(Adaptado de Likutei Sichos, Vol. III, p. 896ff; Vol. XVI, p. 242ff; Sefer HaSichos 5749, p. 243ff)

Quando o Mundo Parou

Quando D'us deu a Torá, “Houve trovões e relâmpagos e uma nuvem espessa sobre a montanha... o Monte Sinai estava envolto em fumaça... toda a montanha tremia violentamente”1. “E todo o povo viu os sons, as chamas, o toque do shofar, e a fumaça que saía da montanha. E todo o povo tremeu, e ficou longe”2.

Muito mais intensa que estes fenômenos físicos foi a força da voz de D'us. E assim, ao ouvirem os Dez Mandamentos, as “almas das pessoas fugiram”3. Além disso, os efeitos desta revelação reverberaram por todo o mundo. “Nenhum pássaro cantou... nenhum boi bramiu, nem o mar rugiu”4. O silêncio reinou enquanto D'us falava.

Depois de descrever uma experiência superabrangente como esta, poderíamos pensar que a Torá continuaria com uma discussão de assuntos que refletissem tal autotranscendência. Em vez disso, a Torá continua5: “E estas sãos as leis”.

Qual é a dificuldade? Nossos Sábios6 dividem as mitsvot em três categorias gerais:

a) Mishpatim (literalmente “julgamentos”) – aquelas mitsvot que também são ditadas pela razão, tais como as proibições contra o roubo e o assassinato. Mesmo se a Torá não tivesse sido dada, D'us nos livre, nós provavelmente teríamos instituído leis desta natureza7.

b) Edut (lit., “testemunhos”) – mitsvot comemorativas; por exemplo, respeitar o Shabat e comer matsá em Pêssach, o que nos permite reviver os eventos da história e captar mais facilmente seu significado espiritual.

c) Chukim (lit., “decretos”) – mitsvot que são suprarracionais, que são “um decreto Meu, [que] vocês não têm permissão de questionar”8.

Provavelmente, a outorga da Torá deveria ter sido seguida pelos chukim, pois sua natureza suprarracional reflete os sentimentos espirituais despertados no Monte Sinai. Por que, então, a Torá continua com leis que poderiam (aparentemente) ser postuladas pela razão, em paralelo ao que existe em toda sociedade civilizada?

Avançar, Não Retroceder

Esta questão pode ser resolvida com base em uma questão de gramática hebraica. Rashi declara9:

Sempre que [a Torá] usa o termo Eile (“Estas são”), ela nega o que foi dito anteriormente. Sempre que ela usa o termo V’eile (“E estas são”), ela adiciona ao que foi mencionado anteriormente. Assim como aquelas mencionadas inicialmente (os Dez Mandamentos) [foram reveladas] no Sinai, também estas (as leis da Parashá Mishpatim) [foram reveladas] no Sinai.

Rashi está enfatizando que os julgamentos que são objetos de nossa leitura da Torá não são um desvio da revelação do Monte Sinai, mas uma consequência natural dela. A Torá é mais do que espiritualidade transcendental. Ao contrário, o principal impulso da entrega da Torá é o revestimento da vontade e da sabedoria de D'us em conceitos que os mortais podem entender10. Quando alguém estuda a Torá, ele está entendendo a Divindade e unindo sua mente com a de D'us. Pois a compreensão intelectual envolve o estabelecimento de uma ligação entre nossa mente e o conceito sob consideração. De fato, tal ligação é mais completamente estabelecida no estudo daquelas dimensões da Torá que se relacionam aos assuntos mundanos, pois estas são ideias que o intelecto humano pode compreender completamente11.

Cumprindo o Objetivo de D'us

A Entrega da Torá completa o objetivo da criação. D'us criou toda a existência porque Ele desejava um local de moradia nos mundos inferiores12. O objetivo da criação é, assim, não a revelação do poder transcendental de D'us, mas que as entidades mundanas como elas existem sejam permeadas pela verdade de Seu Ser.

Isto é conseguido através das mishpatim da Torá. Elas comunicam a Divindade em relação às vidas cotidianas dos mortais13. A compreensão destas leis traz Divindade à mente de cada pessoa, tornando-a uma “moradia para D'us”. E a aplicação destas leis cria uma sociedade que permite ao homem atingir objetivos espirituais em paz e satisfazer suas necessidades materiais com retidão – estabelecendo uma “moradia para D'us” no mais completo sentido.

De Volta ao Sinai

A Parashá Mishpatim conclui com uma descrição de alguns detalhes da entrega da Torá14, incluindo a declaração naassê ve nishmá (“Faremos e ouviremos”), que representa a declaração máxima da fé. Mesmo antes que nos tivesse sido dito o que fazer, nós prometemos obedecer.

Isto complementa a lição de Mishpatim15. Depois que alguém tenha sido capaz de internalizar a Divindade através do estudo e da aplicação das leis da Torá, ele está preparado para vivenciar dimensões de Divindade que transcendem a compreensão humana – o coração da experiência do Sinai.

O estudo e a prática refinam a personalidade, tornando possível para a dimensão infinita da Torá apagar qualquer separação que possa existir entre seu ego e sua fé.

Sabendo, e Não Sabendo

O que foi dito acima permite uma interpretação mais extensa de uma famosa declaração de nossos Sábios 16: “O máximo do conhecimento não é conhecer a Ti”. O significado simples desta declaração é que uma pessoa deve perceber os limites de seu intelecto e, portanto, entender que é impossível conhecer D'us, pois Ele transcende todos os limites. Há, entretanto, uma alusão ao conceito de que quando uma pessoa tenha desenvolvido por completo sua mente, ela percebe que mesmo os conceitos que ela conhece possuem uma dimensão interior que transcende o intelecto17. E, indo além, nós podemos inferir dimensões de D'us que são infinitas, internalizando este conhecimento a ponto em que ele molda nossas personalidades18.

O conhecimento de D’us desta maneira antecipa e precipita a vinda da Redenção, a era em que “Um homem não mais ensinará seu amigo.., pois todos Me conhecerão, do pequeno ao grande”19.