A história dos judeus russos é longa e rica. Desde os tempos czaristas, passando pelo comunismo, até a era moderna, os judeus da Rússia vivenciaram tudo e não apenas sobreviveram, como prosperaram.

Continue lendo para descobrir 17 fatos sobre uma das maiores e mais famosas comunidades judaicas do mundo.

1. Judeus vivem há mais de mil anos

Judeus vivem em partes do que hoje é a Rússia há pelo menos 1.000 anos. De fato, um estudioso talmúdico chamado Rabi Moshe, aluno do famoso Rabeinu Tam, viveu no antigo estado russo de Rus de Kiev já em 1150. Mesmo assim, até o século 18, provavelmente havia menos de 100.000 judeus em todo o país.1

2. Absorveu um milhão de judeus poloneses e lituanos

A demografia mudou drasticamente no século 18, graças às partições da República das Duas Nações (Polônia-Lituânia) pelas potências vizinhas da Prússia, Áustria e Rússia. Da noite para o dia, mais de um milhão de judeus se viram sob o domínio dos czares russos e suas políticas profundamente repressivas.

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3. A Zona de Assentamento era um gueto em grande escala

Diante dessa grande nova população judaica, a czarina Catarina, a Grande, restringiu os judeus a uma área designada conhecida como Zona de Assentamento, compreendendo 25 distritos ao longo da antiga fronteira russo-polonesa. Mesmo dentro da Zona, os judeus em áreas rurais foram forçados a abandonar suas casas e meios de subsistência e a se aglomerar nas cidades. Impedidos de exercer muitas profissões, um grande número foi reduzido à extrema pobreza.

4. Napoleão trouxe esperança... e preocupação

A tão alardeada travessia do rio Niemen, na abertura da campanha em 1812, por Napoleão Bonaparte. - Waterloo Clark
A tão alardeada travessia do rio Niemen, na abertura da campanha em 1812, por Napoleão Bonaparte.
Waterloo Clark

Quando o Grande Exército de Napoleão invadiu a Rússia em 1812, muitos judeus se alegraram, esperando que a conquista francesa os libertasse da opressão czarista. Outros, no entanto, foram mais cautelosos. Eles previram que a emancipação francesa e o espírito ímpio da Revolução Francesa trariam um tipo diferente de perigo: a assimilação e o abandono da vida judaica.

O rabino Schneur Zalman de Liadi, fundador do Chassidismo Chabad, acreditava que mesmo os ganhos materiais prometidos pelo governo de Napoleão seriam de curta duração. A possibilidade de uma vitória francesa, escreveu ele, era “uma grande angústia para os judeus, pois nenhum permanecerá firme em seu judaísmo, nem conservará seus bens”.

Por fim, o rabino Schneur Zalman previu que a crença absoluta do imperador em sua proeza militar seria a raiz de sua queda. Ele chegou a enviar seguidores para espionar em nome dos russos, um ato pelo qual mais tarde recebeu uma grande extensão de terra na região de Kherson para que os judeus se estabelecessem.

5. Cantonistas form heróis infantis

Cantonistas militares dos esquadrões de treinamento dos regimentos de Ulanos e batalhões de treinamento dos regimentos de assentamento, 1821–1825.
Cantonistas militares dos esquadrões de treinamento dos regimentos de Ulanos e batalhões de treinamento dos regimentos de assentamento, 1821–1825.

Em 1827, o czar Nicolau I instituiu a infame Lei Cantonista, sob a qual meninos judeus eram levados à força de suas casas para serem treinados como soldados no exército russo. Muitas vezes sequestrados com apenas seis anos de idade, eles se tornavam soldados aos 18 e eram obrigados a servir por até 25 anos adicionais. Separados de suas famílias e comunidades, esses meninos enfrentaram enorme pressão para abandonar o judaísmo, e muitos demonstraram uma devoção notável e heroica à fé de seus ancestrais. Este decreto doloroso durou 30 anos.

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6. Os pogroms mostraram sua terrível face

Em 1881, o czar Alexandre III criou um novo método para aterrorizar os judeus: os pogroms — ataques violentos da população local contra comunidades judaicas. Embora parecessem ser explosões espontâneas de raiva, na verdade eram incitados e sancionados pelo governo. Os pogroms continuaram sem cessar por décadas e levaram mais de dois milhões de judeus a deixar a Rússia rumo aos Estados Unidos e outros destinos mais seguros.

7. A vida religiosa floresceu

Rabi Menachem Mendel de Lubavitch,conhecido como "Tzemach Tzedek
Rabi Menachem Mendel de Lubavitch,conhecido como "Tzemach Tzedek

Apesar das severas restrições e do antissemitismo desenfreado, a vida judaica na Rússia czarista prosperou. Os esforços do chamado movimento Haskalah ("Iluminismo") — apoiado pelo governo — para "modernizar" a vida judaica, corroer os valores judaicos e aumentar a assimilação, em grande parte, fracassaram. A comunidade judaica, liderada por figuras imponentes como o Rabino Menachem Mendel de Lubavitch e o Rabino Yitzchak de Volozhin, lutou tenazmente para manter a educação judaica tradicional e a vida comunitária.

8. Os pratos eram criativos e deliciosos

Em um lugar onde a comida era frequentemente escassa, a criatividade e a engenhosidade supriam o que a despensa não conseguia. Mães e avós judias russas faziam maravilhas com batatas, trigo sarraceno (kasha), beterrabas (borscht) ou qualquer outra coisa que estivesse à mão. E quando tinham a sorte de obter aves ou carne casher, nenhum pedaço era desperdiçado, dando origem a pratos como gribenes (pele de frango frita e crocante) e p'tcha/roledetz (um prato gelatinoso feito de ossos).

Quando os imigrantes judeus russos finalmente chegavam a novas terras onde a comida era abundante, simplesmente nunca conseguiam alimentar suas famílias o suficiente! As babushkas (avós) judias tornaram-se lendárias por mimarem seus netos com comida caseira assim que entravam pela porta.

9. A revolução russa trouxe uma esperança de curta duração

Em 1917, a Revolução Russa derrubou a dinastia Romanov e pôs fim ao regime czarista. Muitos judeus participaram ativamente dos diversos grupos revolucionários que lutavam por esse momento, na esperança de construir um futuro onde a discriminação fosse proibida e todas as pessoas fossem tratadas igualmente. (Cabe mencionar que não havia muitos judeus entre os bolcheviques, o partido revolucionário mais radical da Rússia e aquele que, em última instância, tomou o poder em outubro de 1917.) A comunidade judaica respirou aliviada com o fim da opressão czarista, sem saber que tempos muito piores estavam por vir.2

10. A “igualdade” comunista não era melhor

O líder dos bolcheviques, Vladimir Lenin, certa vez declarou: “Milhões de pecados, atos im undos, atos de violência e contágios físicos… são muito menos perigosos do que a ideia sutil e espiritual de um [D’us]”. À medida que seu partido consolidava o poder e estabelecia a União Soviética, eles mostraram a todos que falavam sério. Sinagogas e escolas judaicas foram fechadas e confiscadas, mikvaot (banhos rituais) foram enchidas de cimento e destruídas, e religiosos e ativistas judeus foram perseguidos e expulsos de seus empregos, espancados nas ruas ou presos. A situação piorou muito sob o sucessor de Lenin, Stalin, com inúmeros judeus — entre muitos outros — executados ou exilados para campos de trabalho brutais chamados Gulags. Ensinar a Torá, observar o Shabat ou circuncidar um bebê era mais do que suficiente para ser acusado de atividades contra revolucionárias.

11. Uma resistência judaica lutou bravamente

Apesar desses perigos, muitos indivíduos corajosos se levantaram contra o regime comunista e lutaram para manter o judaísmo vivo. O líder dessa oposição judaica foi o Sexto Rebe, o Rabino Yosef Yitzchak Schneersohn, que foi preso por seus esforços em 1927 e inicialmente condenado à morte. Após uma comoção internacional, o regime soviético o forçou a deixar o país.

O Rabino Yosef Yitzchak se estabeleceu primeiro na vizinha Letônia, de onde continuou a investir esforços sobre-humanos em prol dos judeus russos — incluindo a liderança bem-sucedida de uma operação para enviar vagões de trem carregados de matsá para a URSS para Pessach de 1929. Ele continuou esses esforços de Varsóvia e, eventualmente, dos Estados Unidos, e após seu falecimento em 1950, esse trabalho prosseguiu com seu genro e sucessor, o Rebe. Uma ativa resistência religiosa persistiu por setenta anos, até a queda da Cortina de Ferro.

12. O plano dos médicos e seu final milagroso

Em 1952, Stalin arquitetou um plano para resolver a “questão judaica” de uma vez por todas. Ele orquestrou acusações falsas alegando que um grupo de médicos judeus estava conspirando para assassinar a liderança soviética. Alimentada pela mídia soviética, uma histeria antissemita em massa varreu o país. Muitos acreditam que Stalin planejava deportar todos os judeus do país para a Sibéria, onde morreriam de trabalho forçado e fome. Milagrosamente, esses planos sinistros foram interrompidos pela morte repentina de Stalin em 9 de março de 1953.

13. Os Refuseniks buscavam liberdade religiosa

A vida judaica na Rússia experimentou um poderoso renascimento após a impressionante vitória de Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Jovens judeus, homens e mulheres, transbordavam de orgulho de sua identidade e se sentiam inspirados a expressá-la de todas as maneiras possíveis. Isso deu origem à dolorosa era dos "refuseniks" — judeus que solicitavam vistos de saída, tinham seus pedidos negados e, em seguida, enfrentavam perseguição em casa e no trabalho por ousarem tentar. Durante essa época, e apesar dos perigos, inúmeros judeus começaram a aprender mais sobre sua herança espiritual, mudando a trajetória de famílias inteiras por gerações.

14. Mensageiros secretos trouxeram inspiração

Embora o contato com o mundo exterior fosse rigidamente censurado, o Rebe se manteve a par dos acontecimentos judaicos secretos em toda a Rússia. Ele enviou dezenas de mensageiros secretos disfarçados de turistas ou empresários, carregando livros de orações, tefilin e outros objetos judaicos escondidos em suas bagagens para distribuir entre os judeus ávidos por sua herança.

15. O comunismo deu lugar à liberdade religiosa

Entre 1987 e 1991, o impossível aconteceu: a Cortina de Ferro que manteve milhões de pessoas em cativeiro por décadas rachou, se abriu e finalmente desmoronou. Cerca de 1,5 milhão de judeus soviéticos emigraram, estabelecendo-se principalmente em Israel e nos Estados Unidos. As centenas de milhares que permaneceram de repente viram todas as restrições religiosas suspensas, livres finalmente para se reconectar com suas raízes judaicas.

16. A vida judaica vivenciou um renascimento sem precedentes

Separados da vida judaica por três gerações, a maioria dos judeus russos tinha pouco conhecimento de sua herança. O Chabad entrou em cena, com o Rebe enviando o primeiro emissário permanente a Moscou em 1990, o Rabino Berel Lazar, que permanece como Rabino Chefe da Rússia. Hoje, existem cerca de 100 centros Chabad em toda a Rússia e muitos outros nas ex-repúblicas soviéticas. De Smolensk, no oeste, a Vladivostok, no extremo leste, de S. Petersburgo a Novosibirsk, na Sibéria, a vida judaica na Rússia está florescendo novamente.

17. Moscou é um centro de poder judaico

Um mapa parcial da infraestrutura comunitária judaica na Grande Moscou, que também abriga escolas Chabad, orfanatos e centros de assistência social, bem como lojas e restaurantes casher.
Um mapa parcial da infraestrutura comunitária judaica na Grande Moscou, que também abriga escolas Chabad, orfanatos e centros de assistência social, bem como lojas e restaurantes casher.

O Kremlin, outrora o edifício mais temido de toda a Rússia, agora domina uma cidade pulsante com a vida judaica. Moscou abriga uma vibrante comunidade judaica, com nada menos que 30 sinagogas, escolas para meninos e meninas, yeshivot, diversos restaurantes casher, organizações de assistência social e tudo necessário para viver uma vida judaica plena.