“Deixe-me em paz” é frequentemente sinônimo da expressão comum: “Não quero me envolver”.

Eu era um jovem adolescente em 1964, quando ocorreu o chocante e brutal assassinato de Kitty Genovese. A narrativa predominante (grande parte da qual já foi desmentida) era de que 38 vizinhos testemunharam o ataque e o assassinato em frente ao prédio onde moravam, que durou cerca de 30 minutos, durante os quais ela gritou repetidamente por socorro, mas ninguém interveio ou se preocupou em chamar a polícia. Eles não queriam se envolver.

A história causou comoção em Nova York e além, e levou a uma pesquisa significativa sobre o efeito espectador (a teoria de que quanto mais pessoas presentes, menor a probabilidade de uma única pessoa agir).

A porção da Torá de Ki Tissá tem a duvidosa distinção de conter o vergonhoso caso do Bezerro de Ouro. Uma nação que vivenciou a maior revelação Divina da história no Monte Sinai apenas algumas semanas antes, de repente se perde completamente e, na ausência de Moshe, passa a considerar uma estátua feita por mãos humanas como seu novo líder. Uma tragédia monumental e o pior pecado da nossa história nacional.

Moshe retorna ao local e vendo a cena quebra as Tábuas da Lei em justa indignação. Mas ele também implora por perdão a D’us em nome de sua nação que foi desviada,1 e obtém sucesso. Contudo, ao descer da montanha, ele convoca aqueles que são leais a D’us para se unirem a ele na erradicação dos malfeitores em seu meio. Os ímpios são punidos e cerca de 3.000 pessoas são mortas.

O que está acontecendo aqui? Moshe não persuadiu D’us a perdoar o povo por seus pecados? É isso que vocês chamam de perdão? Por que 3.000 pessoas tiveram que morrer?

A tradição explica que os executados eram os líderes rebeldes, os agitadores, os perpetradores ativos que convenceram seus irmãos a segui-los pelo caminho da idolatria. Essas pessoas simplesmente não podiam ser perdoadas. Havia também os espectadores casuais, aqueles que não estavam ativamente envolvidos, mas que ficavam por perto e “de certa forma” participavam. Talvez estivessem observando de longe. Talvez tenham respondido “amém” ou algo assim. Foi a esse segundo grupo que D’us perdoou.

Mas se eles não estavam realmente envolvidos, por que precisavam de perdão? Qual foi o pecado deles? A resposta oferece uma perspectiva poderosa, relevante naquela época, agora e em todos os tempos.

Um espectador que poderia ter ajudado, mas não ajudou, não é tão inocente. Precisamente por ter ficado parado sem protestar é o que o torna pecador.

Mais de 600.000 homens deixaram o Egito.2 Os instigadores punidos com a morte somavam apenas 3.000, o que significa que a proporção de espectadores inocentes para pecadores ativos era de 200 para 1! Certamente, essa maioria silenciosa poderia ter facilmente subjugado os agitadores e impedido que o Bezerro de Ouro se materializasse.

Assistir em silêncio enquanto tudo o que é sagrado é profanado e desrespeitado nada mais é do que negligenciar ao que é correto e justo. Portanto, essa enorme massa de pessoas basicamente decentes que fecharam os olhos para o mal ao seu redor e disseram: "Não quero me envolver", de fato, necessitava do perdão Divino.

Muitas pessoas podem ser decentes, com valores éticos e morais entre outras qualidades. No entanto, se pessoas boas e corretas fecharem seus olhos e se afastarem dizendo: "Deixem-me em paz" ou "Não quero me envolver", então, tragicamente, as forças das trevas prevalecerão, e nosso mundo se tornará um lugar injusto, mergulhado em caos.

O episódio do Bezerro de Ouro nos lembra que, ao longo da vida, "a única coisa necessária para o triunfo do mal é que as pessoas boas não façam nada".