Pois a inclinação do coração humano é o mal, desde a sua juventude. - Versículo 8:21

O "espertinho" aninhado no lado esquerdo do coração do homem, escreveu Rabi Yossef Yitschac de Lubavitch a um chassid, tem muitos disfarces. Às vezes pode mesmo aparecer numa túnica de seda e shtreiml… Rabi Yossef Yitschac continua, provando seu ponto de vista com a seguinte história:Rabi Menachem Nachun, Rebe de Chernobyl, era muito pobre e sofria muita pressão para alimentar sua família. Certo dia, um chassid aproximou-se e deu-lhe de presente 300 rublos.
Tanto a família do Rebe como o secretário que o servia e cuidava de seus assuntos ficaram extremamente aliviados. Finalmente poderiam ter um alívio das pesadas dívidas de pão, carne, peixe e outras premente necessidades domésticas.

Depois que o chassid portador do presente deixou a sala do Rebe, Rabi Menachem Nachun continuou a receber seus chassidim, até que fez uma pausa para as preces de minchá e maariv, respectivamente, da tarde e da noite. Após maariv, o Rebe isolou-se em sua sala, preocupado com algum assunto pessoal. Após um longo tempo, finalmente abriu a porta e pediu que um determinado chassid – um daqueles que recebera antes – fosse chamado de volta.

Depois que o chassid saiu, o rebe continuou a receber seus visitantes até tarde da noite. Quando o último para a audiência já havia saído, o secretário do Rebe entrou para pedir dinheiro para despesas que se faziam necessárias. Sabendo da doação de 300 rublos, e confiante na sua capacidade de agora saldar pelo menos parte das dívidas, ele já havia feito uma lista detalhada do quanto caberia a cada credor.

Rabi Menachem Nachum abriu a gaveta na qual guardara o dinheiro maamad, referente ao que os chassidim lhe traziam para suas despesas pessoais. Havia os fundos pidyon, chamado assim por ser dinheiro trazido a ele destinado para caridade e que eram mantidos em uma gaveta separada para prevenir qualquer possibilidade de misturá-los.

O secretário do Rebe viu uma gaveta repleta de moedas de cobre com algumas de prata misturadas. Quanto às cédulas de rublo, nem sinal.

O Rebe disse-lhe para pegar o conteúdo da gaveta maamad. O secretário contou a prata e o cobre, dentre os quais descobriu também três moedas de ouro. Juntas totalizavam 100 rublos.
O secretário lá ficou, incapaz de dizer uma palavra. Não desejava levantar o assunto dos trezentos rublos, mas o fato de que seria incapaz de saldar ao menos parcialmente as dívidas do Rebe apertava seu coração.

O Rebe percebeu seu desgosto e lhe disse: "Por que está tão aborrecido? Aquele que provê o pão para todos enviou-nos, em Sua infinita bondade, um presente imerecido. De muito longe, muitos de nossos irmãos – que eles vivam – trabalharam e lutaram para juntar e nos trazer esta soma."

O secretário era de fato um homem que merecia gozar da privacidade do Rebe de Chernobyl. Mesmo assim, não pôde mais se conter, pois as dívidas pesadas e a terrível pobreza que assolava a casa do Rebe o entristeciam profundamente. Como se por si mesmas, as palavras saíram de seu coração angustiado: "Mas onde estão os 300 rublos que foram trazidos? Junto com o que temos aqui, poderemos pagar parte daquilo que é devido…"

"Certo," disse o Rebe, "trouxeram-me 300 rublos. No momento em que os recebi, refleti: por que mereço uma soma tão grande? Então fiquei contente ao pensar que fora abençoado pelo Todo Poderoso, pois Ele tinha escolhido prover-me o sustento, para mim e para meus familiares de maneira tão abundante e honrosa. Mas quando pensei mais profundamente, fiquei muito agoniado: talvez eu estivesse recebendo este dinheiro no lugar de algum dom espiritual?

"Mais tarde, um dos chassidim que vieram para ver-me abriu seu coração desgostoso. Durante o ano que passou, não conseguiu pagar o professor de seus filhos, um homem muito pobre mas temente a D'us que continua a ensinar as crianças na esperança de receber algum dia. Este chassid já deve oito meses de aluguel pelo moinho e estalagem que aluga, e o dono da propriedade certamente vai despejá-lo em breve. E como se não bastasse tudo isso, arranjou um casamento para a filha mais velha e nada tem para o dote.

"Quando ouvi isso, ocorreu-me que talvez o Todo Poderoso tenha me dado o privilégio de ser um administrador da caridade. Talvez esta grande quantia me tenha sido confiada para que eu possa merecer mitsvot tão nobres como as de educar crianças, salvar o ganha-pão de toda a família e ainda casar uma noiva judia. Perguntei ao chassid a quanto montavam seus débitos e as despesas para o casamento e descobri que era a soma exata – 300 rublos!

"Entretanto, assim que decidi dar os 300 rublos a este chassid, me veio à mente outro pensamento: é certo dar toda esta soma a um único indivíduo? Pois veja bem, com tal quantia, a pessoa pode sustentar, no mínimo, seis famílias inteiras!

"Vi-me num dilema, pois ambas as opções – dar toda a quantia a apenas um chassid, ou dividi-la entre várias famílias necessitadas – pareceu-me justo e correto. Não podia me decidir entre elas, então tranquei minha porta a fim de meditar sobre o assunto e chegar à uma conclusão.

"Após meditar, vim a reconhecer que estas duas opiniões vinham dos dois 'juízes' dentro de mim, a 'boa inclinação' e a 'má inclinação', e que o argumento de dividir a soma entre várias famílias definitivamente não vinha de minha 'boa inclinação.' Pois se essa fosse minha boa inclinação falando, por que não falava imediatamente? Assim que recebi o dinheiro, deveria ter dito logo: 'Nachun, 300 rublos foram trazidos a você. Pegue o dinheiro e o divida em seis partes. Distribua cinco partes a famílias necessitadas e use a sexta para si mesmo.' Mas não, esta voz falou dentro de mim apenas após eu ter decidido doar toda a quantia.

"Isto o denunciou. Quando assumi a princípio que toda a soma era para mim, ele ficou em silêncio. Não admira: ele estava perfeitamente satisfeito com minha decisão. Apenas após o Todo Poderoso ter-me concedido o privilégio de perceber por que eu recebera este dinheiro, foi que ele acordou.
"Obviamente, não disse: 'Fique com o dinheiro!' – Oh, não, ele é esperto demais para isso – ele sabia que eu reconhecera a fonte de tal desejo e o rejeitaria imediatamente. Então ele, o mestre da astúcia, vem com uma sugestão profundamente lógica – qualquer coisa para impedir-me de agir no papel que a Divina Providência tão claramente designou para que eu desempenhasse para livrar uma família do sofrimento.

"Por isso, chamei o chassid de volta e entreguei-lhe os 300 rublos."