Um Poema Litúrgico
Ana Bekoach é um belo piyut (poema litúrgico) que suplica a D’us que guarde e purifique aqueles que O seguem.
O piyut é composto por sete versos de seis palavras. A primeira letra de cada palavra combinada forma o nome Divino, com 42 letras. Em muitos livros de orações, o acróstico é impresso ao lado do texto. Cada verso também tem um significado único, correspondendo a uma das sete sefirot emocionais. 1
O poema termina com “Baruch Shem”, a bênção tradicional recitada após pronunciar o nome de D’us.
Aqui está o texto do piyut:
Nós Te suplicamos, com o grande poder da Tua mão direita, liberta os cativos.
Aceita a súplica do Teu povo; fortalece-nos, purifica-nos, ó Temível.
Por favor, ó Poderoso, guarda aqueles que buscam a Tua unicidade, como quem guarda a menina dos olhos.
Abençoa-os, purifica-os; concede-lhes sempre a Tua misericordiosa justiça.
Poderoso e Santo, na Tua abundante bondade, guia a Tua congregação.
Único e Exaltado, volta para o Teu povo, que se lembra da Tua santidade.
Aceita a nossa súplica; ouve o nosso clamor, Conhecedor das coisas ocultas.
Bendito seja o nome do Seu glorioso reino para sempre.
Mas de onde veio este poema e qual é o seu significado? Para chegarmos ao fundo da questão, devemos primeiro discutir o nome Divino, composto por 42 letras.
O Nome de D’us de 42 Letras
O Talmud cita um ensinamento em nome de Rav:
O nome de D’us, 42 letras, só pode ser transmitido àquele que é discreto, humilde, que tem pelo menos metade de sua vida, que não se irrita, não se embriaga e não insiste em seus direitos, mas está disposto a ceder. Não há preocupação de que tal pessoa possa revelar o nome num acesso de raiva ou embriaguez.
E qualquer um que conheça este nome, seja cuidadoso com ele e o guarde em pureza, é amado no Céu e venerado na Terra; e seu temor se estende a todas as criaturas; e ele herda dois mundos, este e o Mundo Vindouro. 2; 3
Mas quais são as letras reais do nome? O Talmud nada diz e Rashi afirma que desconhecia o nome. 4 Mas mesmo que a tradição tenha se perdido para Rashi, ela foi preservada nas academias de estudo babilônicas e parcialmente descrita por Rav Hai Gaon (939-1038). 5
Em uma carta, Rav Hai escreveu que as bênçãos associadas ao conhecimento do nome se aplicam somente àqueles que receberam as tradições que o cercam de uma linhagem direta de mestres que conhecem sua pronúncia correta e estão familiarizados com seus segredos. Já em sua época, disse Rav Hai, ninguém conhecia a pronúncia exata e ninguém era capaz de utilizar seu poder.6
Rabino Shlomo (ben Avraham) ibn Aderet (conhecido como Rashba, 1235-1310) de Barcelona, Espanha, desencorajou as pessoas de recitarem o nome sem instrução adequada. No entanto, ele discute uma diferença de tradição entre as os asquenazitas e sefarditas em relação à grafia exata e ao agrupamento das 42 letras em palavras, o que aponta para um costume existente de recitar o nome.7
Nos séculos 13 e 14, quando os livros da Cabala começaram a ser divulgados, muitos segredos associados ao nome de 42 letras foram revelados. Todas as letras estão escritas no Tikunei Zohar8 e no Sefer Hakaná — tradicionalmente atribuído ao sábio tanaíta Nechunya ben Hakaná, ou a um parente seu9 — associado a nomes de anjos e à criação do mundo.10
Ana Bekoach como um código para o nome de 42 letras
No século 15, 11 o nome de 42 letras aparece em um livro de orações sefardita ao lado de um piyut — intitulado Ana Bekoach — no qual cada palavra começa com uma letra do nome de 42 letras. Esta é uma das fontes mais antigas que apontam diretamente para um costume existente de recitar Ana Bekoach.
Safed, no século 16, época do Arizal, foi um período decisivo na revelação da Cabala. 12 Ideias que antes eram domínio de uma elite acadêmica tornaram-se conhecimento comum. Muitos dos alunos do Arizal falaram sobre o significado do nome de 42 letras, especificamente em conexão com o piyut Ana Bekoach, e instruíram que o piyut fosse recitado em partes específicas da oração, incluindo: durante a recitação do Shemá antes de dormir; durante o Cabalat Shabat, quando saudamos a Rainha do Shabat; e antes das orações matinais diárias. 13 Recitar Ana Bekoach é como aproveitar o poder edificante do nome de 42 letras, ensinaram eles.
De autoria de Nechunya Ben Hakaná?
Os alunos do Arizal (e outros) ocasionalmente se referiam a Ana Bekoach como a oração do sábio tanaíta Nechunya ben Hakaná (século I d.C.).14 Rabi Nechunya é o autor tradicional da obra cabalística Sefer Habahir (entre outras obras). Ele estava vivo na época da destruição do Beit Hamikdash e é conhecido por ter vivido uma vida notavelmente longa.15
Na carta mencionada anteriormente, Rabi Shlomo ben Aderet também falou de uma oração composta por Rabi Nechunya ben Hakaná, um acróstico do nome de 42 letras. Consequentemente, é razoável concluir que ele estava se referindo à oração Ana Bekoach.16
Esta, então, seria a fonte mais antiga para a tradição de que Ana Bekoach (ou um poema semelhante) foi escrito por Nechunya Ben Hakaná.17
Falando em termos práticos
Atualmente, é costume Chabad recitar Ana Bekoach:
- Antes das orações matinais diárias,
- Antes das orações vespertinas diárias,
- Durante o Shemá noturno, antes de dormir,
- Antes da oração de boas-vindas do Shabat,
- Após a contagem do Ômer durante os 49 dias do Ômer,
- Durante as Hakafot em Simchat Torá. (Uma linha é lida em cada Hakafot.)
Os ensinamentos chassídicos explicam que sempre que a alma precisa de elevação espiritual, recitamos esta oração. 18
Embora o acróstico esteja impresso junto com o piyut, ele não deve ser recitado, mas apenas visualizado. 19 Isso está relacionado à preocupação de não mencionar o nome de D’us sem a devida preparação.
Da próxima vez que você recitar Ana Bekoach, pense nas origens sagradas do poema e, acima de tudo, preste atenção à bela súplica a D’us para que nos guie e nos conceda bênçãos.
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