese, e muito pelo contrário, a sintaxe e o formato de centenas de milhares de documentos do antigo oriente próximo descobertos em tempos mais recentes solapam muitas de suas suposições.30 Agora somos capazes de rastrear textos como eles são modificados com o passar dos anos, e não foi encontrado nenhum remendo desse tipo.

No que diz respeito às evidências internas - isto é, do próprio texto - o poder explicativo da hipótese levanta mais questões do que respostas, e o comentário tradicional aborda a maioria de suas questões de uma maneira mais satisfatória.

Além disso, nunca foi esclarecido quem exatamente se beneficia com esta conspiração, já que a Torá coloca restrição e culpa em quase todos, nem por que alguém cairia nisso. Além disso, agora sabemos que o que antes era assumido como anomalias do texto apontando para vários autores, como mudanças gramaticais e repetição, são na verdade bastante comuns em documentos do antigo Oriente Próximo.

A hipótese nunca existiu sem detratores acadêmicos e tem sofrido sérios ataques nos últimos anos por vários especialistas, incluindo o mais importante egiptólogo da era Ramses, Kenneth A. Kitchen, que afirma que a ausência de anacronismo e os detalhes descritivos e precisão demonstram que a obra só poderia ter sido composta contemporaneamente.31

James K. Hoffmeier é outro egiptólogo altamente respeitado que publicou em apoio a uma leitura contemporânea. 32 Vários acadêmicos chegaram a afirmar que os estudiosos apenas se agarram a esse paradigma devido ao seu poder habilitador.33

A tradição judaica de autoria mosaica, por outro lado, era o consenso universal de judeus e cristãos até o final do século 17. A tradição judaica é uma cadeia ininterrupta e sempre foi do conhecimento público de uma grande massa de pessoas - o que é extremamente difícil de forjar. Como todas as hipóteses alternativas são apenas especulativas, faz sentido seguir a tradição.

Quem escreveu o resto dos livros da Torá?

E os livros restantes do Tanach que também são chamados de Torá? Aqui está uma lista de seus autores de acordo com o Talmud:34

  • Yehoshua: Yehoshua, completado por Pinchas.
  • Shofetims e Ruth: Shmuel
  • Shmuel: Shmuel, concluído por Gad, o Vidente e Nathan, o Profeta.
  • Tehilim: David, coletando suas próprias canções, bem como as de dez anciãos: Adam, Melquisedeque, Avraham, Moshê, Heiman, Yedutun, Asaf e três filhos de Corach.
  • Jó: Moshê
  • Melachim: Yirmiyahu
  • Yirmiyahu, Livro dos Melachim, Eicha (Lamentações): Yirmiyahu.
  • Yeshayiahu: Transcrito e preservado por Yechezkel e seus colegas.
  • Mishlê (Provérbios), Shir Ha Shirim (Cântico dos Cânticos), Kohelet (Eclesiastes): Composto por Shlomo HaMelech, transcrito e preservado por Yechezkel e seus colegas.
  • Yechezkel, os Doze Profetas, Daniel e Meguilat Ester: O Sanedrin (Os Membros da Grande Assembleia, durante o exílio na Babilônia).
  • Livro de Esdras e Divrê-Hayamim (Crônicas): Esdras, concluído por Nehemia.

As Pessoas Podem Criar Mais Torá?

Dissemos acima que a Torá está constantemente sendo criada por seus estudiosos. Mas como isso poderia ser, se a Torá é uma instrução Divina?

Uma resposta simples é que a Torá fornece princípios gerais, e cabe a nós entender como aqueles princípios se aplicam em situações novas quando elas surgem.

Por exemplo, com o avanço da tecnologia, surgem perguntas. A Torá diz: “Não deves acender um fogo em nenhum local da sua morada no dia do Shabat.”35 Isso inclui ligar a chave da ignição num carro de combustível fóssil? (Consenso: Sim).

E sobre acender uma chave elétrica? (Consenso: Provavelmente não, mas ainda é proibido por outras razões). Ou acender o filamento de carbono numa bolha incandescente, para que brilhe? (Consenso: Proibido por duas opiniões – uma que é um fogo, a outra que aquecer metal até que brilhe é considerado cozinhar.36)

Podemos deixar que aparelhos elétricos continuem funcionando para nós no Shabat sem nossa intervenção? (Consenso: Sob as condições corretas, sim.)

Na ética médica, também, quando novas situações surgem quase diariamente, os precedentes da Torá são abordados para prover orientação e clareza. Similarmente, quando a Torá nos conta uma história para ensinar uma lição. Em cada geração, devemos determinar qual é a lição relevante para aqueles tempos.

Mas como chamamos aquelas próprias aplicações de Torá? Poderia parecer que elas são nossa própria sabedoria e não a sabedoria divina. Uma resposta é encontrada na própria Torá. Moshê descreve o evento de D'us falando no Monte Sinai com essas palavras: “Havia uma grande voz e ela nunca parou.”37

As últimas palavras daquele versículo – v’lo yasaf – não somente são ambíguas mas contêm dois significados opostos. Poderiam significar “e ela nunca parou.” Mas também poderiam significar “e nunca recorreu.”38

Ambas são verdadeiras. O Midrash39 explica:

Disse Rabi Yitschak:

Tudo aquilo que os profetas estavam destinados a profetizar em cada geração eles receberam do Monte Sinai. Pois isso é o que Moshê disse a Israel, “Para aqueles que estão aqui de pé conosco hoje... e aqueles que não estão aqui conosco hoje.”

Ele não disse: Aqueles que não estão de pé aqui conosco hoje,” mas sim “aqueles que não estão conosco hoje.” Isso porque ele estava falando das almas que eram destinadas a serem criadas mas estavam sem materia. Sobre essas, não poderia ser dito que elas estavam de pé, porém elas também, cada uma, receberam aquilo que pertencia a elas.

Então também é dito: “O fardo da palavras de D'us na mão de Malachi.” Não “nos dias de Malachi,” mas “na mão de Malachi.” Pois a profecia já estava em sua mão desde o evento no Monte Sinai. Apenas ele não tinha permissão para profetizar até que chegasse o tempo para isso.

O mesmo é dito sobre Yeshayahu :“Desde o dia e o tempo que foi, ali estava Eu.”

Yeshayahu estava dizendo que desde o dia em que a Torá foi dada no Sinai, ali eu estava e ali recebi essa profecia. É apenas que “e agora, Hashem, D'us, enviou a mim e Seu espírito.” Significa que até agora eu não tive permissão para profetizar. Não foram apenas os profetas que receberam sua profecia do Sinai mas também os sábios que surgiram em toda geração. Cada um recebeu aquilo que é seu do Sinai.

Então é dito: “Todas essas coisas D'us falou a toda sua congregação, uma grande voz que jamais termina.”

Em toda geração, em todo local onde a Torá é estudada, o Sinai ocorre novamente, e de novo, de novo, com cada nova descoberta, cada facho de sabedoria e visão que nunca foi conhecido antes. Cada um é uma mensagem daquela mesma voz, cada qual tão necessária para aquele tempo e lugar.

Alguém poderia dizer que a semente da Torá foi plantada com a experiência no Sinai, registrada nos Cinco Livros de Moshê, mas que a voz do Sinai continua a ser ouvida em cada geração quando os estudantes da Torá revelam o DNA daquela semente, descobrindo novos significados que sempre foram importantes, e novas aplicações que sempre tinham ficado dormentes.

Porém há uma advertência importante para este empreendimento. O Zohar adverte que aquele que diz que algo é Torá quando não é criou um ídolo.40 Isso faz sentido quando você considera que a Torá é sabedoria Divina. Assim como fazer um ídolo e alegar que é a imagem de D'us é uma perigosa mentira, também é falar suas próprias ideias e chamá-las de Torá.

É por isso que Rabi Moshe Cordovero ensinava: “Quando você origina e analisa com seu intelecto para que possa entender, deve tomar cuidado para conceber a ideia e explicá-la dentro da estrutura da tradição dos rabinos e suas palavras. As ideias originais devem ser incluídas naquilo que você adquiriu, seja muito ou pouco.41

Portanto sim, é perigoso – mas é uma necessidade. Você não aprendeu realmente Torá até que seja capaz de discernir novas explicações, significados e aplicações por si mesmo. Como diz o Talmud:

Aconteceu que Rabi Yochanan ben Neroka e Rabi Elazar Ben Chisma foram saudar seu professor Rabi Yehoshua em Peki’in.

Ele disse a eles: “Quais inovações surgiram em sua sala de estudos?”

Seus alunos responderam: “Somos seus alunos, e de suas águas nós bebemos!”

Ele respondeu: “Apesar disso, não pode haver uma sala de estudo de Torá sem inovação.”42

Na verdade, o grande cabalista, Rabi Yitschak Luria ensinava que toda alma judaica que vem a este mundo é capaz de inovar em Torá, e deve fazê-lo para a sua própria realização.43

Originalidade e inovação são elementos fundamentais para o estudo de Torá - desde que a tarefa seja abordada com trepidação e reverência, pois é, afinal, uma tarefa divina.

Torá Versus Sabedoria

Se lhe disserem que há sabedoria entre outros povos, acredite neles. Se lhe disserem que há Torá entre outros povos, não acredite neles.44

A Torá, parece, é distinta daquilo que geralmente chamamos de sabedoria. Até o termo “sabedoria divina” é insuficiente.

Nosso universo, afinal, é composto de sabedoria divina – porém a Torá é mais do que o universo. Nosso ambiente, nossos corpos, e até a psique com a qual observamos todos esses, são de um design incomensurável. “Quão maravilhosas são Tuas obras, ó D'us,” declara o Salmista. “Tu fizestes todas elas com sabedoria!”45 As palavras iniciais da Torá “No princípio D'us criou...”46 são escritas no Targum Jerusalém como “Com sabedoria D'us criou.”

Os rabinos do Talmud até nos ensinaram que a Torá é o projeto do universo:

A maneira que o mundo funciona, quando um rei mortal constrói para si mesmo um palácio, ele não o constrói pelo seu próprio plano, Mas sim, ele constrói segundo o conselho de um arquiteto. Quanto ao arquiteto, ele também não confia apenas em sua mente, mas tem rascunhos e projetos para saber como construir os aposentos e como construir as entradas. Assim também, o Eterno, bendito seja, olhou na Torá e criou o mundo.47

Porém as leis da Torá são algo além das leis da natureza.

Então qual é a diferença entre sabedoria e Torá? A distinção é simples – entre o que é e o que deveria ser. Sabedoria lhe diz tudo que o Criador criou e tudo que poderia vir disso. A Torá lhe diz o que o Criador deseja de Sua criação, e como isso será alcançado.

Por exemplo, a sabedoria lhe diz que como você trata os outros é provável de retornar a você. Cabe a você decidir se deseja que retorne ou não. A sabedoria lhe diz que segurar uma propriedade que não lhe pertence poderia não ser uma boa ideia – não para você nem para as pessoas ao seu redor. Mas cabe a você decidir se vai ou não sofrer as consequências em prol dos benefícios imediatos.

A Torá, por outro lado, não informa simplesmente: instrui. A Torá é D'us, que cria o universo e sustenta sua existência a todo momento, dizendo: “Se você entende ou não, se você pode ou não se justificar, não roube.” Isso é dar um passo além da sabedoria.48

Na verdade, em muitos exemplos, a Torá vai instruir você a fazer algo que está além do seu entendimento. Aqui novamente, você ouve – não apenas porque é sábio o suficiente para saber que as instruções Daquele que criou o céu e a terra nem sempre vão se encaixar na sua compreensão, mas também porque essas são instruções, afinal, do Criador do céu e da terra.

Isso é também o que Rabi Shimon ben Lakish queria dizer quando ensinou que “a Torá precedeu a criação do mundo por dois mil anos.”49 Obviamente, ele não poderia significar tempo cronológico, já que tempo também é uma criação. Mas sim o significado é ontológico. A Torá provê um contexto maior que não pode ser conhecido do próprio mundo, um contexto de significado e propósito.50

A Torá é Somente Para Judeus?

Embora a Torá seja um pacto entre D'us e o povo judeu, também contém sabedoria e orientação para toda pessoa, judeu ou não.

A Torá não vem para apagar distinções, mas sim para criar harmonia entre indivíduos e entre nações num tempo previsto pelos profetas. A Torá é para afetar o mundo inteiro, para elevar a dignidade de toda a humanidade e levar todos nós a uma parceria sob um único Criador.

Uma antiga tradição da Torá Oral, mencionada no texto de Bereshit, diz que D'us deu sete mandamentos a toda a humanidade – seis para Adam e uma mais para Noach. Esses às vezes são mencionados como as Leis Noachidas, ou as Sete Leis de Noach.

O povo judeu foi instruído no Sinai a influenciar outros povos a manter essas leis básicas de decência humana. O Talmud declara que todo ser humano que vive por essas leis é considerado justo e tem uma parte no mundo vindouro.

Por que Aprender Torá?

Quando você imerge na Torá, sua meta não é guardar informação mas ligar sua mente com a mente do Criador. Pensar numa maneira Divina. Ganhar um senso de como o Criador do Universo Se relaciona com Suas criações. É uma partilha de espírito, até que as mesmas preferências e desejos respirem dentro de vocês dois. Os pensamentos Dele são seus pensamentos e seus pensamentos são Dele. Não há união comparável a ser encontrada em qualquer outra sabedoria.51 Como explicado anteriormente, a maneira pela qual você entende Torá é por si mesma a sabedoria Divina.

Porém a razão mais importante para estudar Torá é para seguir Suas instruções, como ensinava Rabi Yochanan: “Aquele que aprende e não cumpre teria sido melhor jamais ter vindo a este mundo.”52 Por outro lado, Rabi Acha responde: “Aquele que aprende a fim de levar seu aprendizado em ação merece receber Divina revelação.” Ele aprende isso com Yehoshua, que disse ao povo: “Que este Livro da Torá não cesse dos seus lábios, mas recite-o dia e noite, para que você possa observar fielmente tudo que ali está escrito. Somente então você vai prosperar em suas realizações e somente então terá sucesso.”53

E portanto pedimos em nossas preces diárias, que deveríamos ter recebido um coração “para aprender e ensinar, fazer e manter.”

Como Estudar Torá

Ler umas poucas histórias da Torá e olhar para o rabino pela duração de uma aula não corta isso. Toda disciplina tem não apenas seu conteúdo, mas sua abordagem. Junto com a tradição da Torá vêm os métodos pelos quais é aprendida.

Aqui estão alguns pontos importantes:

Bruria era uma erudita de Torá nos tempos romanos. Sobre ela é dito ter memorizado mais da Torá Oral que qualquer outro em sua geração. Uma anedota do Talmud nos provê com uma pista do seu segredo:54

Bruria abordou um certo aluno que estava murmurando seus estudos em vez de falar em voz alta. Ela o chutou e lhe disse: “Não está escrito: ‘Ordenado em todas as coisas e seguro?!55’ Isso significa que se a Torá é colocada em todos os seus 248 membros – ou seja, você coloca seu corpo inteiro para estudá-la – será segura. E caso contrário, não será segura.

O Talmud continua dizendo que Rabi Eliezer tinha um aluno que estudava em silêncio, e após três anos esqueceu seus estudos.

Revise, revise, e cante enquanto faz isso.

Os sábios tinham fortes palavras para aqueles que estudavam tudo apenas uma vez. Rabi Yehoshua Ben Korcha ensinava: “Aquele que estuda Torá e não revisa é comparável a uma pessoa que planta e não colhe.”56

Torá, ensinava Rabi Akiva, é para ser aprendida como se fosse uma canção.57 Você canta uma canção mais e mais vezes.

Na verdade, todo o Tanach tem marcas de recitação. Quanto ao Talmud e outros estudos, a maneira tradicional de aprender todos eles é com uma voz cantante que expressa o vai e volta, a subida e a descida de declarações e argumentos, questionamento e resolução. A entoação ajuda em todas as facetas do estudo – retenção, cognição e especialmente apreciação.

Faça boas perguntas

“O tímido não aprende,” ensinava Hillel.58 Por quê? Porque a aprendizagem começa quando você faz uma pergunta.

Na verdade, o paradigma da educação judaica, a Hagadá de Pessach, começa tentando obter uma pergunta das crianças. Sem uma pergunta, de que adianta prover uma resposta? Por que tentar estocar informação numa mente que não está procurando?

Um ponto padrão no mundo do estudo de Torá é chamar seu interlocutor como um am ha’aretz. Se ele é um am ha’aretz não adianta escutar suas palavras, considerar suas ordens ou até discutir com ele. O que é um am ha’aretz? Uma pessoa que memorizou o Tanach inteiro e a Mishná e entende tudo que estudou. Uma pessoa repleta de conhecimento – mas sem um raciocínio próprio . Uma pessoa que pode prover todas as respostas, mas não faz perguntas.59

Isso é realmente tudo o que o estudo do Talmud é – aprender a racionalizar por si mesmo, a derivar uma coisa de outra, ver os prós e os contras de uma nova ideia, e – acima de tudo – saber como fazer uma boa pergunta.

Quando você descobre que está fazendo as mesmas perguntas dos grandes comentaristas sobre Tanach e rabinos do Talmud, então você sabe que está aprendendo Torá.

Estude com um amigo

Este pode ser o grande segredo da educação judaica: duas cabeças são melhor que uma – especialmente quando elas argumentam uma com a outra. E portanto o método ótimo de estudo no mundo da Torá é com um parceiro – e preferivelmente um que discorda de você.

Aquele par de cabeças, uma dupla, estudando juntos um texto é chamado uma chavruta. Tudo começou com Moshê e Aharon, os primeiros eruditos de Torá, A Mishná lista relações de chavrutas, entre eles os mais notáveis especialistas e autoridades na lei judaica. Suas discordâncias e debates são o ponto forte da maioria do Talmud, e é através do estudo daqueles argumentos que alguém se torna um erudito de Torá.

Esta é a principal vantagem de um chavruta: Quando você estuda por si mesmo, tende a ver apenas um lado do quadro. Quando estuda com outro, cada um olha um lado. Cada um explora, expande e defende seu ponto naquele lado. E se você consegue argumentar enquanto escuta e escutar enquanto argumenta – como qualquer buscador da verdade deve ser capaz de fazer – você sai do debate com uma visão bastante aprofundada e aumentada do terreno.

Rabi Yochanan e Rabi Shimon ben Lakish formaram uma grande chavruta. Quando Rabi Shimon faleceu, Rabi Yochanan se recusou a ser consolado. Os sábios enviaram Rabi Elazar ben Pedat para assumir o lugar de Rabi Shimon. O Talmud continua: 60

Rabi Elazar ben Pedat foi e se sentou perante Rabi Yochanan, A respeito de cada questão que Rabi Yochanan dizia, Rabi Elazar ben Pedat dizia a ele: Há uma regra que é ensinada numa baraita que apóia sua opinião.

Rabi Yochanan disse a ele: Você é comparável a ben Lakish? Nas minhas discussões com ben Lakish, quando eu declarava um assunto, ele levantava vinte e quatro dificuldades contra mim numa tentativa de desaprovar minha alegação, e eu respondia a ele com vinte e quatro respostas, e a lei por si mesma se tornava ampliada e esclarecida. E ainda você me diz: “Há uma regra que é ensinada numa baraita que apóia sua opinião.” Eu não sei que aquilo que digo é bom?

Estude Torá Numa Yeshivá

Se você consegue reservar algumas semanas de férias do trabalho ou escolar, passe-as numa yeshivá. Como dizia Hilel: “Não diga ‘Quando eu tiver tempo livre, irei estudar.’ Porque talvez você nunca terá o tempo.”

Poucas semanas, meses, ou até um ano na yeshivá será provavelmente o melhor investimento que fará. Ficará mergulhado num ambiente de vibrante debate, rápido questionamento instigante, e um espírito vivo de Torá eterna.