Boris Trost, agora com mais de 90 anos, nasceu em Ribnitz (Rîbnița), Moldávia, então parte da União Soviética. Seu pai, um sapateiro, trabalhava arduamente para sustentar a esposa e os quatro filhos. Apesar dos esforços soviéticos para erradicar a vida religiosa, a família ainda tentava preservar as tradições judaicas. Eles garantiram que seus filhos fossem circuncidados e observavam Pessach e outros feriados judaicos. Boris se lembra de comer matsá em Ribnitz antes do Holocausto.

Em 1941, quando Boris ainda não tinha seis anos, sua família foi forçada a se mudar para o gueto superlotado junto com o resto dos judeus da cidade. É difícil imaginar o que o jovem Boris sofreu. Cercado pela fome, pelo medo e pelos horrores da guerra, ele testemunhou a morte de seus quatro avós.

Amado e Reverenciado

Foi ali, no gueto, que Boris observou pela primeira vez Reb Chaim Zanvil Abramowitz, conhecido como o Rebe de Ribnitzer.

O Rebe de Ribnitzer, lembrado e reverenciado por seu ascetismo, milagres e profundos atos de bondade, nasceu em Botoșani, Romênia, em 1902, e faleceu em 1995 em Nova York. Órfão desde jovem e criado por Rav Yehudah Aryeh Leib Franke,l de Botoșani, o jovem Chaim Zanvil aprendeu o significado de compaixão e empatia ainda na infância.

“As pessoas se aglomeravam ao seu redor”, recorda Boris. “Ele era amado e reverenciado.”

O Rebe de Ribnitzer - Mordechai Ben David
O Rebe de Ribnitzer
Mordechai Ben David

Uma lembrança em particular do gueto acompanhou Boris por toda a vida. Respeitado por todos, o rabino geralmente era dispensado do trabalho forçado. “Lembro-me de um dia em que o rabino também foi obrigado a trabalhar. Todos comentaram sobre isso. Acho que foi apenas por um dia, e ele não foi obrigado a trabalhar novamente depois disso. Ele retornou às suas atividades espirituais e todos ficaram aliviados.” Boris se lembra vividamente de 18 de março de 1944, quando os nazistas, em retirada diante do avanço dos russos, invadiram sua casa. Boris e sua irmã foram colocados contra a parede. Um dos nazistas apontou uma arma para eles, mas um senhor judeu que os nazistas haviam arrastado para dentro caiu de joelhos, chorando e implorando aos soldados que não matassem as crianças.

Milagrosamente, o alemão abriu a porta e deixou Boris e sua irmã irem embora. Até hoje, ele atribui sua sobrevivência ao mérito do Rabino de Ribnitzer.

O Primeiro Encontro

Após a guerra, Boris matriculou-se na escola. As crianças chegavam descalças e famintas. Entre as aulas, a professora distribuía pequenos pedaços de pão. “Como esperávamos por essas guloseimas!”, recorda. “Estávamos sempre com fome.”

Seus dias giravam em torno de filas para receber pequenas porções de alimentos básicos e escassos. “Era uma atividade que durava a noite toda”, explica Boris. “As pessoas ficavam na fila da noite até o amanhecer só para comprar um único pão.”

Com tão pouco para comer, eles se sentiam gratos por morar perto do rio Dniester, a poucos minutos de caminhada das casas judaicas, onde as pessoas pescavam e tomavam banho no verão.

Certo dia no ano de 1944, enquanto esperava na fila para comprar pão que Boris interagiu pela primeira vez com o Rebe de Ribnitzer.

“Lembro-me de que Reb Chaim Zanvil me viu na fila e me pediu para acompanhá-lo até o rio”, recorda.

“Caminhamos cerca de dez minutos até o Dniestre. Estava frio, e fiquei surpreso ao vê-lo tirar a roupa e entrar no rio com água até o peito. Ele me pediu para contar e garantir que mergulhasse um certo número de vezes. Aparentemente, outros meninos encarregados de contar às vezes faziam brincadeiras e diziam ao Rebe Chaim Zanvil o número errado de imersões. Entendi que era importante contar honestamente, e isso se tornou meu compromisso diário. Por cerca de dois anos, íamos duas vezes por dia ao rio, mesmo nos dias mais frios do inverno. Eu ficava à beira do rio contando, de manhã e à noite.”

Como uma criança soviética, Boris não conseguia compreender totalmente a magnitude da dedicação do Rebe, mas seu instinto lhe dizia que aquele era um homem especial e santo. Essas duas viagens diárias ao rio proporcionavam a Boris uma sensação de rotina e uma maneira de redirecionar sua dor. Ele descobriu que ajudar os outros podia ser curativo.

Percebendo que o Rebe Chaim Zanvil continuava a contar com sua ajuda por causa de sua honestidade, Boris adotou a verdade e a honestidade como os princípios que norteavam sua vida. ... Em 1954, antes de Boris ser convocado para o Exército Soviético, o Rebe de Ribnitzer foi à sua casa e o abençoou, desejando-lhe um retorno seguro.

“Imagine o quão especial me senti ao ver Reb Chaim Zanvil vir à nossa casa para se despedir antes de eu ser levado para o exército. Ele disse em iídiche: ‘Fur guezunterheit, un kum tsurik guezunt — vá com saúde e volte com saúde’”.

Boris no exército soviético, meados da década de 1950.
Boris no exército soviético, meados da década de 1950.

Três anos depois, em 1957, quando Boris voltou para casa, o Rebe estava lá para recebê-lo. Foi então que Boris e Reb Chaim Zanvil se separaram.

Dois Caminhos Durante seu serviço militar, Boris tornou-se motorista e mecânico habilitado. Ainda jovem, trabalhou em um emprego perigoso, enchendo barris com gasolina. Ele precisava soprar em um cano para iniciar o processo de bombeamento e, frequentemente, a gasolina entrava em sua boca. Ele sabia que não era saudável, mas precisava desse emprego para ajudar a sustentar seus pais e irmãos, cuja saúde havia sido devastada pela guerra.

Subindo degrau em degrau, Boris acabou se tornando gerente de uma concessionária Ribnitz, responsável por mais de 1.000 carros. Em 1959, Boris casou-se com Klara e juntos criaram dois filhos.

Boris, Klara, e seus dois filhos.
Boris, Klara, e seus dois filhos.

Boris acredita que o sucesso de sua vida veio de uma bênção que recebeu de Reb Chaim Zanvil.

O Rebe permaneceu na União Soviética até 1970, atuando como shochet e mohel, prestando serviços essenciais ao povo judeu, mesmo com a estrita proibição dessas práticas pelos soviéticos.

Embora Boris tenha perdido contato com o Rebe, que eventualmente deixou a União Soviética rumo a Israel e depois a Nova York, em certo momento ele recebeu uma visita inesperada da segunda esposa do Rebe de Ribnitz, a Rebetsin Freida Milka Abramowitz, que havia viajado a Ribnitz em busca de detalhes sobre a vida do Rebe. Ela mostrou a Boris uma fotografia do Rebe, e Boris sentiu orgulho de poder mostrar a ela onde o Rebe havia vivido, orado e se banhado no rio.

Fechando o Círculo

Boris e sua família imigraram para os Estados Unidos em 2014 e se estabeleceram na Filadélfia. Recentemente, ele conheceu Akiva Gavrilin, um judeu de língua russa, que se ofereceu para levá-lo ao local de descanso do Rebe de Ribnitz em Monsey, Nova York.

Em maio de 2026, quase 70 anos após o último encontro, Boris prestou suas homenagens a Reb Chaim Zanvil mais uma vez. Ele ficou surpreso e admirado ao ver as muitas mensagens deixadas no túmulo e que mesmo na América as pessoas ainda buscassem as bênçãos de seu herói de infância.

Boris visita o túmulo do Rebe de Ribnitz em Nova York, 70 anos após o último encontro entre eles.
Boris visita o túmulo do Rebe de Ribnitz em Nova York, 70 anos após o último encontro entre eles.

O Rabino Gavrilin levou Boris à sinagoga próxima ao cemitério, onde ele realizou a mitsvá de colocar tefilin pela primeira vez na vida. Boris acolheu este momento especial como mais um presente de Reb Chaim Zanvil.

“Sempre senti muito amor por Reb Chaim Zanvil. Ele era uma pessoa bondosa. As pessoas o amavam porque ele as fazia se sentir importantes. Tive uma boa vida. Vivi com minha esposa por 66 anos antes dela falecer no ano passado. Sou independente aos 90 anos e tenho uma família linda, e sinto que esta é a bênção que mereci por causa do meu relacionamento com Reb Chaim Zanvil.”

Que a memória de Reb Chaim Zanvil ben Moshe seja uma bênção para toda a nação judaica.

Boris coloca tefilin pela primeira vez na vida aos 90 anos.
Boris coloca tefilin pela primeira vez na vida aos 90 anos.