Nessa semana aprendemos sobre o dilúvio que quase destruiu o mundo inteiro há cerca de 4 mil anos atrás. De acordo com algumas opiniões, o dilúvio foi mais do que simplesmente uma punição, foi o meio encontrado por D’us para alterar e purificar a consciência humana e fazer um ‘novo mundo’ onde as pessoas quisessem viver somente com a verdade.

Por que foi necessária tamanha catástrofe? Por que D’us não podia simplesmente mudar totalmente os genes de toda aquela geração perversa e não afogar todos eles?

Para entender aqui está uma história.

George era um vigilante bancário em Tel Aviv. Ele não era realmente um judeu observante... de fato, além de Rosh Hashanah e Yom Kipur e alguns poucos rituais ocasionais, ele agia como qualquer outra pessoa, mas era um guarda excelente.

Seu trabalho consistia em ficar de pé na frente do grande portão que levava ao depósito de cofres do banco e admitir naquela área reservada somente aqueles que lhe dessem nome e código numérico autorizado. Só então ele dava a chave para abrir a porta de cada cofre particular. O que cada cliente fazia naquela sala era assunto particular, mas ele percebia algumas curiosidades.

Por exemplo, tinha um senhor de idade judeu muito simples que aparecia toda tarde bem antes do fechamento com um saco desgrenhado. Todo dia era a mesma coisa, ele dava seu número, entrava na sala, colocava o saco no seu cofre e saía. Então todo dia de manhã ele voltava, dava seu código e pegava o saco de volta.

George ficava perturbado com esse estranho padrão de comportamento: o que realmente aquele senhor fazia não era da sua conta, mas finalmente um dia ele descobriu a verdade. Lá estava ele, sentado num banco na calçada movimentada com uma lata na sua frente pedindo dinheiro. É isso, aquele pobre senhor era um mendigo.

Agora George entendia o que estava acontecendo, provavelmente de tardinha aquele senhor trazia o ganho do dia para o banco e no dia seguinte pegava para gastar. Não era realmente importante, mas ele se sentiu bem de ter resolvido o mistério. Ou pelo menos foi o que pensou por vários anos… Até a greve.

Os funcionários do banco pediram aumento e quando não foi concedido, fizeram greve e piquetes na frente das agências. George estava dormindo, ele tinha pensado em usar o dia livre para recuperar um pouco do sono quando a campainha de sua casa soou. Ele tentou ignorar, mas a campainha não parou de tocar. Sua esposa gritou: ‘George, é alguém para você. Ele está dizendo que é urgente.’ “Urgente? Para mim?” George pulou da cama e foi até a porta... mas, uau, era o velho mendigo!

“Desculpe-me.” Falou o intruso com um sotaque europeu carregado, “sinto muito perturbá-lo, mas preciso entrar no banco, isto é, na sala do meu cofre. Por favor, é muito importante para mim. Estou disposto a pagar por isso.”

George tentou explicar que era impossível. Ele não tinha as chaves para entrar no banco e, mesmo se tivesse... estavam em greve, ninguém podia entrar.

Quem sabe amanhã. De qualquer modo ele não precisava se preocupar, pois seu dinheiro estava seguro, ninguém poderia pegá-lo. Mas isso não funcionou.

“Dinheiro?” O velho senhor disse. “Não é dinheiro. Eu te dou dinheiro. Não quero dinheiro... somente aquele saco, preciso pegá-lo a todo custo. Por favor, me faça somente esse favor.”

George ficou confuso, se não tinha dinheiro naquele saco... então o que tinha? Ele olhou para aqueles olhos lamuriantes e algo dentro dele se partiu. Ele tentou ler o que aqueles olhos estavam dizendo, baixou a voz e disse. “O que está naquele saco?”
“Meus Tefilin.” Ele respondeu. “São meus Tefilin.”
“Tefilin?!” George exclamou. “Tenho certeza que o senhor pode conseguir Tefilin por alguns dias noutro lugar. Escute, tenho certeza que a greve não durará muito. Sabe o que, até lhe ajudarei, conheço alguns judeus religiosos. Sente-se aqui.”

“Não, o senhor não entende.” Os olhos daquele homem estavam vermelhos. Ele se abaixou e disse baixinho como se estivesse para contar um segredo terrível.

“Esses são os meus Tefilin dos campos de concentração.”

“Mas escute...” George tentou protestar. Isso tudo parecia absurdo. Não tinha jeito de entrar no banco. Ele teria que ligar para o presidente do banco, conseguir as chaves, furar o piquete, passar pelos procedimentos de segurança... seria uma loucura!

Mas ele não tinha como fugir dos olhos daquele senhor.

“Escute, sei que o senhor me ajudará.” Falou o velhinho. “Só você pode me ajudar. Lhe contarei que Tefilin são esses e então o senhor decidirá.

“Os alemães mataram toda a minha família, todos. Minha esposa e filhos. Meus amigos, meus pais. Todos mortos. Só eu sobrevivi em Auschwitz. E eu ainda tinha meus Tefilin. Todos os dias os colocava. Eu até os colocava em outros judeus, mas nunca deixava de tê-lo comigo, ao meu alcance. Eu ainda acreditava em D’us. Eu dizia para mim mesmo que tudo era somente um presente, um presente que D’us deu livremente e simplesmente o retirou. Mas meus Tefilin, ninguém poderia tirá-los.

“Então num dia um jovem, um jovem religioso, magro, sujo e quase morto, como todos aqueles no campo, veio correndo até mim dizendo que o sagrado Reb Yoel, o Rebe de Satmer estava para ser libertado de Auschwitz e de algum modo perdeu seus Tefilin. Ele me implorou para deixar o Rebe usar meus Tefilin e prometeu que o próprio Rebe disse que os devolveria em quinze minutos. Eu não podia lhe recusar.

“Então emprestei-lhe meus Tefilin, mas cinco minutos depois um bando de guardas da Gestapo apareceu com outros soldados e disseram para que eu os seguisse. Eu tinha certeza que me matariam e achei que tive sorte que o Rebe tinha ficado com meus Tefilin. Mas eles não me mataram. Eles me colocaram junto com outros num caminhão e nos levaram a outro campo onde precisavam de trabalhadores e lá fiquei o resto da guerra até que os russos vieram e nos libertaram. Depois de alguns anos vim para Israel, mas não consegui trabalho. Fiquei perturbado com a experiência nos campos, sofro de surtos e todos os meses tenho uma crise depressiva e vou parar no hospital. De qualquer modo, mais ou menos dez anos depois eu estava no hospital muito mal, muito doente, e uma enfermeira veio com alguns Chassidim, de Satmer. Eles perguntaram meu nome e se eu era a pessoa que tinha emprestado meus Tefilin para o Rebe no campo. No começo eu nem lembrava, mas depois que falaram me voltou a memória.

“Um deles me contou que ele também estava lá e quando o Reb Yoel tinha terminado de colocar os Tefilin e lhe enviado de volta, eu não estava mais lá. Ele se sentiu muito mal e me procurou todos esses anos. Então esses Chassidim decidiram cuidar de mim e quando fiquei melhor e saí do hospital, me compraram uma passagem de primeira classe para ir a Nova York, pois o Rebe queria me ver. Que pessoa sagrada! E quando me viu nos abraçamos e choramos como crianças, como crianças!

“Ele devolveu-me o saco dos meus velhos Tefilin e me disse que depois que saiu do campo os levou junto consigo e os mandou revisar e de vez em quando os colocava. O senhor entende isso? De vez em quando o sagrado Rede de Satmer colocava os meus Tefilin! Ele disse que não sabia se eu estava vivo ou morto, então ele os colocava. Ora, quando ouvi isso, decidi que colocaria Tefilin todos os dias. E cumpri o que prometi. Por isso preciso entrar lá hoje, é muito importante para mim.”

George enxugou seus olhos e foi ao trabalho. Não foi fácil, mas naquela manhã conseguiu recuperar os Tefilin daquele senhor no Banco.

Alguns anos depois aquele senhor parou de vir e George descobriu que ele estava doente, no hospital, e foi visitá-lo várias vezes. Em sua última visita o velhinho lhe contou um segredo. “Sabe o que faço com o dinheiro que ganho? Vou juntando e compro Tefilin para as crianças que não têm dinheiro suficiente para comprá-los.”

George conta que uma semana depois ele faleceu e os Chassidim Satmer cuidaram completamente de seu funeral. 

“Alguns meses depois recebi uma carta de um advogado relatando que meu amigo tinha me deixado sua herança: seus Tefilin e todo o seu dinheiro. Não revelarei o valor, mas era bastante dinheiro, acredito que tornei-me toda a família que ele possuía. De qualquer modo decidi não tocar no dinheiro e deixá-lo no banco, usando os juros para continuar o que ele fazia: comprar Tefilin para os jovens necessitados. Tenho certeza que era o que ele queria!”

Isso responde as nossas perguntas: é verdade que D’us pode fazer o que quiser? Mas o motivo pelo qual Ele criou o mundo foi para que o ser humano pudesse usar seu livre arbítrio e escolher a vontade Divina, mesmo contra todos os obstáculos. Ele desejava que a geração de Noach se torna-se um verdadeiro exemplo para todas as gerações futuras; assim como o herói de nossa história foi para George. Ele continuou a servir o Criador mesmo através de toda a escuridão do Holocausto, apesar do desespero e tragédia em sua alma.

Noach saiu da arca e encontrou um novo mundo em volta dele.
Temos que fazer a nossa parte na revelação desse novo mundo de paz agora.