A mulher no ônibus fez sinal para eu me sentar perto dela. Ela vestia uma blusa preta simples e um xale. As pernas estavam cobertas com meias longas por debaixo da saia. Eu não tinha ideia de sua idade. Ela sorriu alegremente para mim. Seu sorriso era contagioso. A mulher não conseguia conter seu entusiasmo e deixei meu livro de lado para ouvir. Ela abriu a mão para eu ver o que estava segurando.

“Meu filho me enviou estes aqui!” Eram vales-compra para o supermercado. “Acabo de recebê-los e logo peguei o ônibus para fazer compras para o Shabat Kodesh (o Sagrado Shabat).”

Vales para o supermercado. A mulher estava sorrindo de orelha a orelha porque agora tinha o que precisava para comprar comida e honrar o Shabat.

Simplicidade. Sinceridade.

Levei meus filhos à loja de brinquedos. Era aniversário da minha filha e quando um deles recebe um presente o outro também ganha um. Prendi a respiração quando entramos.

Como eu gostaria de comprar para eles qualquer coisa que desejassem; toquei minha carteira dentro do bolso e sabia que estava quase vazia, exceto por alguns poucos dólares. Passamos pelos brinquedos eletrônicos, as lindas bicicletas, as casas de bonecas e pelos brinquedos que podem andar e falar. Chegamos ao fundo da loja e eu disse a eles para pegarem tudo que quisessem. Cada um pegou um pacote de bolas de gude, 75 centavos, e um relógio de 2 dólares. Elogiei os dois pelas excelentes escolhas. Passaram horas brincando com as fascinantes bolas de gude.

Bolas que não precisam de baterias e não fazem barulho nem acendem luzes. Meus filhos estavam encantados com os presentes que custaram à mamãe apenas uns poucos dólares.

Simplicidade. Sinceridade.

À nossa mesa havia uma mistura internacional no Shabat passado. Geralmente fala-se um idioma em comum, inglês ou hebraico, entre nossos convidados, mas dessa vez meu marido e eu tivemos de nos comunicar em três idiomas. A certa altura ficou um pouco complicado; tentamos agradar a todos e fazer cada um entender a conversa, e ninguém estava prestando atenção.

Um dos convidados, cantor profissional, levantou-se e pegou um livro de canções. Abriu a boca e começou a cantar. De repente instalou-se uma harmonia e todos, incluindo minha filha de dois anos que mal fala uma frase, juntaram-se a ele, cantando, acompanhando e batendo palmas. Quando não há palavras em comum e ocorre uma falta de entendimento, sempre há a profunda simplicidade da música.

Sinceridade. Sinceridade.

Meus alunos me perguntam por que eu sempre pareço feliz. Meus amigos me perguntam qual o segredo da radiância que, graças a D'us, emana do rosto de meus filhos. A resposta é simples. Trata-se de simplicidade. Trata-se de sinceridade.

O Baal Shem Tov, fundador do Movimento Chabad, tinha um discípulo muito querido. Um dia, o homem chegou à presença do Baal Shem Tov pretendendo pedir-lhe um favor. Ficou decepcionado pela fria recepção que teve. O Baal Shem Tov estava para partir em viagem e convidou-o a ir junto, embora ainda mantendo a distância.

Durante o percurso, na carruagem, o Baal Shem Tov de repente quebrou os silêncio:

“Acha que não sei por que veio me ver?”

O homem começou a tremer, sentindo que o mestre estava lendo sua mente.

“Veio pedir-me para ensinar a você a linguagem dos pássaros, não é?”

O discípulo acenou confirmando. O Baal Shem Tov então começou a ensinar a ele as chaves para essa ciência secreta. Em pouco tempo, o homem começou a entender o chilrear das aves na floresta pela qual estavam passando. Ouvia tudo, incluindo os grandes segredos e anúncios sobre o futuro.

De repente, quando estavam chegando ao fim da jornada, o Baal Shem Tov passou a mão sobre o rosto do aluno. O homem imediatamente esqueceu tudo que tinha ouvido e não pôde mais entender a linguagem dos pássaros.

O Baal Shem Tov então disse a ele:

“Se eu tivesse achado que você precisava deste conhecimento para servir ao Todo Poderoso, teria ensinado há você tempos atrás. Mas não é este o caso, você deve servir a D'us com os meios que já possui e ser simples com o Todo Poderoso, seu D'us.”

Simplicidade. Sinceridade.

Vivemos num mundo em que todos pensam que se você não tem um título antes ou depois do seu nome é um “ninguém”. Vivemos num mundo em que se você não possui o celular mais moderno, computador ou acessório eletrônico, então você está “por fora”.

Pois fique sabendo, o título, o objeto, o dinheiro – eles não compram felicidade. Como diz o famoso ditado, quando você tem um vai querer dois; quando tem dez vai querer vinte. Olho para meu dedo, para minha joia mais preciosa, a aliança simples de ouro que meu marido me deu.

Simplicidade. Sinceridade.
Pois é com um coração simples, sincero e puro que podemos não apenas atingir os graus mais intensos de proximidade com o outro, mas também com nosso Criador. Para atingir o nível espiritual mais elevado, a pessoa deve se concentrar no brilho que há na simplicidade e sinceridade da conexão. Como nos ensina a nossa Torá, se você quer estar com seu D'us, seja tamim, sincero, com Ele. (Bereshit 17:1)